Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

domingo, 20 de setembro de 2015

Verdades sobre ela






I. Ela é uma mistura de menina tímida e frágil com mulher segura e poderosa. Lê de John Green a Nietzsche. Assiste a documentários sobre a Segunda Guerra e chora em filmes de comédia romântica. Distribui sorrisos e palavrões com a mesma naturalidade e franqueza. Torna-se a mulher mais bem resolvida quando montada em seu salto vermelho. Mas às vezes não deseja nada além de um colo, uma pipoca e um cobertor. Tem dias que nem ela mesma a entende. Tudo depende de cada ocasião. Ou do seu humor. Ou da TPM. Ou da posição da lua.
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II. Ela não pede licença pra entrar na vida de ninguém. "Meu plano é ser espalhafatosa, porque quem chega de mansinho é condenado ao esquecimento", diz. Ela não passa em branco. É folha rabiscada. Não se permite ser mais uma. Ela aponta a direção. Mexe com os cabelos e ajeita o vestido. Ela gargalha e observa. Gargalha penetrando nos olhos. Sabe que a gargalhada da mulher é a oração em voz alta do homem. A comunhão dos poros. O momento que ela derrete-se e se abre por dentro. A mulher quando gargalha, escancara o homem. Faz parte do espetáculo.
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III. Sorrisos de canto de boca são e sempre serão um de seus pontos pontos fortes. É o paradoxo entre um convite à porta do céu e uma fervorosa noitada no inferno. É cercada de enigmas, daqueles com direito a pergaminhos inintendíveis. Não imagine casamento e lua-de-mel em Veneza caso ela te olhe por eternos dois segundos. Mas não a considere uma mulher impossível se ela falar ao celular ou puxar papo com a amiga mediante sua primeira investida. Talvez você tenha apenas lhe dado um susto, não a leve a mal, já parou pra imaginar quantos sem-noção e mal-educados ela atura por aí?
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IV. Ela está ali, sozinha, nua de alma, distraída e revelando-se a mais indefesa, mas pronta pra devorar quem  a cutucar com vara curta. Dança como se desse mundo não fizesse parte, porém atenta a todo movimento ao seu redor. Ela possui o dom aguçado da observação, embora disfarce com exímia maestria. Observa à exaustão, mas sabe que prefere ser observada. Melhor: decifrada. Ela, sim, entende - e põe em prática - o verdadeiro significado do célebre e milenar enigma da esfinge: "Decifra-me ou devoro-te."
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V. Ela não procura namoros perdidos em esquinas. Não adota  namoros indefesos. Não se prende a relacionamentos apenas por solidão. Não se entrega simplesmente por haver intenções e carências, não assume o que, à vista oblíqua de terceiros, seja escancarado. Diz que não se trata de medo, e sim de abnegação àquilo que muitos buscam a qualquer preço e à toda forma quando confundem paciência com amor, tesão com paixão, equilíbrio com confiança. Ela não. Ela não confunde.
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VI. Ela vivia em busca de um homem que a preenchesse em todos os requisitos. Quando enfim o encontrou, não tardou a deixá-lo. Percebeu que o homem que desceu do céu para adorá-la precisaria, antes, ter feito um estágio no inferno. Só por precaução. Sob a bênção de Deus, mas do jeito que o diabo gosta. 
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VII. Perfeição é a antítese do amor. Se o teu amor é perfeito, alguma coisa está errada. Ou encenada. Ela desistiu da busca pelo amor estudado e encantado, e se insinuou para as oportunidades que nos esbarram na esquina, de supetão, tão imperfeitas quanto humanas.






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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Algo ou muito ainda entendo sobre o amor





"Eu te amo sem acreditar em mim." Foi o que repeti depois de despir-me de tua pele, com a porta e janelas do nosso mundo entreabertas, um vento frio que nos varria com uma força que não permitia-me adormecer. Olhei pra ti e exatamente em teus olhos verdes me enxerguei. Eu era você refletida em mim.

Como pode o amor resumir-se à mera reflexão de nossos corpos?

Como pode o amor ser aquilo que nunca poderíamos ser? 

Havia uma penumbra, ainda existia a presença um do outro, o cheiro um do outro, ainda existia as verdades e as mentiras um do outro. Meu amor, acredite, eu sou o que você agora enxerga, sou o que a vida chama de destino preparado pra nós dois. O amor define-se por indefinições, compreenderei seus medos e incertezas  quando desejar bater a porta. Não há como negar: outros dias chegarão. Se tenho alguma certeza nessa vida, a certeza é apenas essa, de que outros dias chegarão e aqui continuaremos. Afinal, a vida nos revela certas verdades, e você foi e continuará a ser cria dessas revelações.

Ainda temos muito a nos descobrir,  a nos interessar, a nos odiar, a nos contemplar. Digo isso sem medo de amanhãs, digo por tudo que já passamos e por o que há de nos surgir. Não há dúvidas de que nos conhecemos suficientemente  bem a ponto de não temermos certas intempéries desses dias correntes, a mim não importa as circunstâncias desse nosso amor dissimulado e destemido. O acaso não nos dita regras. O acaso é apenas um e você não é apenas única, você é o diferencial daquilo que defino entre vida e morte. 
 
Teus olhos verdes sentem o gosto de nossos corpos desavergonhados e crentes  um do outro. Seu vestido é preto e fino e pouco esconde tua pele; nada comento, mas reparo em ti como se você fosse a derradeira sobrevivente de uma guerra ao retornar ao lar depois de sabe lá Deus quanto tempo. Olhar-te me faz pedir perdão por algo que não faço ideia do que seja, mas decerto que a vida resume-se a um amontoado de perdões, e nessa estatística estamos incluídos. Meu bem, te peço: feche os olhos e abrace minhas semanas, meus meses e minha vida. Embora eu saiba que sentimentos frágeis não deveriam fazer parte de nós, sei também  que somos um muro de titânio quando juntos. Desafiamos pré-conceitos quando temos nossos corpos colados. Somos abrigo contra a fria brisa que ainda nos invade pela porta e janelas entreabertas, e eu te protejo com toda a verdade que ainda resta em mim. Protejo-te com a clara e sincera certeza de que algo ou muito ainda entendo sobre o amor. 






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