quarta-feira, 13 de julho de 2016

Camas novas e amores de mãe






Ainda que não percebamos, alguns objetos criam em nós um certo apego. A partir do momento em que damos falta, é como se arrancassem algo de nós, ainda que não possuam uma relevância tão direta no nosso dia-a-dia.

Um desses objetos é a cama. 

A cama guarda nossos segredos. É o nosso confessionário. Nosso diário adolescente trancado com cadeado. Aquele nosso colchão velho, por vezes murcho, por vezes entortado, disfarça nossas verdades. Trocamos a televisão, a estante, o sofá, mas a cama, na maioria das vezes, ali permanece, intacta, como se um novo jogo de lençóis ou um travesseiro de espuma importada a rejuvenescesse. 

Trocar minha cama de madeira da época de adolescência por uma maior não foi uma decisão fácil. Na verdade, não foi sequer uma decisão. Foi um susto, uma revelação diante de mim. Afinal, por que eu continuava a dormir em uma cama que já desmontara por duas vezes comigo em cima? Estaria eu aguardando o terceiro tombo? Foi quando percebi que precisava sonhar em novos ares. 

Iniciei a busca pelo preço mais em conta. Não consegui me imaginar gastando uma fortuna em algo que me serviria apenas para deitar, até perceber que essa não é um tipo de compra boa pra se pensar apenas em economia, afinal, salvo uma repentina e brusca mudança, será naquela cama e naquele colchão que repousarei pelo próximos dez anos. Ou mais. Segui com a busca. 

Após encontrar na internet  uma cama de qualidade boa e preço acessível, fui à loja experimentar. Minha mãe me acompanhou.  Tudo bem, na verdade foi ela quem escolheu o conjunto. Mãe entende dessas coisas. Ora, se ela escolheu meu berço, trinta e um anos atrás, também poderia dar pitaco na minha cama de adulto. Mais que justo. 

Já na loja, olhei e escolhi o modelo, sem maiores demoras. Mas minha mãe, não. Sentia-se em um parque de diversões. Mais prazeroso que loja de bolsas e sapatos, mais agradável que galeria com arsenais de cosméticos. Minha mãe se divertia admirando e imaginando-se dona daquelas camas enormes, até deparar com a maior e mais chamativa daquela loja. Perguntamos o preço: dez mil reais. DEZ-MIL. Ela, com todo o comedimento de alguém  que ali está por nada além de simples admiração, Pediu ao vendedor autorização para deitar. "Um sonho ter uma cama dessas", disse.

Ela deitou e foi desaparecendo do meu campo de visão, sendo engolida e ninada pela maciez daquele colchão. Olhou pra mim e sorriu. Sorriu como alguém que sacia seus desejos. Sorriu como se ali desejasse repousar por uma vida inteira. Sorriu como sorria quando eu pedia colo. Sorriu pra mim como se, naquele momento, a mera retribuição de meu sorriso pudesse realizar esse e todos os seus demais sonhos.  



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