terça-feira, 31 de maio de 2016

Amanhã terminaremos tudo





Amanhã terminaremos tudo. 

Na próxima alvorada, nossos planos se extinguirão. Nossas promessas bonitas de mesas de bar e de poltronas de cinema virarão fábulas. Seus olhos, diante de mim, fecharão para sempre. Não riremos nem implicaremos mais um com o outro. É amanhã. Amanhã seus lábios recolherão seus desejos. Seus olhos olharão pra mim e avistarão um estranho. Ou um inimigo. Amanhã sua ausência passará  a ser dor. Uma dor que fará morada aqui dentro. Você não se preocupará mais em me lembrar de pagar as contas. Eu não lhe trarei mais café pela manhã. Não ouviremos nada mais além do eco de nosso adeus. 

Será amanhã. Nem um dia a mais. A noite será mais longa. A madrugada me aprisionará na cama. Suas costas viradas serão meus olhos implorando descanso. As paredes do meu quarto serão labirínticas. Não encontrarei saída. Enxergarei você na janela, no porta-retratos, no lado esquerdo da minha cama. Os restaurantes que frequentávamos e os bares onde sorríamos juntos serão punhais cravados em meu peito. É amanhã. Quando a noite adormecer, nada mais existirá. 

Essas são as nossas últimas horas. No próximo amanhecer nos desconheceremos. Haverá o receio de nunca termos caminhado. De nunca termos visto à frente. De nunca termos dado as mãos. Amanhã seremos apenas um. Seremos pontos extremos. Criaremos ilusões de que tudo pode mudar. Apenas ilusões. Procuraremos as respostas, mas estarão a milhas de nós. Nossos braços jamais alcançarão novamente um ao outro. Meus olhos perderão o brilho amendoado de você. Desconhecerei o verdadeiro gosto de sua pele. 

Passaremos dias em claro buscando compreender os motivos. Talvez não existam. Talvez estejam diante de nossos olhos. Vagaremos feito sonâmbulos em busca do  inexplicável. Notaremos  ter plantado passados sem colher futuros. Seremos nada além de recordação. De uma doída recordação. Nas recaídas choraremos dúvidas. As respostas serão nossas carnes vazias.

Meus olhos não enxergam nada mais além de ponteiros. Ponteiros de nossos últimos resquícios de tempo. Enxergo a velocidade com que são compassados. Os ponteiros são carrascos incansáveis. Despejam angústias ao apontar suas lanças. Os ponteiros arrancarão o derradeiro suspiro de nós dois. É amanhã. Amanhã terminaremos tudo. Amanhã terminaremos, talvez, o que nunca teve início.  






Comentários 
← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial