quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Jamais me ame como um poeta







Ame-me como um bêbado vadio largado à escória das noites, vagando de bar em bar atrás de putas tristes e de uísques vagabundos, o sorriso castigado pela vida maledicente, exibindo as rugas de um destino que se resume a garranchos, entorpecido por uma marginalidade que parece não ter fim. 

Ame-me como um zeloso pai de família sem um puto no bolso, que adormece com o barulho seco das portas que se fecham em sua cara dia após dia, com o desespero de não ter nem uma galinha morta pra colocar no prato dos filhos pequenos, que se droga de tarjas-pretas e se pendura em sua janela a olhar lá pra baixo, a olhar fixa, demorada e desesperadamente lá pra baixo. 

Ame-me como como um doente terminal que já não tem mais função nesse mundo a não ser esticar os braços para a morte, que carrega consigo o tormento de padecer sozinho em um leito podre de um hospital corroído pela ferrugem e pela ganância humana, que agoniza por um resquício de vida ou por uma merda de uma certidão de óbito que coloque fim de uma vez por todas ao seu último e angustiante suspiro de fé. 

Ame-me como uma mãe que perde um filho, que despeja sua alma junto àquele caixão, que carrega consigo a única e verdadeira dor incicatrizável dessa vida, que veste o rasgo de uma navalha velha em seu peito a cada noite ao deitar na cama, que desistiu do credo e dissipou a culpa de suas desgraças no peito e no traseiro de Deus. 

Ame-me até mesmo como uma poesia suja, marcada pelo vômito de uma vodca barata e de um baseado que mais parece merda de cavalo, manchada pelo sangue da carne cortada e pela lágrima de saber que aqueles versos são o último suspiro de um filho da puta que implora apenas acordar no dia seguinte. 

Ame-me de todas as maneiras e a qualquer forma. Mas não me ame como um poeta. Eu te imploro, meu amor. Jamais como um poeta.





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