quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Quando ela se toca




Nua, ela deita-se na cama após o dia de trabalho. Olha-se no espelho e se reconhece. Passeia sobre os olhos de seu corpo. Analisa-se como se declamasse versos em si. E sorri.

É ela e sua solidão. É ela dentro de si mesma. Um quarto, uma cama e o seu corpo. Uma única harmonia. Suas pernas permitindo passagens. Seus dedos, desbravadores de seus desejos. Cúmplices de suas primitivas vontades. Nesse momento ela nada é além de instinto. Seus olhos se fecham para darem vista às suas ânsias. O suor desabrocha num delicado perfume. É o seu cheiro mais feminino. Suas pernas se contorcem e sua mão segura com força o lençol da cama. É como se ela desse as mãos a si mesma. Seus cabelos escorrem pelo rosto como se desejassem esconder os lábios que, mordidos, escancaram sinceridades. A cada movimento ela se reconhece mais. A cada toque, seus desejos ganham força. Passa a se entregar como se sua existência ali se resumisse.

Sua mente ganha liberdade e os desejos tomam forma. Perdão pra quê? Os sussurros traduzem-se em uma linguagem universal. É essa,  a verdadeira e genuína linguagem do corpo. São seus pés tremendo. São seus braços tremendo. São seus dedos que se irrigam do seu mais precioso néctar. Seu corpo abraça-se como se pedisse colo. Também expulsa-se como se pedisse tapas. Não há por que haver pudor. Ela entrega-se de pura alma a seus arbítrios, e o sol, que entra timidamente pelas frestas da janela, parece abençoá-la. Era como se a benzesse de suas salivas.  

Ela não constrói tabus. Seu corpo é sua propriedade, e ela o detém com autonomia. Seus dedos, despudorados, sabem por onde deslizar. Quase chora de tanto que se doa. Treme a cintura como se dançasse para os anjos. Nesse momento ela não encontra-se mais em si. Seus seios apontam a direção dos céus. Sem que perceba, ela levita. Sente como se estivesse prestes a explodir. Ou a incendiar. Sente como se seus olhos fossem mudar de cor. Como se  um calor dentro de si implorasse por liberdade. Sente um arrepio que surge como um frio para fora de sua alma. É como se seu corpo a chamasse. Como se seu corpo a pedisse de volta.

Com os olhos marejados, vira-se para o lado após o nirvana, por completo redimida dos pecados dessa Terra. 






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