Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Jamais me ame como um poeta







Ame-me como um bêbado vadio largado à escória das noites, vagando de bar em bar atrás de putas tristes e de uísques vagabundos, o sorriso castigado pela vida maledicente, exibindo as rugas de um destino que se resume a garranchos, entorpecido por uma marginalidade que parece não ter fim. 

Ame-me como um zeloso pai de família sem um puto no bolso, que adormece com o barulho seco das portas que se fecham em sua cara dia após dia, com o desespero de não ter nem uma galinha morta pra colocar no prato dos filhos pequenos, que se droga de tarjas-pretas e se pendura em sua janela a olhar lá pra baixo, a olhar fixa, demorada e desesperadamente lá pra baixo. 

Ame-me como como um doente terminal que já não tem mais função nesse mundo a não ser esticar os braços para a morte, que carrega consigo o tormento de padecer sozinho em um leito podre de um hospital corroído pela ferrugem e pela ganância humana, que agoniza por um resquício de vida ou por uma merda de uma certidão de óbito que coloque fim de uma vez por todas ao seu último e angustiante suspiro de fé. 

Ame-me como uma mãe que perde um filho, que despeja sua alma junto àquele caixão, que carrega consigo a única e verdadeira dor incicatrizável dessa vida, que veste o rasgo de uma navalha velha em seu peito a cada noite ao deitar na cama, que desistiu do credo e dissipou a culpa de suas desgraças no peito e no traseiro de Deus. 

Ame-me até mesmo como uma poesia suja, marcada pelo vômito de uma vodca barata e de um baseado que mais parece merda de cavalo, manchada pelo sangue da carne cortada e pela lágrima de saber que aqueles versos são o último suspiro de um filho da puta que implora apenas acordar no dia seguinte. 

Ame-me de todas as maneiras e a qualquer forma. Mas não me ame como um poeta. Eu te imploro, meu amor. Jamais como um poeta.





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sábado, 9 de janeiro de 2016

Não vai ser você





Não vai ser você.

Não vai ser você que me fará generalizar os homens. 

Não vai ser você o cara a me tratar como mais uma e exigir exclusividade.

Não vai ser você quem rirá de mim com os amigos enquanto me tranco a chorar no quarto. 

Não vai ser você que contará histórias mirabolantes pra justificar ausências corriqueiras. 

Não vai ser você que me fará pensar em casamento e filhos quando eu estiver deitada na cama e olhando pro nada.

Não vai ser você que inventará desculpas esfarrapadas pra não estar comigo numa noite bonita de lua cheia. 

Não vai ser você quem despejará tédio quando meus dias estiverem floridos. 

Não vai ser você que desfigurará meu sorriso com essa sua face mascarada. 

Não vai ser você que contará vantagem pros amigos enquanto alimento em mim um sentimento de vergonha de algo que, naquele momento, foi verdadeiro. 

Não vai ser você que exigirá a verdade dos meus olhos diante da falsidade dos seus gestos. 

Não vai ser você que levará pra si tudo aquilo que sonho um dia dividir com alguém. 

Não vai ser você quem destruirá tudo de bonito que penso sobre os dias de amanhã. 

Não vai ser você que me fará desacreditar em todo encantamento existente num abraço. 

Não vai ser você que estará ao meu lado em corpo, mas a milhas de distância em mente. 

Não vai ser você a marejar o brilho dos meus olhos com suas atitudes e palavras mentirosas. 

Não vai ser você que me afastará das convicções que tenho sobre uma relação verdadeira. 

Não vai ser você que me fará sentir medo dos meus sentimentos mais sinceros.

Não vai ser você que conseguirá apagar de mim os sorrisos de quando me sinto amada.

Não vai ser você que me tratará com desdém enquanto sou apenas saudade. 

Não vai ser você a gargalhar diante de toda a minha dificuldade em compreender essa solidão.

Não vai ser você o infeliz que ressuscitará o medo de me entregar de novo a alguém. 

Não vai ser você quem freará toda essa minha pressa de viver.

Não vai ser você que vai tirar a minha fé no amor.

Não vai.

Não vai ser você. 

Nem você, nem ninguém. 







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