Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Por que os homens desejam mulheres sem passado - Diálogo com Georges Simenon






Georges Simenon teria pensado no modelo perfeito da versão feminina.  

"Betty - Uma mulher sem passado", película de Claude Chabrol baseada no romance de Simenon, encontrava-se levemente empoeirado num canto daquela também empoeirada locadora. Admito ter ficado intrigado com aquele sugestivo título, obrigando-me a fazer uma adaptação para uma outra visão, diferente da história do livro e do filme.

Betty - Uma mulher sem passado.

Teria Simenon não percebido o quão revelador se faz tal título? 

Uma-mulher-sem-passado...

Oh, grande mestre do Noir, você já está aí do lado de Deus, joga um lero nele, uma conversa fiada, agiliza o nosso lado, o lado dos machos malandros de integridade moral intocável, não te custa nada.

Joga umas Bettys cá pra gente. Se puder, enche esse mundo de Bettys. Traz logo um tsunami.

O que? A vizinha? Impossível.

Aquela da academia? Sem condições.

A colega de trabalho? Piorou tudo.

Traz aquela que não conhece nem a mim nem ninguém, a predestinada, aquela que está lá atrás do arco-íris.

Poxa, velho Georges, não me olha com essa cara não. Daí de cima dá pra enxergar muito bem. Eu lá tenho culpa se os homens acovardaram?

Aquela mulher que surge indefesa e assustada, pedindo informação pra encontrar a estação de metrô, pois acabou de chegar de uma cidade distante e não conhece nada nem ninguém. Essa sim. A Betty do imaginário masculino. Essa não tem passado. É prematura. Bateu com a cabeça e apagou todos preconceitos masculinos. Ela não tem ex-namorado presente que consiga estressar.  Não tem amigas chatas pra falar que  o cara se veste mal ou bebe muito. Nunca se relacionou com amigos ou parentes nossos em linha reta ou colateral até o quarto grau. Não oferece resistência. Ambos nasceram ali, nó início do encontro, pra começo  de conversa.

Na defasada visão masculina, a mulher que mora ao lado já teria seu campo minado. É velha de guerra. Vive ao nosso redor, por mais que não percebamos. Nem ela mesma. Não é mais acaso. É conveniência. Quando se encontram, apresentam-se por mero protocolo. Um levanta a ficha do outro em questão de segundos.

Grande mestre, note o que esses homens andam fazendo! Uma verdadeira fuga das mulheres de nosso convívio direto ou indireto, como  se temessem alguma delação, como se um "histórico" amoroso equivalesse a uma ficha de antecedentes criminais, como se um contato anterior fosse um pecado mortal, uma passagem sem escalas para a condenação.

Desdenhamos das mulheres ao nosso lado para procurarmos aquela deusa onírica, aquela  vinda direto do paraíso, feita sob cálculos e medidas pontuais a nossos desejos machistas.  

Pegar? Sem problemas. Uma, duas,  três vezes...

Levar pra cama? maravilha!

Criar vínculos e sentimentos maiores? - Opa, calma lá! Você é ex do cunhado do amigo do meu vizinho? Já ficou com o primo do enteado  do filho do Zé da padaria?? Dá licença, já deu minha hora...

E desaparecemos. De ego ilibado e coração vazio.

Não nos oferecemos por medo de reações e de olhares tortos. Muitas vezes por receio de pessoas que sequer conhecemos. Colocamos o orgulho à frente do amor. Assumimos certos medos por demais desnecessários. Quase que um trauma.

Assumir um compromisso é prestar contas com o futuro. Jamais com o passado.

Preocupar-se com o que ainda não aconteceu e quiçá acontecerá é pura falta de ocupação. O relacionamento não deu certo? Não deu, oras. Que seja por todos os motivos que caibam nesse mundo, desde briguinhas triviais a dolorosas traições, mas nunca por razões criadas em nossos devaneios machistas. Afinal, alguém por aí já ouviu falar em amor sistemático?

Georges, Georginho se já me permite, desculpe perturbar seu sono eterno. Perdoe-me por aludir sua Betty às Bettys do imaginário masculino. Juro que foi só um desabafo. Morreu por aqui.



quarta-feira, 13 de julho de 2016

Camas novas e amores de mãe






Ainda que não percebamos, alguns objetos criam em nós um certo apego. A partir do momento em que damos falta, é como se arrancassem algo de nós, ainda que não possuam uma relevância tão direta no nosso dia-a-dia.

Um desses objetos é a cama. 

A cama guarda nossos segredos. É o nosso confessionário. Nosso diário adolescente trancado com cadeado. Aquele nosso colchão velho, por vezes murcho, por vezes entortado, disfarça nossas verdades. Trocamos a televisão, a estante, o sofá, mas a cama, na maioria das vezes, ali permanece, intacta, como se um novo jogo de lençóis ou um travesseiro de espuma importada a rejuvenescesse. 

Trocar minha cama de madeira da época de adolescência por uma maior não foi uma decisão fácil. Na verdade, não foi sequer uma decisão. Foi um susto, uma revelação diante de mim. Afinal, por que eu continuava a dormir em uma cama que já desmontara por duas vezes comigo em cima? Estaria eu aguardando o terceiro tombo? Foi quando percebi que precisava sonhar em novos ares. 

Iniciei a busca pelo preço mais em conta. Não consegui me imaginar gastando uma fortuna em algo que me serviria apenas para deitar, até perceber que essa não é um tipo de compra boa pra se pensar apenas em economia, afinal, salvo uma repentina e brusca mudança, será naquela cama e naquele colchão que repousarei pelo próximos dez anos. Ou mais. Segui com a busca. 

Após encontrar na internet  uma cama de qualidade boa e preço acessível, fui à loja experimentar. Minha mãe me acompanhou.  Tudo bem, na verdade foi ela quem escolheu o conjunto. Mãe entende dessas coisas. Ora, se ela escolheu meu berço, trinta e um anos atrás, também poderia dar pitaco na minha cama de adulto. Mais que justo. 

Já na loja, olhei e escolhi o modelo, sem maiores demoras. Mas minha mãe, não. Sentia-se em um parque de diversões. Mais prazeroso que loja de bolsas e sapatos, mais agradável que galeria com arsenais de cosméticos. Minha mãe se divertia admirando e imaginando-se dona daquelas camas enormes, até deparar com a maior e mais chamativa daquela loja. Perguntamos o preço: dez mil reais. DEZ-MIL. Ela, com todo o comedimento de alguém  que ali está por nada além de simples admiração, Pediu ao vendedor autorização para deitar. "Um sonho ter uma cama dessas", disse.

Ela deitou e foi desaparecendo do meu campo de visão, sendo engolida e ninada pela maciez daquele colchão. Olhou pra mim e sorriu. Sorriu como alguém que sacia seus desejos. Sorriu como se ali desejasse repousar por uma vida inteira. Sorriu como sorria quando eu pedia colo. Sorriu pra mim como se, naquele momento, a mera retribuição de meu sorriso pudesse realizar esse e todos os seus demais sonhos.  



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