segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Talvez eu seja seus pés





Ela tem a mania de dormir com o lençol entre os pés.

Diz que, independentemente do calor, necessita do lençol pra adormecer. Tem naquele pedaço de pano um fiel amante. Um eunuco. Um guardador de sonhos. Um zelador de intimidades. Sente-se tão protegida quanto livre dentro de si. Distancia-se das frias brumas de seus medos.



Ela gosta de sapatos vermelhos.

Sente-se a mais mulher das mulheres. A mais meninas das meninas. Ela sempre disse que o amor começava pelos pés. São paixões platônicas ao dispôr de seus passos. Há toda uma combinação com seus lábios de maçã. Basta bater os calcanhares pra que alguém a ame como num conto-de-fadas.


Ela anda descalça pelas ruas da vizinhança.

Quase chora de tanto desejar sua infância. Aqueles paralelepípedos desnivelados eram sua estrada de tijolos amarelos. A cada passo que dá, sente vontade de se livrar de todas as obrigações e deveres de um mundo adulto. Seus pés pretos de sujeira nada são além de suas lembranças lhe querendo bem.



Ela parece levitar enquanto dança.

Move-se pelo salão de uma maneira inocentemente graciosa. Certa vez contei suas passadas. Sete. Apenas sete são as passadas necessárias pra que seus pés ganhem asas e se levantem. Sentia-me dono do mundo quando envolto em seus braços e seus passos. Nas alturas, brincávamos de esquecer quem éramos. 


Talvez seus pés sintam vontade de despi-la durante as noites. 

Talvez eu seja seus pés.










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