quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Detalhes de ti que ainda guardo comigo






Então você me olhava como quem pedia socorro por causa da luz que entrava pelas frestas da cortina. Era como se o sol  - por pura inveja, quem sabe - maltratasse seus olhos castanhos. Como se implorassem pra permanecer fechados.
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Era assim que você acordava, querida. Dormia apenas com as minhas blusas de rock cortadas na manga. Podia fazer um calor digno do Saara, mas você só adormecia com o cobertor. Podia nevar lá fora, mas se o ar-condicionado não estivesse ligado, ainda que fosse no mínimo, certamente seria uma noite de insônia.
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Aquela espreguiçada com o travesseiro nas mãos e a coberta nos pés, cabelos jogados no rosto, vira pra cá, vira pra lá como quem deseja permanecer pra sempre naquele colchão, a essa altura o mais macio de todos os colchões desse planeta. Olhava pra mim com os olhos ainda apequenados e perguntava, de forma mais sarcástica impossível. "Tô bonita?"
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Café-da-manhã. Se não fosse com a mesa posta, tudo separadinho, leite, suco, bolo, manteiga, queijo, pão, patê, presunto, seu dia começaria faltando alguma coisa. Uma mesa digna daqueles comerciais felizes de margarina. Ainda que você não comesse nem um terço daquilo. "Café-da-manhã também é sagrado!", você dizia.  
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Aquela corridinha na academia logo de manhã. Que disposição! Era sempre às sete horas, né? Você e a sua mania de sempre encontrar algum defeitinho nesse corpo que, pra mim, nada deixava a dever pra essas atrizes da novela das nove. Chegava em casa e muito mal largava a bolsa no sofá, um banho demorado era tudo o que você desejava. Se fosse um final de semana daqueles clássicos do verão carioca, um mergulho na piscina.
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Nós dois indo pro trabalho juntos, que sorte nossas empresas serem tão próximas, apenas uma estacãozinha do metrô nos separava, apenas seis quadras seria a nossa distância nas próximas horas. O metrô vezes vinha cheio, vezes guardava um lugarzinho pra nós dois. Você dizia que gostava de andar de metrô, que lá encontramos gente de todos os lugares, certa vez você apontou pra uma senhorinha simpática sentada aos fundos e disse que fora sua professora na quinta série, que memória você tem! E de fato lá era possível encontrar muita gente, inclusive nós dois, de mãos e vidas dadas.
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Nossas noites. Nosso templo. Um restaurante japonês ou uma cervejinha e um bom filme. Você, Almodóvar. Eu, Tim Burton. Quase sempre era eu que cedia, mas de bom grado, claro. Na verdade, qualquer filme seria pura diversão pra nós dois. De luz, apenas o meu abajur. Eu e você. Um único corpo. Fazíamos, reconstruíamos e reinventávamos; éramos amor.  
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Recordo de tudo, minha querida. Mas recordo devido a um triste e inevitável motivo: hoje nós dois somos lembranças. 
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Apenas lembranças.   





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