Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

É com amor que lembrarei de ti





Não, não é mais a mesma coisa. E não foi simples perceber. Talvez você não compreenda de bate-pronto, eu não farei julgamentos, sei que essas coisas são confusas, que o tempo passou, você viveu uma longa história, até cogitava casamento e filhos, não é? Mas quero que saiba que sempre torci por você, ainda que à minha maneira. Preferi me resguardar, me afastar de ti, afinal a vida me ensinou que amores não vividos são bonitos e poéticos só até certo ponto. Depois passa a machucar. E como machuca.

Encontrar você novamente, com o mesmo sorriso escancarado e com a mesma sinceridade no olhar, me fez voltar no tempo. Recordei os bons momentos, as alegrias vividas juntos, foi tudo muito bom, não foi? Não é tarefa fácil admitir que os dias trataram de me cicatrizar de ti.  E se não seria nem um pouco justo comigo, o que dizer com você? Te ver solteira ali ao meu lado, depois de tanto tempo, dançando com a mesma leveza e angelicalidade de antes, fez com que eu revirasse sentimentos. Talvez eu tenha tentado resgatar algo que já estava finalizado, e quando digo isso, digo de uma maneira bonita, sem ressentimentos, sem mágoas, e sim com a convicção de que histórias verdadeiras não têm a necessidade de serem lembradas por vaidades.

Eu sei que as coincidências desse mundo nos colocaram frente a frente novamente, na mesma roda de amigos, nos mesmos lugares de lazer, e saiba que enxergo isso da melhor maneira possível. Sua presença me alegra, suas histórias são sempre engraçadas e gargalhadas jamais faltarão pra quem estiver ao seu lado. E hoje, com uma visão mais madura do que vivemos, é isso que lhe desejo: toda a felicidade do mundo ao lado de alguém que te complete, porque sei que você a completará sem muito esforço, pois isso é virtude sua, preencher quem estiver ao seu lado de uma maneira naturalmente plena. 

Não é mais a mesma coisa e a vida vai seguir normalmente. É claro que ainda nos esbarraremos demais por aí, olharemos demais um pro outro, riremos demais também, e se hoje te amo é de uma forma apenas minha, e isso nada tem de desonesto, afinal o que mais vemos por aí são amores fajutos sendo jurados como quem jura amor eterno, concorda? 

Não é mais a mesma coisa, mas é com amor que lembrarei de você. E que se danem as controvérsias.    






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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Namore uma mulher que lhe deseje um bom apetite





Diz o velho ditado que é pela boca que se conquista o coração de um homem. Carrego minhas dúvidas, pois a entrega em domicílio e o drive thru continuam em alta. Eu faria uma adaptação. Diria que é pelo cortejo à boca que realmente se conquista o coração dos machos. Sim, refiro-me ao cinematográfico 'bom apetite!".

Bom apetite... Isso me lembra aqueles chefes de cozinha italianos, barrigudos e bigodudos com seus chapéus de mestre-cuca gritando 'Buon appetito!' para os fregueses da sua cantina. Ou então aquele gerente puxa-saco ao cumprimentar seu patrão na hora em que este está de saída pro almoço. Esse é o bom apetite eleitoreiro, que enxerga  o retorno, que facilita pra ser facilitado. Não me refiro a esse, e sim ao bom apetite quase que materno, àquele que vem com um sorriso de sobremesa, àquele que já não vemos por aí. O bom apetite genuinamente feminino. 

Ainda que não possua guardado as receitinhas da vovó. Ainda que não saiba discernir a panela de pressão de uma frigideira. Ainda que não saiba nem riscar  um obsoleto palito de fósforo e acender a boca de um fogão velho. A mulher que deseja 'bom apetite' pega o atalho dos corações famintos. 

Que mulher amada, essa que nos deseja bom apetite... É tão segura de si que é capaz de falar abertamente (e sem medo)  sobre o maior inimigo das mulheres midiaticamente complexadas: a balança. Sabe que somos devotos do seu  pneuzinho de bicicletinha infantil, doces aprendizes das primeiras pedaladas e tombos. O bom apetite não deseja controle, coleiras, e sim a pura liberdade, aquela liberdade sabida de todos os seus mais ternos bem-quereres.

O bom apetite da mais fina educação sem qualquer regra de etiqueta. Do chope e da picanha no lugar do caviar e da champanhe. Do bom apetite sem frescuras, sem aulas de francês, sem mentir a idade. Das palavras bem faladas, molhadas nos olhos, do biquinho mais sexy e natural na pronúncia dos dois tês. O bom apetite de desejar o bem sem olhar a quem, minha lady

Nunca pecará pela falta. Seu desejo não tem a preocupação demasiada de uma mãe nem a formalidade de uma nova namorada. Seu desejo é apenas desejar. Sua verdade é a mais simples e a mais clara. Seu desejo de cuidar é de mais pura família. São vontades plurais. A mulher não esperará uma resposta ao seu doce bom apetite. O bom apetite já é uma pergunta-resposta. 

E que mãe essa mulher será, meus amigos... Que mãe!

Imagino o prazer e o cuidado na amamentação, na fartura do seu mais sagrado alimento, das bochechas rosas e roliças de seus rebentos. Zelosos sentimentos maternos aguardam essa cuidadosa mulher, altruísta por essência, aflorando sua vontade de cuidar de tudo e de todos. Apetitoso esmero de amiga, mãe e companheira fiel.  

Mulheres que desejam bom apetite: multiplicai! Aos milhares, aos milhões! E olhai pra este desiludido cronista...








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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Talvez eu seja seus pés





Ela tem a mania de dormir com o lençol entre os pés.

Diz que, independentemente do calor, necessita do lençol pra adormecer. Tem naquele pedaço de pano um fiel amante. Um eunuco. Um guardador de sonhos. Um zelador de intimidades. Sente-se tão protegida quanto livre dentro de si. Distancia-se das frias brumas de seus medos.



Ela gosta de sapatos vermelhos.

Sente-se a mais mulher das mulheres. A mais meninas das meninas. Ela sempre disse que o amor começava pelos pés. São paixões platônicas ao dispôr de seus passos. Há toda uma combinação com seus lábios de maçã. Basta bater os calcanhares pra que alguém a ame como num conto-de-fadas.


Ela anda descalça pelas ruas da vizinhança.

Quase chora de tanto desejar sua infância. Aqueles paralelepípedos desnivelados eram sua estrada de tijolos amarelos. A cada passo que dá, sente vontade de se livrar de todas as obrigações e deveres de um mundo adulto. Seus pés pretos de sujeira nada são além de suas lembranças lhe querendo bem.



Ela parece levitar enquanto dança.

Move-se pelo salão de uma maneira inocentemente graciosa. Certa vez contei suas passadas. Sete. Apenas sete são as passadas necessárias pra que seus pés ganhem asas e se levantem. Sentia-me dono do mundo quando envolto em seus braços e seus passos. Nas alturas, brincávamos de esquecer quem éramos. 


Talvez seus pés sintam vontade de despi-la durante as noites. 

Talvez eu seja seus pés.










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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Carta aberta a esses homens frouxos






Olha, o que tenho visto por aí não é brincadeira não. Parece piada, e antes realmente fosse, mas não passa da mais crua realidade. Que esse homens moderninhos estão cada vez mais babacas, isso já não é nenhuma novidade. Que andam fugindo de relacionamentos sérios como o capeta foge da cruz, todo mundo já sabe. Mas daí acharem que nós, mulheres bem resolvidas e donas de si, estamos à mercê de suas vontades e caprichos infantilóides, já é demais. E põe demais nisso. 

A impressão que tenho é a de que todo homem pensa que as mulheres buscam um príncipe encantado em cada esquina. Devem imaginar que passeamos por aí suspirando, inebriadas de amor como nesses textos românticos que viralizam na internet ou como na "Malhação" na época que prestava. Parece até que andamos com uma placa pendurada ao pescoço, dizendo "Procura-se um namorado urgentemente!"

Meus caros, lamento informá-los, mas estamos muito, muito longe disso. 

Senhores machões inveterados, saibam de uma coisa: os tempos são outros. Assim como vocês, também gostamos de pegar sem se apegar. Também sabemos aproveitar a solteirice da melhor maneira, e aquele ditado "solteira sim, sozinha nunca!" apenas retrata uma verdade. Diferentemente do que imaginam, estamos longe de cair de quatro por vocês quando se utilizam das maneiras mais tolas e supérfluas pra chamar nossa atenção. Não nos levem a mal, mas não há como segurar uma risada irônica e debochada - até com um quê de pena - diante das estripulias financeiras babaquinhas de vocês. E o que é pior: acham que nos impressionam! Saibam que isso nada revela além de uma personalidade fraca e uma cabeça vazia. 

Entendam o seguinte, muitas vezes nós queremos exatamente a mesma coisa que vocês: uma agradável noite de diversão. E se terminar em sexo, melhor ainda. Gostamos tanto quanto os homens, a única diferença é que não banalizamos. Dá pra entender? As coisas têm mudado, essa onda que vocês pensam que tiram ao mostrar fotos nossas pros amigos, acompanhado de um sonoro "Peguei!" não é nada além do que fazemos também. Talvez com uma certa delicadeza, pouco ou nada interessadas em números, e sim no conteúdo, na diversão e no prazer. Não pensem que imaginamos altar, véu e grinalda enquanto vocês dão risada após uma noite de sexo. Onda por onda, também sabemos tirar. 

E se no final das contas rolar um química, uma conexão de ideias, uma cumplicidade entre os corpos, que pecado há? Existe algo de errado ou de ruim nisso? Uma mensagem carinhosa no dia seguinte, um simples "Tudo bem?" é tão capaz assim de ofender a teatral imagem de machão-que-não-se-apega-a-ninguém? Percebem que não falo sobre nada de outro mundo, né? É o mínimo a se fazer depois de toda uma intimidade. Garanto que não imaginaremos nenhuma paixonite aguda da parte de vocês.

Ter vontade de encontrar novamente com alguém que te fez bem é algo ruim? Tratar com afeto uma pessoa que despertou em ti sentimentos bons é ser piegas? 

Ora, senão pra isso, pra quê viemos ao mundo? 

Caros machões, muitas de nós desejam, sim, um relacionamento firme e duradouro, e isso é digno, é bonito, é humano, nada tem de vergonhoso ou de ruim. Mas deliram se pensam que há todo um desespero como no tempo de nossas bisavós, como se uma mulher solteira fosse algo que indignificasse. Diria até que, diante dessas atitudezinhas de meninos-babões, estamos muito melhores na companhia das amigas, de uma boa noitada e de uma cerveja gelada. Continuem babacas e medrosos, pois nós continuaremos de copo cheio, sorriso no rosto e camisinha na bolsa.

Desse donjuanismo barato que vocês tentam encenar, saibam: a máscara já caiu. E como todo produto falso, se espatifou.








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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O amor é uma grande e bela breguice




Você acena pra mim de uma maneira aparentemente tímida, e eu, pego de surpresa, não consigo disfarçar a alegria em forma de sorriso. Ah, essas deliciosas coincidências, um mundo desse tamanho todo e nós dois no mesmo lugar e na mesma hora. Minha mente vai longe, será que realmente não passa de uma mera casualidade? Não haveria um alinhamento dos planetas ou um complô dos deuses no meio disso tudo? 

Passei  a desdenhar do tempo no momento em que te encontrei. Tenho a impressão de que esses malditos e ininterruptos ponteiros que regem nossa vida paralisam quando diante de ti. Já te disseram que há em você toda uma espontaneidade ao conversar fazendo caras-e-bocas? Que seus olhos, vezes castanhos claros, vezes esverdeados, expressam-se tanto quanto seu sorriso envergonhado? Que suas palavras são pra mim as canções que eu jamais conseguiria compor? Você caminha a passos mansos, serenos, e te acompanhar me faz imaginar que não estamos no meio de tantos carros e tantos prédios,  e sim à beira de um rio bem clarinho, ouvindo o barulho da correnteza chocando-se em algumas pedras. Já pensou? Antes que você comece a zombar de mim, saiba que se sou assim tão sonhador a ponto de pensar essas coisinhas bobas, é tudo por causa de você, senhora-culpada-pelos-meus-mais-adoráveis-e-sinceros-pensamentos.  

Reparo no seu novo corte de cabelo, você sorri e pergunta, um pouco espantada, se radicalizou muito ao cortar as mechas até quase na altura dos ombros. Eu te acalmo e digo que continuaria charmosa mesmo com um agressivo moicano moldado a gel, você faz careta e diz que isso não vale, pede pra eu falar sério, e acredite, sinceridade maior eu não seria capaz de dizer. Gosto desse seu jeito camaleoa, autentica, e sei que personalidade forte você tem pra dar e vender. 

Você segue em frente e meu caminho me obriga a virar a esquina. Me abraça e diz até-qualquer-dia. Diminuo o passo e te observo caminhando. Sei que você riria da minha cara se eu te dissesse isso, mas se o amor nada é senão uma grande e bela breguice, então fico a imaginar se algum dia viraremos, de mãos dadas, as esquinas dessa vida.





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