Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Você voltou



Você voltou como quem tira férias de si mesma. Como quem tira férias do mundo. Como quem tira férias de mim.

Você voltou sem que desfizesse as malas, com as roupas ainda dobradas e inutilizadas. 

Com algumas certezas dobradas e inutilizadas. 

Você voltou como quem acorda de um sonho bom. Ou como quem desperta de um leve cochilo. Voltou como quem não lembra de nada. Ou como quem jamais esquecerá de tudo. 

Você voltou com um sorriso largo, sem esconder sentimentos, sem fantasiar intenções. Você trouxe consigo tudo aquilo que fica depois que as flores desbotam. Tudo aquilo que fica depois que as cores florescem. Tudo aquilo que fica depois que as dores esquecem. 

Você voltou com seu jeito leve de um tempo bom. Com o lirismo alaranjado de um crepúsculo de gotas finas. Com os segredos de um olhar camuflado de um dia branco de neve. 

Você voltou com o mesmo corte de cabelo. Com o mesmo vestido. Com o mesmo destino. Com o mesmo entender das coisas. Com o mesmo jeito de menina-que-aproveita-um-dia-após-o-outro-e-ser-feliz-é-o-que-realmente-importa. Com a mesma música de fundo. Com a mesma intensidade em expressar-se. Com a mesma serenidade em esconder-se.

Você voltou e, caso não saibas, confesso-te: acompanhei sua volta. Me fiz companheiro de sua volta. Foste minha única e verdadeira companhia em sua volta. 

Você voltou e, de alguma maneira, eu me senti presente. Eu refiz passados. Eu entendi o futuro. Confundi as manhãs e  te enxerguei nas noites. E durante as madrugadas, recusei-me a dormir. 

Você voltou e refez conceitos. Desembaraçou suas dependências. Percebeu-se feliz e satisfeita consigo mesma, obrigada. E quando perguntam se você está bem, foge de respostas prolixas: "Estou". Ponto.  Pergunta respondida da forma mais sincera e completa. 

Você tem dessas. 

Por isso não canso de repetir. Você voltou. 

E voltou porque jamais deveria ter ido. 

Você voltou e, por Deus, que essa não seja a minha hora de ir.






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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Alvorada



Estava na janela e olhava na direção da Baía de Guanabara. A vista é cercada por alguns prédios, mas, ainda assim, consideravelmente ampla. Era início de manhã, a alvorada já reclinava sobre as montanhas e refletia sua luz nas águas. Um tom alaranjado ganhava forma. Era como tinta derramada no papel de um mar que sacode no balanço de suas águas de ressaca. 

Ao fundo avisto Niterói. Avisto a Ponte e os carros que passam sobre a Ponte. Não avisto, mas  imagino alguns motoristas dentro daqueles carros. Um automóvel que passa acelerado pelo caminhão na altura do vão central é conduzido por um pai de família que estaria retornando de uma viagem a serviço em São Paulo, e preferiu encarar a estrada de madrugada pra poder levar os filhos pequenos à escola e matar as saudades. Em um carro mais atrás há uma mulher de aproximadamente trinta anos, e estaria a pensar em seu noivo de maneira bastante saudosa, pois moram em cidades distantes a não se veem há um mês, e ela dirige sonhando com o dia em que ele virá morar junto dela, pois assim  decidiram. O ônibus leva um trabalhador que teria despertado às quatro da manhã pra poder estar às sete no trabalho sem problemas de engarrafamento, e no fim do expediente irá direto à faculdade, com todo o cansaço obviamente exposto em seu semblante, mas  relutando por acreditar em dias melhores. E assim fico imaginando a história de cada pessoa dentro daqueles automóveis. Penso também naqueles que ainda tentam construir suas histórias. Aquelas pessoas tristes, rumando com uma certa dor, talvez sem saber  por quê, e que encontrem nessa bonita paisagem um pouco de conforto, e na estrada, as respostas de que precisam.

Da janela localizo um ponto preto no meio da Baía. Um pontinho solitário, quase invisível ante aquelas águas, que num esforço maior de visão noto tratar-se de um pescador. Um simples pescador aguardando pacientemente, com sua rede estirada, o que o mar há de oferecê-lo. Que seja uma pesca farta, assim torço, pois logo despertei em mim uma gratuita estima por esse homem, que faz dessa bonita atividade, a pesca, sua maneira de vencer na vida. Que ele continue dono de todas essas águas banhadas de alvorada, recebendo as bênçãos de um raiar de sol que desnuda o marear. E que algum dia, quem sabe, eu também possa ser dono de meus amanheceres, num barquinho distante que desbrave as madrugadas. E que no amansar das nuvens e no clarear das alvoradas, no meio de todas aquelas águas e de toda uma solidão, alguém, de uma maneira absolutamente sincera e comovente, resgate uma boa lembrança de mim.  






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