domingo, 20 de setembro de 2015

Verdades sobre ela






I. Ela é uma mistura de menina tímida e frágil com mulher segura e poderosa. Lê de John Green a Nietzsche. Assiste a documentários sobre a Segunda Guerra e chora em filmes de comédia romântica. Distribui sorrisos e palavrões com a mesma naturalidade e franqueza. Torna-se a mulher mais bem resolvida quando montada em seu salto vermelho. Mas às vezes não deseja nada além de um colo, uma pipoca e um cobertor. Tem dias que nem ela mesma a entende. Tudo depende de cada ocasião. Ou do seu humor. Ou da TPM. Ou da posição da lua.
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II. Ela não pede licença pra entrar na vida de ninguém. "Meu plano é ser espalhafatosa, porque quem chega de mansinho é condenado ao esquecimento", diz. Ela não passa em branco. É folha rabiscada. Não se permite ser mais uma. Ela aponta a direção. Mexe com os cabelos e ajeita o vestido. Ela gargalha e observa. Gargalha penetrando nos olhos. Sabe que a gargalhada da mulher é a oração em voz alta do homem. A comunhão dos poros. O momento que ela derrete-se e se abre por dentro. A mulher quando gargalha, escancara o homem. Faz parte do espetáculo.
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III. Sorrisos de canto de boca são e sempre serão um de seus pontos pontos fortes. É o paradoxo entre um convite à porta do céu e uma fervorosa noitada no inferno. É cercada de enigmas, daqueles com direito a pergaminhos inintendíveis. Não imagine casamento e lua-de-mel em Veneza caso ela te olhe por eternos dois segundos. Mas não a considere uma mulher impossível se ela falar ao celular ou puxar papo com a amiga mediante sua primeira investida. Talvez você tenha apenas lhe dado um susto, não a leve a mal, já parou pra imaginar quantos sem-noção e mal-educados ela atura por aí?
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IV. Ela está ali, sozinha, nua de alma, distraída e revelando-se a mais indefesa, mas pronta pra devorar quem  a cutucar com vara curta. Dança como se desse mundo não fizesse parte, porém atenta a todo movimento ao seu redor. Ela possui o dom aguçado da observação, embora disfarce com exímia maestria. Observa à exaustão, mas sabe que prefere ser observada. Melhor: decifrada. Ela, sim, entende - e põe em prática - o verdadeiro significado do célebre e milenar enigma da esfinge: "Decifra-me ou devoro-te."
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V. Ela não procura namoros perdidos em esquinas. Não adota  namoros indefesos. Não se prende a relacionamentos apenas por solidão. Não se entrega simplesmente por haver intenções e carências, não assume o que, à vista oblíqua de terceiros, seja escancarado. Diz que não se trata de medo, e sim de abnegação àquilo que muitos buscam a qualquer preço e à toda forma quando confundem paciência com amor, tesão com paixão, equilíbrio com confiança. Ela não. Ela não confunde.
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VI. Ela vivia em busca de um homem que a preenchesse em todos os requisitos. Quando enfim o encontrou, não tardou a deixá-lo. Percebeu que o homem que desceu do céu para adorá-la precisaria, antes, ter feito um estágio no inferno. Só por precaução. Sob a bênção de Deus, mas do jeito que o diabo gosta. 
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VII. Perfeição é a antítese do amor. Se o teu amor é perfeito, alguma coisa está errada. Ou encenada. Ela desistiu da busca pelo amor estudado e encantado, e se insinuou para as oportunidades que nos esbarram na esquina, de supetão, tão imperfeitas quanto humanas.






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