sexta-feira, 17 de julho de 2015

Alvorada



Estava na janela e olhava na direção da Baía de Guanabara. A vista é cercada por alguns prédios, mas, ainda assim, consideravelmente ampla. Era início de manhã, a alvorada já reclinava sobre as montanhas e refletia sua luz nas águas. Um tom alaranjado ganhava forma. Era como tinta derramada no papel de um mar que sacode no balanço de suas águas de ressaca. 

Ao fundo avisto Niterói. Avisto a Ponte e os carros que passam sobre a Ponte. Não avisto, mas  imagino alguns motoristas dentro daqueles carros. Um automóvel que passa acelerado pelo caminhão na altura do vão central é conduzido por um pai de família que estaria retornando de uma viagem a serviço em São Paulo, e preferiu encarar a estrada de madrugada pra poder levar os filhos pequenos à escola e matar as saudades. Em um carro mais atrás há uma mulher de aproximadamente trinta anos, e estaria a pensar em seu noivo de maneira bastante saudosa, pois moram em cidades distantes a não se veem há um mês, e ela dirige sonhando com o dia em que ele virá morar junto dela, pois assim  decidiram. O ônibus leva um trabalhador que teria despertado às quatro da manhã pra poder estar às sete no trabalho sem problemas de engarrafamento, e no fim do expediente irá direto à faculdade, com todo o cansaço obviamente exposto em seu semblante, mas  relutando por acreditar em dias melhores. E assim fico imaginando a história de cada pessoa dentro daqueles automóveis. Penso também naqueles que ainda tentam construir suas histórias. Aquelas pessoas tristes, rumando com uma certa dor, talvez sem saber  por quê, e que encontrem nessa bonita paisagem um pouco de conforto, e na estrada, as respostas de que precisam.

Da janela localizo um ponto preto no meio da Baía. Um pontinho solitário, quase invisível ante aquelas águas, que num esforço maior de visão noto tratar-se de um pescador. Um simples pescador aguardando pacientemente, com sua rede estirada, o que o mar há de oferecê-lo. Que seja uma pesca farta, assim torço, pois logo despertei em mim uma gratuita estima por esse homem, que faz dessa bonita atividade, a pesca, sua maneira de vencer na vida. Que ele continue dono de todas essas águas banhadas de alvorada, recebendo as bênçãos de um raiar de sol que desnuda o marear. E que algum dia, quem sabe, eu também possa ser dono de meus amanheceres, num barquinho distante que desbrave as madrugadas. E que no amansar das nuvens e no clarear das alvoradas, no meio de todas aquelas águas e de toda uma solidão, alguém, de uma maneira absolutamente sincera e comovente, resgate uma boa lembrança de mim.  






 Comentários

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial