sábado, 11 de abril de 2015

Os olhos verdes de Helena





Eis que o sinal tocou e todos se dirigiram àquela embarcação. O céu era muito estrelado e fazia um certo frio. As pessoas estavam bem arrumadas e não havia lá tanta conversa. Um pouco de sereno pingava de uma lua cheia que reinava ante as poucas nuvens, e cá embaixo algumas moças usavam cachecóis e uns homens liam seus livros. Enquanto Helena, madrinha de todo aquele céu, cantarolava olhos verdes.

Manso era o deslizar das ondas com o vento, fazendo um barulho distante e um tanto triste, um barulho feito sopro em concha, quando uma voz rouca e tomada de melancolia diz: "atenção, à esquerda Helena desnuda tristemente olhos verdes num sopro em concha".

 Nada respondi.

O sereno que pingava da lua pingava também pelos olhos verdes de Helena, que entrelaçavam-se numa dança harmônica e intensa, balbuciando um bater das ondas que apontava Noroeste. Os cabelos soltos ventavam como se passassem a traçar rumo, contrastando com seus lábios úmidos a fremir diante do frio.

Durante a navegação percebi que a barca desprendia-se do mar e escorria sutilmente na direção das nuvens. Aos poucos algumas estrelas iam esverdeando-se, e um tom de prata misturava-se aos olhos verdes de Helena, que namorava as ondas em pensamentos distantes. Algumas gaivotas voavam alinhadamente, como se mareassem dentro de mim.

Helena desnudava tristemente seus olhos verdes. E uma luz bem forte refletia-me como uma queda livre num oceano escuro. Eu não reconhecia mais o tempo. Repousei no seu sopro em concha. Desaprendi a acordar.





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