Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

E se o amor não fosse cercado de expectativas e dúvidas?





E se eu não tivesse quatro provas na semana seguinte e conseguisse ir àquela festa que você disse que iria?

E se eu tivesse viajado pra sua cidade naquele feriado que você me convidou?

E se eu não tivesse discutido com você por um motivo que nem eu sei ao certo se é verdadeiro?

E se? E se? E se?

Eis aí a frase mais mais fantasiosa - e dolorosa - num amor que não existiu. Ou existiu, mas ficou pelo caminho. 

Em tempos de aplicativos de encontros, de "te beijei hoje, amanhã não te conheço", de relacões fast-food e de, como diria o mestre Xico Sá, relacionamentos "fala sério", é compreensível nos flagrar recorrendo até às equações matemáticas pra resolvermos questões amorosas. 

Você está saindo com um cara legal, bom papo, coisa e tal. Tudo caminha pra um relacionamento duradouro, e eu sei que você já imaginou uma nababesca viagem pras Maldivas junto dele, pensou no momento de apresentar pra família e riu sozinha imaginando a primeira saída com os outros casais de amigos. 

E então vocês marcam de se encontrar naquele barzinho perto de casa, aquele que já se tornou o "de sempre", e tudo corre às mil-maravilhas. 

Mas no dia seguinte ele não te manda mensagem. Nem no outro, Nem no outro. 

Então você resolve quebrar o silêncio e manda um whatsapp. Ele demora um dia inteiro pra responder. É notório que a conversa não é mais a mesma. Ele está mais seco. Mais direto. Você propõe um cinema. Ele diz que vai ficar até tarde no trabalho. "Se der, outro dia a gente marca. Agora preciso trabalhar. Bjs". E assim, aos poucos, aquele encontro começa a se desenhar como o último de vocês dois. 

Danou-se.  

O que aconteceu? O que eu fiz? O que eu falei? 

E se eu não tivesse falado de religião? E se eu tivesse acompanhado ele no chope? Será que foi aquela discussãozinha boba na noite anterior?

E tome dúvidas em cima de dúvidas. Uma vontade agoniante de voltar àquele dia e refazer o detalhezinho que teria culminado no afastamento. 

Como se isso fosse adiantar alguma coisa. 

Amor nada mais é que destino. E destino nada mais é que um aglomerado de coincidências propositadas. Propositadas por sei lá quem, por Afrodite, Eros, anjo da guarda, teorias da conspiração... mas o certo é que há um quê e um porquê por trás de toda relação que se sustenta, que ultrapassa as briguinhas cotidianas, que consegue se firmar e perceber que, de fato, é amor. 

Tudo bem, eu sei que na teoria isso é lindo, e que na prática é necessário passar por cima de certas vontades e orgulhos, mas qual relacionamento não é assim? Qual relação não é sustentada pelo equilíbrio? Defeitos, brigas e contratempos ocorrerão aos montes, e se isso for motivo pra um dois dois desistir logo de cara, pode acreditar: não era pra ser. 

Decerto que a expectativa toma conta da gente quando notamos que algo pode dar certo, e no amor essa dose vem numa quantidade consideravelmente maior. E quando algo não caminha na direção que imaginamos, quando aquilo em que depositamos nossos anseios não dá certo, temos a cruel mania de imaginar como seria se fôssemos perfeitos e fizéssemos exatamente o que o outro deseja. 

Como se fosse possível viver numa redoma de um amor-perfeito. 

Assim são os relacionamentos. São feitos de tentativas. São construídos com confiança e afeto, por ele e por si mesma, primordialmente. E a única coisa que se exige em troca é o coração aberto. Estar disposta a encarar esses sentimentos humanamente bonitos e imperfeitos. Saber que existe alguém e que está por aí, em algum canto, um cara comum como tantos, que te aceitará e te chamará de "meu bem" na frente de tudo e de todos. E quando menos esperar, algo aí dentro perguntará pra ti: "e se você resolvesse viver esse amor pra vida inteira?". 





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sábado, 29 de outubro de 2016

A história do casal mais feliz do "facebook", ou não






Colocar "namorando" em redes sociais é complicado, ela diz. Ele concorda. A boa desculpa de que os invejosos ficarão de olho grande sempre cola. "Isso interessa apenas pra nós dois", clichêzinho da verdade. Você tem certeza de que é isso mesmo? Você realmente quer?", um pergunta ao outro. Mentira, não perguntam. Mas gostariam de perguntar. Gostariam muito.


Mudanças no status de relacionamento nas redes sociais não é brincadeira. Ganhou um nível de importância capaz de mover montanhas. Páreo a páreo com a troca de alianças.


"Bem, entre continuar sendo o/a único/a solteiro/a da galera por não sei mais quanto tempo,ou tentar construir algo, de repente essa segunda opção seja mais válida. Vamos tentar e ver no que dá."


Eis então que resolvem alterar o status. Tá lá pra quem quiser ver:  "em um relacionamento sério" no "facebook".


Fotinho, abraçados, do dia que se conheceram. Poema do Zack Magiezi. Duzentas curtidas. Quarenta comentários. "Felicidades!" "Eu já sabia!" "Lindo casal!" "s2"


Agora a parada ficou séria.


Primeiras semanas: vídeo do onze vinte. "Lembrei de você, mô.", Montagem com fotos de língua pra fora e fazendo caretas. "Até nas loucuras ela me completa". Trecho do Los Hermanos. E até quem me vê lendo o jornal ma fila do pão, sabe que eu te encontrei...


Acho que já vi esse filme.


Primeiro dia dos namorados juntos. Jantar a dois. Selfie com o buquê de flores. Selfie com o nome do restaurante (caro) ao fundo. Selfie mostrando o prato chique. Procura por "frases de amor" no Google. CTRL C CTRL V. Curtidas. Mais curtidas.


Carnaval com outros casais no sítio do tio de um dos amigos. Foto da tulipa cheia com a garrafa de cerveja artesanal ao lado. "Que comecem os trabalhos! Se sentindo: Feliz; Em: Campos do Jordão.


Discussões. Postagens indiretas em forma de música do Jorge e Matheus. Indiretas com um trecho do Carpinejar. Indiretas com algum texto de autoajuda achado na internet com a assinatura do Caio Fernando Abreu ou do Veríssimo. Desbloqueia antigos contatos no Messenger.


Reconciliação. Selfie no restaurante do primeiro encontro. Hashtag teamo. Hashtag amormeu. Hashtag amorverdadeiro. Hashtag mylove. Cento e cinquenta curtidas. "Sempre soube que vcs se entenderiam =)"


Dias depois...


Ele: Festa com os amigos. "Deixa que eu bato a foto. Não me marca, senão ela vai descobrir e eu tô ferrado!"


Ela: Foto sorridente com as amigas. "Ladies Night!"


Dias passam, até que numa manhã qualquer, ao abrir o "facebook":


"Vocês estão completando um ano de amizade no "facebook"! Compartilhe esse momento!"


E aparece aquela exata foto do dia que se conheceram, abraçados, com poema do Zack Magiezi, com tantas curtidas e comentários felizes.


Um ano? Já ?  Ela se espanta.


Um ano de quê? Ele se pergunta.

Desce a barra de rolagem e curte a foto do/a antigo/a peguete. 



Nenhum dos dois compartilhou.








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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Eu te enxergo perto, e você tão longe





Você levanta a sobrancelha quando passa por mim, e o nosso mundo é tão lindo.

É assim que você passou a me dirigir palavras. Palavras de sobrancelhas, palavras de olhos fechados, palavras que silenciam-me. 

Olhe nos meus olhos por eternos cinco segundos e diga que nada mais te vem à mente, pra que assim eu vá embora de ti de uma vez. 

Olhe nos meu olhos por eternos cinco segundos e diga que a minha falta te sufoca como quem toma, numa só, meia caixa de tarja-preta, e assim passaremos a entender o real sentido da vida. 

Olhe nos meus olhos. 

A partir do momento que minha presença for pra ti nada além de mera leviandade, esse livro se fechará. Esse livro de nossas palavras soltas e espalhadas sem qualquer regramento sumirá do mundo. 

O amor pode ser tudo menos um serviçal das vontades alheias. 

Eu tinha você e não fazia ideia de que na verdade eu não tinha nem a mim mesmo. Eu não tinha nem sequer o mínimo resquício de mim mesmo. 

E eu não sei o que diabos alguém pode ter quando não tem nem a si mesmo. 

Diga que você me encontrará e encontraremos a vida. 

Só nos falta perceber que a reciprocidade é a mãe de todas as verdades, e ressuscitaremos no peito do outro. 

Sim, eu falo de reciprocidade, falo de corações abertos, de sorrisos que ganham o mundo, de defeitos que não se escondem e de discos do Nirvana. 

Reciprocidade gera reciprocidade. 

Não sei se é ironia ou se Deus, por propósitos ou eufemismos, criou esse mundo assim, tão pequeno, simplesmente pra bastar eu fechar os olhos e te enxergar cada vez mais perto. 

Eu te enxergo perto, e você tão longe. 

Eu fecho os olhos e te enxergo perto, e você é tão longe.

Deus cochichou em meus olhos propósitos e eufemismos. 

Eu olho pra trás quando passo por ti, e o nosso mundo é tão lindo. 





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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Hoje te escrevo, amanhã te odiarei




Você era a mulher mais linda que existia dentro de mim.

Até eu escondê-la em meu canto mais remoto.

Foi quando descobri que poderia omiti-la até em meus mais inóspitos excessos.

Menos debaixo de meus olhos.

Você, inutilmente, se esforçava pra nadar em minhas lágrimas.

E eu a olhava como quem não tem qualquer alternativa.

Restou-me afogá-la ainda mais.

Afogá-la das sobras de mim.


Você padece naufragada em meu mar salgado. 

Meus olhos fingem não te ver.

Enxergam qualquer uma, mas não você.

Seus suspiros ofegantes escorrem de minhas retinas.

Sua boca te embriaga com o que me dói.

Do alto de tua ironia, es um cisco encravado em mim.


Tua resistência vai se esgotando.

E agora, já sem ar, solto de vez da tua mão.

Você se afoga em minha profundez.

E toda aquela cena ganha vida em meu lembrar.

Enxergo-te, novamente, a mais linda de todas

A mais puta de todas.

A mais profunda de todas.

Seja bem-vinda ao meu último déja-vu.

Seja bem-vinda, meu amor.


Hoje te escrevo. Amanhã te odiarei.






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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Por que os homens desejam mulheres sem passado - Diálogo com Georges Simenon






Georges Simenon teria pensado no modelo perfeito da versão feminina.  

"Betty - Uma mulher sem passado", película de Claude Chabrol baseada no romance de Simenon, encontrava-se levemente empoeirado num canto daquela também empoeirada locadora. Admito ter ficado intrigado com aquele sugestivo título, obrigando-me a fazer uma adaptação para uma outra visão, diferente da história do livro e do filme.

Betty - Uma mulher sem passado.

Teria Simenon não percebido o quão revelador se faz tal título? 

Uma-mulher-sem-passado...

Oh, grande mestre do Noir, você já está aí do lado de Deus, joga um lero nele, uma conversa fiada, agiliza o nosso lado, o lado dos machos malandros de integridade moral intocável, não te custa nada.

Joga umas Bettys cá pra gente. Se puder, enche esse mundo de Bettys. Traz logo um tsunami.

O que? A vizinha? Impossível.

Aquela da academia? Sem condições.

A colega de trabalho? Piorou tudo.

Traz aquela que não conhece nem a mim nem ninguém, a predestinada, aquela que está lá atrás do arco-íris.

Poxa, velho Georges, não me olha com essa cara não. Daí de cima dá pra enxergar muito bem. Eu lá tenho culpa se os homens acovardaram?

Aquela mulher que surge indefesa e assustada, pedindo informação pra encontrar a estação de metrô, pois acabou de chegar de uma cidade distante e não conhece nada nem ninguém. Essa sim. A Betty do imaginário masculino. Essa não tem passado. É prematura. Bateu com a cabeça e apagou todos preconceitos masculinos. Ela não tem ex-namorado presente que consiga estressar.  Não tem amigas chatas pra falar que  o cara se veste mal ou bebe muito. Nunca se relacionou com amigos ou parentes nossos em linha reta ou colateral até o quarto grau. Não oferece resistência. Ambos nasceram ali, nó início do encontro, pra começo  de conversa.

Na defasada visão masculina, a mulher que mora ao lado já teria seu campo minado. É velha de guerra. Vive ao nosso redor, por mais que não percebamos. Nem ela mesma. Não é mais acaso. É conveniência. Quando se encontram, apresentam-se por mero protocolo. Um levanta a ficha do outro em questão de segundos.

Grande mestre, note o que esses homens andam fazendo! Uma verdadeira fuga das mulheres de nosso convívio direto ou indireto, como  se temessem alguma delação, como se um "histórico" amoroso equivalesse a uma ficha de antecedentes criminais, como se um contato anterior fosse um pecado mortal, uma passagem sem escalas para a condenação.

Desdenhamos das mulheres ao nosso lado para procurarmos aquela deusa onírica, aquela  vinda direto do paraíso, feita sob cálculos e medidas pontuais a nossos desejos machistas.  

Pegar? Sem problemas. Uma, duas,  três vezes...

Levar pra cama? maravilha!

Criar vínculos e sentimentos maiores? - Opa, calma lá! Você é ex do cunhado do amigo do meu vizinho? Já ficou com o primo do enteado  do filho do Zé da padaria?? Dá licença, já deu minha hora...

E desaparecemos. De ego ilibado e coração vazio.

Não nos oferecemos por medo de reações e de olhares tortos. Muitas vezes por receio de pessoas que sequer conhecemos. Colocamos o orgulho à frente do amor. Assumimos certos medos por demais desnecessários. Quase que um trauma.

Assumir um compromisso é prestar contas com o futuro. Jamais com o passado.

Preocupar-se com o que ainda não aconteceu e quiçá acontecerá é pura falta de ocupação. O relacionamento não deu certo? Não deu, oras. Que seja por todos os motivos que caibam nesse mundo, desde briguinhas triviais a dolorosas traições, mas nunca por razões criadas em nossos devaneios machistas. Afinal, alguém por aí já ouviu falar em amor sistemático?

Georges, Georginho se já me permite, desculpe perturbar seu sono eterno. Perdoe-me por aludir sua Betty às Bettys do imaginário masculino. Juro que foi só um desabafo. Morreu por aqui.



quarta-feira, 13 de julho de 2016

Camas novas e amores de mãe






Ainda que não percebamos, alguns objetos criam em nós um certo apego. A partir do momento em que damos falta, é como se arrancassem algo de nós, ainda que não possuam uma relevância tão direta no nosso dia-a-dia.

Um desses objetos é a cama. 

A cama guarda nossos segredos. É o nosso confessionário. Nosso diário adolescente trancado com cadeado. Aquele nosso colchão velho, por vezes murcho, por vezes entortado, disfarça nossas verdades. Trocamos a televisão, a estante, o sofá, mas a cama, na maioria das vezes, ali permanece, intacta, como se um novo jogo de lençóis ou um travesseiro de espuma importada a rejuvenescesse. 

Trocar minha cama de madeira da época de adolescência por uma maior não foi uma decisão fácil. Na verdade, não foi sequer uma decisão. Foi um susto, uma revelação diante de mim. Afinal, por que eu continuava a dormir em uma cama que já desmontara por duas vezes comigo em cima? Estaria eu aguardando o terceiro tombo? Foi quando percebi que precisava sonhar em novos ares. 

Iniciei a busca pelo preço mais em conta. Não consegui me imaginar gastando uma fortuna em algo que me serviria apenas para deitar, até perceber que essa não é um tipo de compra boa pra se pensar apenas em economia, afinal, salvo uma repentina e brusca mudança, será naquela cama e naquele colchão que repousarei pelo próximos dez anos. Ou mais. Segui com a busca. 

Após encontrar na internet  uma cama de qualidade boa e preço acessível, fui à loja experimentar. Minha mãe me acompanhou.  Tudo bem, na verdade foi ela quem escolheu o conjunto. Mãe entende dessas coisas. Ora, se ela escolheu meu berço, trinta e um anos atrás, também poderia dar pitaco na minha cama de adulto. Mais que justo. 

Já na loja, olhei e escolhi o modelo, sem maiores demoras. Mas minha mãe, não. Sentia-se em um parque de diversões. Mais prazeroso que loja de bolsas e sapatos, mais agradável que galeria com arsenais de cosméticos. Minha mãe se divertia admirando e imaginando-se dona daquelas camas enormes, até deparar com a maior e mais chamativa daquela loja. Perguntamos o preço: dez mil reais. DEZ-MIL. Ela, com todo o comedimento de alguém  que ali está por nada além de simples admiração, Pediu ao vendedor autorização para deitar. "Um sonho ter uma cama dessas", disse.

Ela deitou e foi desaparecendo do meu campo de visão, sendo engolida e ninada pela maciez daquele colchão. Olhou pra mim e sorriu. Sorriu como alguém que sacia seus desejos. Sorriu como se ali desejasse repousar por uma vida inteira. Sorriu como sorria quando eu pedia colo. Sorriu pra mim como se, naquele momento, a mera retribuição de meu sorriso pudesse realizar esse e todos os seus demais sonhos.  



sábado, 11 de junho de 2016

Por que ela ainda não "arrumou" um namorado




Foi chato dizer que eu não tinha a resposta, mas não havia opção. A verdade é que se tratava de uma daquelas perguntas cuja solução é genérica demais ou pessoal demais. Ou os dois juntos. Mas prometi que chegaria a um resultado, e gosto de cumprir com minhas promessas. Ela perguntou por que, logo no comemorado e temido dia doze de junho, ainda não havia arrumado namorado.

O próprio termo já soa de maneira esquisita, "arrumar namorado". O sentido equivale a se dar bem, a obter vantagem pra si. Dá até um ar de malandragem e, definitivamente, esse não é o caminho. Você arruma é desconto naquela calça jeans, arruma cortesia pra noitada de sábado, até arruma um cara que lhe pague um drinque. Mas namorado você não arruma, sinto dizer. "Mas é só o jeito de falar!". Negativo. Há todo um contexto em volta, e estando afinada na teoria, a prática torna-se menos complicada. Namorar é simplesmente namorar, ok?

Namorado não se procura, mas não significa que você não possa flertar com a sorte. Antes é preciso se olhar internamente. É necessário que você seja apaixonada por si para despertar a paixão de outros. Fala a verdade, você está tão acima do peso como acha? Seu cabelo é realmente tão rebelde como aquela propaganda de xampú diz? Tem certeza que aquele cara do setor financeiro só tem olhos para aquela menina da recepção? De onde você tirou essas ideias? Saber-se bonita é se saber feliz, e isso transparece aos olhos demais olhos.

Namorar é se surpreender, a começar por si mesma. Você gosta de caras morenos, frequentadores de academia e entendedores de signos. Mas aposto a senha do meu cartão de crédito que você vai passar a reparar naquele cara branquelo, magro, que se veste de maneira esquisita, conta piadas e tem uma coleção de carrinhos na prateleira do quarto. "Mas o que esse cara tem demais?" Repara direitinho. Repara na sua cara quando ele não muito raramente lhe arranca uma gargalhada e você retribui com um sorrisinho tímido seguido de uma ajeitadinha nos cabelos. Repara na sua cara de atenção quando ele comenta que assistiu à trilogia de "O poderoso chefão" pela segunda vez, que joga tênis com o tio às quintas e quando te ensina alguma palavra em alemão, empolgado com o início do curso. Ainda que você não tenha assistido nem ao primeiro dos três clássicos de Coppola, que não faça ideia do que seja um smash e um backhand e ache a língua alemã a mais chata desse planeta, adorará ouvir as histórias e ainda dará pitaco. "Nossa, mas eu nunca me interessei por essas coisas... como pode?". Ora, garanto que você sabe a resposta e não precisa se dar o trabalho de me contar. Amar é quebrar protocolos, é você rachando sua própria cara. Amor é sinônimo de Deus, também escreve certo por linhas tortas. É um eterno paradoxo.

Quem namora tem paixão, mas tem que ter muito mais amor. Paixão você pode ter em cada esquina, em cada festa, em cada ida à academia, e sabe que se confunde com amor. Diz estar apaixonada, e não lhe tiro a razão. Quem se apaixona também desapaixona, e na mesma velocidade. Um pouco diferente é no amor. Paixão pode até virar amor, mas amor jamais virará paixão. Amor é a paixão crescidinha, dona de si, irresponsável às vezes, é até bom, mas é conhecedor de sua essência. Paixão devora. Amor demora. Amor pega a paixão no colo e nina. Um conselho: namorar, além de estar apaixonada, é estar amoronada.


Não se preocupe com o doze de junho. Em vez disso, seja sua própria jardineira. Cultive. Abra a porta de si e para si. O amor não pedirá licença e nem tirará os sapatos.






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terça-feira, 31 de maio de 2016

Amanhã terminaremos tudo





Amanhã terminaremos tudo. 

Na próxima alvorada, nossos planos se extinguirão. Nossas promessas bonitas de mesas de bar e de poltronas de cinema virarão fábulas. Seus olhos, diante de mim, fecharão para sempre. Não riremos nem implicaremos mais um com o outro. É amanhã. Amanhã seus lábios recolherão seus desejos. Seus olhos olharão pra mim e avistarão um estranho. Ou um inimigo. Amanhã sua ausência passará  a ser dor. Uma dor que fará morada aqui dentro. Você não se preocupará mais em me lembrar de pagar as contas. Eu não lhe trarei mais café pela manhã. Não ouviremos nada mais além do eco de nosso adeus. 

Será amanhã. Nem um dia a mais. A noite será mais longa. A madrugada me aprisionará na cama. Suas costas viradas serão meus olhos implorando descanso. As paredes do meu quarto serão labirínticas. Não encontrarei saída. Enxergarei você na janela, no porta-retratos, no lado esquerdo da minha cama. Os restaurantes que frequentávamos e os bares onde sorríamos juntos serão punhais cravados em meu peito. É amanhã. Quando a noite adormecer, nada mais existirá. 

Essas são as nossas últimas horas. No próximo amanhecer nos desconheceremos. Haverá o receio de nunca termos caminhado. De nunca termos visto à frente. De nunca termos dado as mãos. Amanhã seremos apenas um. Seremos pontos extremos. Criaremos ilusões de que tudo pode mudar. Apenas ilusões. Procuraremos as respostas, mas estarão a milhas de nós. Nossos braços jamais alcançarão novamente um ao outro. Meus olhos perderão o brilho amendoado de você. Desconhecerei o verdadeiro gosto de sua pele. 

Passaremos dias em claro buscando compreender os motivos. Talvez não existam. Talvez estejam diante de nossos olhos. Vagaremos feito sonâmbulos em busca do  inexplicável. Notaremos  ter plantado passados sem colher futuros. Seremos nada além de recordação. De uma doída recordação. Nas recaídas choraremos dúvidas. As respostas serão nossas carnes vazias.

Meus olhos não enxergam nada mais além de ponteiros. Ponteiros de nossos últimos resquícios de tempo. Enxergo a velocidade com que são compassados. Os ponteiros são carrascos incansáveis. Despejam angústias ao apontar suas lanças. Os ponteiros arrancarão o derradeiro suspiro de nós dois. É amanhã. Amanhã terminaremos tudo. Amanhã terminaremos, talvez, o que nunca teve início.  






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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Dar e receber suas mãos






Ela gosta de colorir sentimentos em suas mãos.

Faz de suas unhas, espelhos de seus olhos. Floresce amanheceres em dias nublados e sonolentos. São luzes que perfumam sextas-feiras em preto-e-branco. São cores que se moldam em poemas dentro de si.

É como se ela possuísse o mundo na palma de suas mãos.

Como se o azul fosse os resquícios lá do céu. Um céu que, pra ela, nunca foi o limite.

Como se o amarelo pingasse versos em seus cabelos.

Como se o cinza a protegesse em seus momentos de concentração.

Como se o vermelho roubasse os lábios do seu sorriso. Ou despisse seu coração.

Suas mãos são seus segredos. São sua nudez. São donas de toda a força necessária pra transformá-la na mulher mais segura e decidida desse mundo. Mas também possuem a leve poesia de uma menina que brinca de esconder seus medos e incertezas.

 Às vezes ela se confunde. - é dor ou proteção? - A força do seu peito apertando o coração.

 Mas também sabe ser doce quando quando deseja, da maneira mais bonita desse mundo, despejar carinhos.

Quando repousa sua mão junto à minha.

Quando, timidamente, tenta esconder de mim a sua cor nova.

Quando me olha enviesada e se segura pra conter o sorriso.

Quando bate acarinhando. Quando faz careta mandando beijo.

Ela sorri como quem faz cafuné. Como se a cor de suas mãos fossem estrelas a apontar caminhos. E nela não há como existir escuridão.

Com ela sempre haverá manhãs. E manhãs de arco-íris, de passeios bonitos, onde o maior e mais importante desejo seja apenas dar-lhe as mãos.

Dar e receber suas mãos.





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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Desiste desse voo






Se existe algum pedido nesse mundo capaz de mudar a minha e a sua rotina, os próximos amanheceres, o Sudoeste que bate nos mares em dias de ressaca e o movimento de rotação deste planeta,  esse pedido é o seguinte: desiste desse voo.


Desiste. Teria como? Você ficou tão pouco por aqui, ainda que todos os nossos momentos tenham sido tão valiosos a ponto de segundos transformarem-se em horas, sinto como se todo o tempo desse mundo não fosse suficiente pra nós dois, entende? Aliás, o que seria o tempo senão uma mera tentativa de definir nossa vontade de estarmos cada vez mais juntos?

Desiste desse voo! Eu preparo estrogonofe pra você. Podemos fazer pipoca caramelada e assistir a uma maratona de Woody Allen. Posso ler um conto meu, também. Ou escrever tendo a ti como minha irrefutável inspiração. Viu só quantas coisas ainda nos falta aproveitar? Quantas praias não tivemos tempo de visitar? Quantos bares e cervejas artesanais ficarão pendentes se você não desistir desse voo?

Desiste, vai. O ar-condicionado desses aviões é digno de um inverno em Bratislava, e você está com uma tossezinha ultimamente. Saúde em primeiro lugar! Além do mais, vi na internet que na data do seu voo está prevista uma tempestade daquelas, e entre chacoalhar numa temida turbulência ou aproveitar um cappuccino numa cama quentinha, acho que não dá pra pensar duas vezes, concorda?

Desiste desse voo. Joga tudo pro alto, dá uma de maluca, sei lá. Fala pro seu chefe que eu adoeci e você precisou cuidar de mim. Desiste, que eu compro outra passagem pra você. Eu conto uma história triste pro gerente do meu banco, ele aumenta o limite do meu crédito e depois parcelo em dez vezes, tudo certo!  


Desiste, pode ser? Esquece o mundo, os problemas, os empecilhos, esquece tudo, só não esquece de toda a verdade que nos une. Desiste de fazer as malas, desiste do  adeus, desiste dos abraços de até-qualquer-dia-desses-quem-sabe. Desiste dessas tristezas e dessas despedidas. Desiste logo desse voo. Desiste? desiste e vem fazer morada em mim. 




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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Quisera eu escrever sobre o amor




Um dia, minha amada, saberei escrever sobre o amor. Saberei usar as palavras bonitas feito esses poetas que te arrancam suspiros sonhadores. Ah, benzinho, que inveja tenho desses versos de amor que tanto te acalentam, e por que não eu, um poetinha a vagar pelos seus olhos castanhos em busca da mais fina inspiração pra descrevê-los, e sofrer eternamente pela recusa de seus beijos? Mas não, pouco ou nada tenho de intimidade com as palavras, então restou-me apenas admirá-la da minha maneira singela e trivial, feito um reles qualquer desses que caminham por aí em busca de respostas para as difíceis perguntas de seu coração. Ah, quisera eu! Quisera eu debruçar-me sobre o mar e de lá avista-la caminhando tão despretensiosamente quanto o levitar dos anjos, tão bonita, mas tão bonita capaz de mudar toda aquela paisagem com a simples pincelada de seus lábios a sorrirem para mim, e nesse exato momento seria como se todos os problemas da vida fossem solucionados, como se todas as crianças famintas se alimentassem, como se aquele casal separado por discussões tolas não escondessem mais a falta que fazem um ao outro  e corressem pra se abraçar sem que dissessem uma palavra sequer. Quisera eu, meu amor, escrever um poema que fosse capaz de emocionar até o mais rabugento dos seres desta Terra,  e quando perguntassem de onde teria surgido tanta inspiração, eu diria com a mais contagiosa alegria que tudo isso viria de você, e que somente por você eu seria capaz de amar e sofrer como nunca, afinal qual é a distância entre a felicidade e a dor em um amor verdadeiro? Ah, a beleza da poesia, a riqueza dos versos que transparecem o marejar de seus olhos, tão dotados de carinhos leves e sorrisos plenos, quisera eu saber domá-las, e numa folha simples de um caderno velho, declamar-te minha por eternidades, e que quando você os lesse, abrisse o sorriso mais sincero desse mundo e me chamasse de meu-poeta, me chamasse carinhosamente e apenas de meu-poeta. Quisera eu! Quisera eu escrever sobre o amor!





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segunda-feira, 7 de março de 2016

Como resistir a um "dorme bem"?





E quando a madrugada já começa a ganhar forma, quando o assunto da conversa vai diminuindo e o despertador já avisa que amanhã é segunda-feira, quando é dada a malfadada hora de se despedir da donzela - oh! malditos compromissos do nosso humilde ganha-pão!, quando entupimos o whatsapp dela com emoticons fofos e coraçõezinhos coloridos, eis que ela nos dá o ultimato:

"Dorme bem".

Vou repetir bem devagar: Dorme-bem.

Sacaram, meus caros, toda a pureza e doçura contida nessa simples frasezinha?

Dorme bem  é cafuné das sílabas, é o abajur aceso que espanta os vultos da madrugada, é a história que a mãe contava pra dormirmos em meio à insônia.

Dorme bem é declaração de amor, é cobertor pros dias de frio, é travesseiro de penas de ganso, é perceber que nossa amada é carinhosa ate mesmo quando nos braços de Morfeu.

Que sorte a nossa...

Pode ter havido aquela discussãozinha chata de um fim de noite, a clássica DR, sentimentos à flor da pele, deixa disso, claro que te entendo. Mas experimente ouvir essas duas palavras ao final de todas as maledicências ditas. Nada mais fará sentido, senão a certeza de que ali estará seu amor eterno enquanto durar.

Dormirei, benzinho, dormirei como um anjo!

Sim, o sono das mulheres é a oitava maravilha do mundo, é o ápice divino dos sete dias de construção dessa Terrinha, e em virtude disso, de toda a onírica bossa-nova de seus desejos, elas fazem questão de que as acompanhemos também nesse momento de sono profundo. 

Ainda que a uns bons quilômetros da terra da garoa, salve Caetano: alguma coisa acontece no meu coração...

Como se tudo isso não bastasse, elas ainda dão uma maneira de deixar essa frasezinha ainda mais sentimental:

 "Dorme bem, tá?"

Aí não. Aí já é maldade.

"Dorme bem, tá?". Afinal, o amor nada é senão uma bela e lírica interjeição de concordância, a mais carinhosa das ordens, quase que um carinho atrás da orelha, por supuesto.

Meus caros, fujamos aqui do gramaticalmente correto, que de culta essa norma não terá nada, afinal pouco me importa esse gracioso deslize de conjugação verbal, afinal o bonito é o que vem da alma, certo?

"Durma bem".  A gramática de alta linhagem e o encanto na lata do lixo. Não quero saber de norma culta. Nem que pra isso seja necessário formalizar a expedição do nosso alvará de informalidades dos desejos bonitos.

"Durma bem" jamais! "Dorme bem", para a remissão dos pecados michaelicos e aurelianos.

Ah, minha querida, aguardo aqui diariamente o seu "dorme bem" que acalmará minhas noites em claro. Enquanto isso, vagando madrugadas afora, o eterno serveur Reginaldo há de me entender lá de cima: se eu pegar no sono, me deite no chão...





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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Eu espero o seu tempo






Eu espero o seu tempo.

A pressa não fará parte de mim. A vontade de pular suas etapas passará longe. O desejo de te ter antes de que você tenha a ti mesma não me dominará.

Não olhe pra mim com medo de suas certezas. Confie nelas. Algumas de nossas certezas são sagradas. São cochichos de Deus em nossos ouvidos. Não há por que temê-las.

Foi por isso que escolhemos um ao outro. Por todas essas nossas pequenas particularidades. Sabia que todo amor é um amontoado de particularidades bonitas? E você tem as mais belas. Peço que jamais se esqueça disso.

Eu sei que às vezes a incerteza nos domina, aquele medo natural de não decifrarmos o que nos aguarda, talvez aí é que esteja toda essa magia que nos envolve. E o mais belo disso tudo são exatamente esses detalhes indecifráveis. É o que nos faz acreditar cada vez mais um no outro.

Todo amor tem seu tempo. E o seu tempo é o meu tempo. Isso significa que, juntos, temos toda uma vida pela frente. Temos o tempo de caminhar de mãos dadas, de dar risadas, de chorar também. Temos o tempo de apresentar nossas famílias, de planejarmos o futuro, de escolhermos o nome do cachorro e os padrinhos e madrinhas.

E seria uma enorme covardia minha impôr meu tempo sobre o seu.

Eu sei que um passado triste te fez ficar com o pé atrás. Sei que alguém não soube te tratar com o devido amor. E sei, acima de tudo, que certas dores necessitam de tempo pra cicatrizar

Repito: o seu tempo é o meu tempo.

Nessas horas todo um filme passa pela sua mente. "Será que ele não fará a mesma coisa? Será que a intenção dele é a mesma da maioria? Será que existem mentiras por trás dos olhos dele?"

Eu compreendo suas dúvidas e medos. E te respeito.

Não te despejarei palavras de efeito, poemas da internet ou presentinhos clichês. Não te ligarei nas madrugadas, nem mandarei mensagens inoportunas e invasivas. Não tentarei me fazer presente quando você necessitar apenas de si própria para encontrar as respostas de que precisa.

Mas estarei sempre ao seu lado se você precisar de um suspiro de alívio, de um sorriso verdadeiro e de uma mão pra proteger. Ou pra acarinhar.

Não me dê justificativas. Não subverta o que te machucou. Seu silêncio são minhas palavras. Seus olhos apequenados sabem falar a nossa língua. Sua boca é onde nos escondemos desse mundo.

O tempo mostrará as diferenças. Certos traumas somem sem que percebamos, e pra isso não há receitas secretas, nem feitiçarias. Basta apenas a vontade de fazermos moradia um no outro.

Eu espero o seu tempo.  Mas não solto da sua mão. 



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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Seu poema está aqui [18+]






Era o início de mais uma madrugada. O vento passava forte, o céu ameaçava desabar, e uma noite fria de inverno e solidão já tomava conta de mim. Foi nesse retrato que seu rosto me sorriu,  e eu sempre soube que madrugadas são propícias pra subverter boas lembranças. Você voltou à minha mente depois de umas garrafas de cerveja, após o teor alcoólico amenizar meus pensamentos naquela noite triste, quando em dados momentos e em madrugadas vazias, as respostas, ainda que vagas, pareciam me contentar.

Então voltei o olhar  para aquela minha poltrona velha na frente da tevê, e foi como se eu te visse novamente ali largada, só de calcinha, me chamando de "meu poeta" e falando "quando que aquele meu poema vai ficar pronto, seu merda, você só me enrola!". Era bom te ver ali, de perna aberta, pouco se importando com a janela escancarada e de frente pro vizinho, com o calor dos infernos do Rio de Janeiro ou com a ressaca que tomava conta de nós dois. Você me penetrava com esses seus olhos castanhos, e de cara eu já entendia: queria ser penetrada também. Nessa hora não havia ressaca, crise econômica ou poltronas velhas que nos impedissem de nada. 

Sei lá, parece idiotice minha - e talvez realmente seja, mas é como se nesse pouco tempo, você tivesse criado lugar cativo aqui. É estranho rolar pro lado na cama e não e não ouvir o teu esporro: "Tu é folgado, hein?". Sim, faz falta essa tua brutalidade que se desarmava de prazer se ganhasse uma mordida no pescoço e uma puxada de cabelo por trás. Sinto saudade dessa tua boca que dividia comigo cervejas, baseados e beijos quentes. Sinto falta da tua bunda tremendo quando eu batia forte com a mão ou com o pau. Sinto falta desse teu suor escorrendo pelo meu corpo depois do gozo. Sinto falta de você batendo a porta e rindo, dizendo que nunca mais voltaria. Mas você voltava. Até que um dia cumpriu com a palavra. A essa altura deve estar numa outra cidade. E num outro bar. E esfregando a bunda em algum outro barbudo de sorte. 

A lembrança de ti ainda é boa. E o seu poema já está pronto, aqui comigo, cheio de putaria, do jeito que você pediu. Qualquer dia você aparece pra buscar. Ou o interpreta, de quatro, numa cama qualquer.






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