Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Pra quê se contentar com amores pela metade?





Entender o amor não é tarefa fácil. Nunca foi. Desafio quem consiga, e caso comprove farei votos de que escreva o livro mais vendido de todos os tempos, que ganhe milhões dando consultas amorosas e candidate-se à Presidência dos Estados Unidos.

Mas em certos momentos não precisamos ser especialistas pra reconhecermos se é amor ou não. Melhor: não há necessidade de ser nenhum expert pra enxergar uma certa discrepância de sentimentos entre duas pessoas. Alguém doando-se como quem já imagina igreja lotada e "Whisky a go go" tocando na festa de casamento. Há algo de errado nisso? É óbvio que não, estranho é quem nunca parou pra pensar em futuro quando diante de alguém que te completa de todas as maneiras. O problema ocorre quando a outra pessoa não está no nosso mesmo nível de amor, se assim pode-se dizer. Em alguns casos não se trata nem de má índole nem sacanagem, e sim de dúvidas que um relacionamento de alguns anos não foi suficiente pra sanar. Resumindo, o ponto de interrogação ainda mora atrás dos sorrisos fáceis dele, entende?

Há também o caso onde a pessoa reconhece essa diferença, e ao meu ver, falo agora do pior estágio de um amor-fantasia: o comodismo. Que pode ser mútuo, inclusive. A relação não é mais a mesma, e isso você já nota não é de hoje. Mas vá lá, são mais de três anos juntos, um terço do seu guarda-roupa já está na casa dele, sua sogra adora mostrar fotos de quando ele era criança, o irmãozinho pequeno faz festa quando você chega, e até àquele basset de latido estridente você já está apegada. Além disso, você não faz sexo menos de três vezes na semana e não está nem um pouco interessada em diminuir essa margem. Então passa a alimentar uma falsa sensação de que tudo pode mudar, que aquelas alegrias dos primeiros meses voltarão, é só uma fase turbulenta, ainda que já esteja há mais de um ano nessa. E a tendência, me perdoe a sinceridade, é seguir ladeira abaixo.

Mas não precisamos ir tão longe pra percebermos essa falta de sintonia. Aquela pessoa que surgiu do nada na sua vida, já foram incontáveis encontros e você passou a enxergar nele o cara certo. Porém não é difícil notar que as trocas de mensagens já diminuíram, os programas de fim de semana caíram na mesmice, a cumplicidade em contar os problemas e ouvir palavras de incentivo e conforto já não são mais tão frequentes. E se olharmos de uma maneira mais fria, nota-se que tudo tem se resumido a sexo. Não que isso seja ruim, mas quando os dois sabem exatamente o que desejam e procuram um no outro. Não estou exigindo nenhum príncipe montado em cavalo branco, apenas tentando evitar o que mais pra frente será certo: alguém saíra magoado dessa "brincadeira", e não há dúvidas de que será aquele que mais se entregou.

A verdade é que o amor é equilíbrio. É buscar sempre a mesma sintonia, ou algo muito próximo disso. Não há como manter uma relação onde um é cem por cento entrega e o outro está apenas a passeio. Não há como querer levar à frente um relacionamento onde as mãos dadas não fazem mais tanta importância, onde as palavras e gestos de afeto cederam lugar à rotina de um namoro empurrado-com-a-barriga. Não dá. Não há como ser meio-termo no amor. Não dá pra ser amado pela metade e se contentar. Que seja inconstante, brega, com umas briguinhas aqui outras ali, mas que seja única e verdadeiramente amor. 

Só se contente com amores plenos. Quase-amor ainda é solidão.






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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Detalhes de ti que ainda guardo comigo






Então você me olhava como quem pedia socorro por causa da luz que entrava pelas frestas da cortina. Era como se o sol  - por pura inveja, quem sabe - maltratasse seus olhos castanhos. Como se implorassem pra permanecer fechados.
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Era assim que você acordava, querida. Dormia apenas com as minhas blusas de rock cortadas na manga. Podia fazer um calor digno do Saara, mas você só adormecia com o cobertor. Podia nevar lá fora, mas se o ar-condicionado não estivesse ligado, ainda que fosse no mínimo, certamente seria uma noite de insônia.
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Aquela espreguiçada com o travesseiro nas mãos e a coberta nos pés, cabelos jogados no rosto, vira pra cá, vira pra lá como quem deseja permanecer pra sempre naquele colchão, a essa altura o mais macio de todos os colchões desse planeta. Olhava pra mim com os olhos ainda apequenados e perguntava, de forma mais sarcástica impossível. "Tô bonita?"
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Café-da-manhã. Se não fosse com a mesa posta, tudo separadinho, leite, suco, bolo, manteiga, queijo, pão, patê, presunto, seu dia começaria faltando alguma coisa. Uma mesa digna daqueles comerciais felizes de margarina. Ainda que você não comesse nem um terço daquilo. "Café-da-manhã também é sagrado!", você dizia.  
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Aquela corridinha na academia logo de manhã. Que disposição! Era sempre às sete horas, né? Você e a sua mania de sempre encontrar algum defeitinho nesse corpo que, pra mim, nada deixava a dever pra essas atrizes da novela das nove. Chegava em casa e muito mal largava a bolsa no sofá, um banho demorado era tudo o que você desejava. Se fosse um final de semana daqueles clássicos do verão carioca, um mergulho na piscina.
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Nós dois indo pro trabalho juntos, que sorte nossas empresas serem tão próximas, apenas uma estacãozinha do metrô nos separava, apenas seis quadras seria a nossa distância nas próximas horas. O metrô vezes vinha cheio, vezes guardava um lugarzinho pra nós dois. Você dizia que gostava de andar de metrô, que lá encontramos gente de todos os lugares, certa vez você apontou pra uma senhorinha simpática sentada aos fundos e disse que fora sua professora na quinta série, que memória você tem! E de fato lá era possível encontrar muita gente, inclusive nós dois, de mãos e vidas dadas.
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Nossas noites. Nosso templo. Um restaurante japonês ou uma cervejinha e um bom filme. Você, Almodóvar. Eu, Tim Burton. Quase sempre era eu que cedia, mas de bom grado, claro. Na verdade, qualquer filme seria pura diversão pra nós dois. De luz, apenas o meu abajur. Eu e você. Um único corpo. Fazíamos, reconstruíamos e reinventávamos; éramos amor.  
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Recordo de tudo, minha querida. Mas recordo devido a um triste e inevitável motivo: hoje nós dois somos lembranças. 
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Apenas lembranças.   





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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Quando ela se toca




Nua, ela deita-se na cama após o dia de trabalho. Olha-se no espelho e se reconhece. Passeia sobre os olhos de seu corpo. Analisa-se como se declamasse versos em si. E sorri.

É ela e sua solidão. É ela dentro de si mesma. Um quarto, uma cama e o seu corpo. Uma única harmonia. Suas pernas permitindo passagens. Seus dedos, desbravadores de seus desejos. Cúmplices de suas primitivas vontades. Nesse momento ela nada é além de instinto. Seus olhos se fecham para darem vista às suas ânsias. O suor desabrocha num delicado perfume. É o seu cheiro mais feminino. Suas pernas se contorcem e sua mão segura com força o lençol da cama. É como se ela desse as mãos a si mesma. Seus cabelos escorrem pelo rosto como se desejassem esconder os lábios que, mordidos, escancaram sinceridades. A cada movimento ela se reconhece mais. A cada toque, seus desejos ganham força. Passa a se entregar como se sua existência ali se resumisse.

Sua mente ganha liberdade e os desejos tomam forma. Perdão pra quê? Os sussurros traduzem-se em uma linguagem universal. É essa,  a verdadeira e genuína linguagem do corpo. São seus pés tremendo. São seus braços tremendo. São seus dedos que se irrigam do seu mais precioso néctar. Seu corpo abraça-se como se pedisse colo. Também expulsa-se como se pedisse tapas. Não há por que haver pudor. Ela entrega-se de pura alma a seus arbítrios, e o sol, que entra timidamente pelas frestas da janela, parece abençoá-la. Era como se a benzesse de suas salivas.  

Ela não constrói tabus. Seu corpo é sua propriedade, e ela o detém com autonomia. Seus dedos, despudorados, sabem por onde deslizar. Quase chora de tanto que se doa. Treme a cintura como se dançasse para os anjos. Nesse momento ela não encontra-se mais em si. Seus seios apontam a direção dos céus. Sem que perceba, ela levita. Sente como se estivesse prestes a explodir. Ou a incendiar. Sente como se seus olhos fossem mudar de cor. Como se  um calor dentro de si implorasse por liberdade. Sente um arrepio que surge como um frio para fora de sua alma. É como se seu corpo a chamasse. Como se seu corpo a pedisse de volta.

Com os olhos marejados, vira-se para o lado após o nirvana, por completo redimida dos pecados dessa Terra. 






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