sexta-feira, 19 de junho de 2015

O homem e a amêndoa





Passa o homem pela Praça XV. Está lotada, normal a essa hora da amanhã, onde misturam-se pessoas vindas de Niterói e de outros cantos do Rio de Janeiro. Ainda são oito horas. Faz frio. É inverno. E algumas gotas de sereno pingam da folhas das amendoeiras que se espalham pela praça, além de encher o chão com seus frutos, que a toda hora despencam dos pés.

Como disse, por ali passa o homem. Anda a passos apressados, como a maioria. Desvia de alguns canteiros e de quem caminha mais vagarosamente. Nota-se, aparentemente, uma certa pressa. E dentre as várias amêndoas espalhadas pelo chão, o homem escolhe uma. E chuta.

Percebo que ele acompanha com o olhar a amêndoa chutada. Desvia do canteiro, dá três ou quatro passos para a esquerda e a alcança. Chuta a amêndoa novamente, dessa vez com mais força. A fruta vai desviando das pessoas à frente como se tudo fosse calculado. 

O ato desse homem, o de chutar a amêndoa, me traz um certo prazer. Não sei por quê, mas me sinto bem ao reparar a sua ação. Noto uma nobreza infantil, um desprendimento das etiquetas urbanas, uma brincadeira no meio de todo o estresse de mais um dia de trabalho e, confesso, arranca de mim um leve sorriso.

Observo que a amêndoa se mistura a outras de tonalidade bastante parecidas, e o homem precisará de uma certa destreza para discerni-la no meio de tantas. A amêndoa é bastante verde, um pouco diferente da maioria que se vê no chão da praça, já praticamente secas, e talvez por isso tenha escolhido-a para chutar. Porém - para o seu azar, talvez - a amêndoa rola até próximo a uma árvore onde todos os frutos que caem estão tão maduros quanto sua amêndoa. Eu, modéstia à parte, distinguiria com facilidade, pois acompanhei-a durante todo o trajeto. Inclusive a vejo neste momento, ali, camuflada entre tantas outras.

Minha opinião é a de que o homem não tem qualquer culpa se a amêndoa rolou por um caminho diferente daquele imaginado quando chutou. Afinal, amêndoas não são redondas, e sim bastante ovais, ou seja, se ele não tiver a peculiar habilidade de chutar objetos ovais, não terá a destreza de adivinhar até onde a amêndoa rolará, tampouco a direção. E isso eu posso afirmar com conhecimento de causa, pois de vez em quando também arrisco alguns chutes nas frutas que caem da amendoeira no início da minha rua, e noto o seu ziguezaguear. 

Enfim, relato: o homem soube, sim, discernir a sua amêndoa no meio de tantas outras, e digo mais, digo que dessa vez impôs bastante força no seu chute, fazendo com que eu a perdesse de vista, já que precisei dobrar à Rua do Mercado enquanto ele seguia pelo Paço Imperial, como quem cruzará a Primeiro de Março.

A esse simpático homem, declaro aqui minha mais sincera estima. Que ele siga a chutar a amêndoa até onde considerar por bem.  E ao chegar ao trabalho, direi aos colegas que vi um homem chutando a mesma amêndoa na Praça XV por várias vezes. Talvez considerarão isso algo muito corriqueiro e sem grande valor, e eu não replicarei. Apenas guardarei a imagem daquele homem que, durante uma manhã normal de inverno, talvez quisesse voltar a ser criança novamente. Ou jamais deixar de ser.





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