Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A beleza em observá-la enquanto dorme





Minhas amigas, acreditem neste cronista sonhador que vos escreve. Podem pôr a mão no fogo. Garanto a vocês: os segredos que  norteiam uma mulher enquanto dorme são incontáveis.
 
Nada é mais lindo do que observá-la enquanto tira aquele cochilo no sofá de casa ou durante o sono noturno, por aí vamos. 
 
É o cinema criado por Deus. Com direito a pipoca e poltrona reclinável, inclusive. É um best-seller de cabeceira. E se há algo de bom naquela desventurada insônia, tá aí. Acordar de madrugada e vê-la no seu mais que merecido repouso. Ir ao banheiro, à cozinha, e quando retornar ao quarto, dar de cara com ela toda encolhidinha naquele lençol fino e um tanto transparente, cabelos no rosto, em uma plenitude consigo mesma que beira o angelicalismo. É a epifania mor. E se essa for a consequência das minhas noites em claro, torcerei para que a madrugada seja compassadamente vagarosa.  
 
E então ela vira um pouco pro lado. Coça a cabeça. Estica os braços. Às vezes resmunga, instintivamente, duas ou três palavras quase impossíveis de entender. E daí? O segredo não está no entendimento, nunca esteve, o segredo está nela de uma forma plena, está na tentativa de decifrar o que estaria sonhando, no cuidado em cobri-la ou diminuir a potência do ar-condicionado quando sente frio, está em observar sua tatuagem na nuca aparecendo aos poucos, enquanto os cabelos escorrem para o lado que ela acabou de se virar.
 
Apesar de toda essa beleza, tenho que admitir: às vezes precisamos interpretar um vilão de suas noites de sono e de sonhos. Ah, que crueldade essa dos homens quando as acordamos do seu belo descanso, quando fazemos o papel do despertador, aquele maldito objeto que temos vontade de espatifá-lo na parede. Despertá-la pra mais um dia de trabalho ou pra que não se atrase àquele compromisso. Que injustiça, meu Deus. Que vontade de deixá-la ali, deitadinha, no repouso dos braços de Morfeu, mergulhada em oníricos desejos, recebendo o cafuné dos anjos. 
 
E o que dizer sobre quando dormem assim, do nada, na sala de aula, no ônibus, num consultório médico? Os óculos entortando no rosto, aquela posição pouco confortável, não importa, é um sono justo, justíssimo, eu diria, e quando despertam, ficam a matutar: "Nossa, o que será que pensaram de mim, largada ali naquela poltrona, roncando e babando?"  Pensamos maravilhas, por óbvio! Pensamos o quão humanas e o quão dedicadas são, seja aos estudos, à família, aos objetivos traçados, e é aí que repousa a beleza da vida, nos mais graciosos descuidos e nas reações mais triviais e verdadeiras pelo simples fato de  serem elas mesmas.  
 
Digo e repito, pra que não haja quaisquer dúvidas e pra que ecoe aos quatro ventos: Nada é mais bonito do que uma mulher enquanto dorme. Nada. Nadinha. 




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sábado, 11 de abril de 2015

Os olhos verdes de Helena





Eis que o sinal tocou e todos se dirigiram àquela embarcação. O céu era muito estrelado e fazia um certo frio. As pessoas estavam bem arrumadas e não havia lá tanta conversa. Um pouco de sereno pingava de uma lua cheia que reinava ante as poucas nuvens, e cá embaixo algumas moças usavam cachecóis e uns homens liam seus livros. Enquanto Helena, madrinha de todo aquele céu, cantarolava olhos verdes.

Manso era o deslizar das ondas com o vento, fazendo um barulho distante e um tanto triste, um barulho feito sopro em concha, quando uma voz rouca e tomada de melancolia diz: "atenção, à esquerda Helena desnuda tristemente olhos verdes num sopro em concha".

 Nada respondi.

O sereno que pingava da lua pingava também pelos olhos verdes de Helena, que entrelaçavam-se numa dança harmônica e intensa, balbuciando um bater das ondas que apontava Noroeste. Os cabelos soltos ventavam como se passassem a traçar rumo, contrastando com seus lábios úmidos a fremir diante do frio.

Durante a navegação percebi que a barca desprendia-se do mar e escorria sutilmente na direção das nuvens. Aos poucos algumas estrelas iam esverdeando-se, e um tom de prata misturava-se aos olhos verdes de Helena, que namorava as ondas em pensamentos distantes. Algumas gaivotas voavam alinhadamente, como se mareassem dentro de mim.

Helena desnudava tristemente seus olhos verdes. E uma luz bem forte refletia-me como uma queda livre num oceano escuro. Eu não reconhecia mais o tempo. Repousei no seu sopro em concha. Desaprendi a acordar.





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Meu amor não leu minha cartinha





 Eu escrevi uma carta de amor. 
 Escrevi mas meu amor não leu. 
 Meu-amor-não-leu.
 E isso não me faz bem.
 Isso de escrever uma carta de amor e o meu amor não ler.
 Escrever uma carta de amor é compartilhar amores.
 É adiantar o amor bem vindo.
 Escrevi uma carta de amor pensando apenas no meu amor.
 Descrevendo o meu amor dentro de todos os amores.
 Escrevi e perfumei a carta.
 Deixei-a dobrada na cabeceira.
 Pra que na manhã seguinte eu acordasse com um sorriso satisfeito  
 E ao vê-la entreaberta, dissesse:
 Mas que coisa boa! Meu amor leu a cartinha!
 E corresse pelo mundo sem pensar em absolutamente nada. 
 Sim, escrevi uma carta de amor. 
 E escrevi de próprio punho 
 Letras tremelicadas
 Garranchos vociferados de verdade.
 Mas meu amor não leu.
 Ah, amor meu, por que não não lê a minha cartinha?
 Por que deixá-la com o cheiro meu, podendo espalhar o cheiro teu?
 Por que ser lida apenas pelos olhos meus, quando podes castanhá-las com os olhos teus?
 Por que os sorrisos são apenas meus, se podes arco-irisar com os sorrisos teus?
 Ah, meu amor, por quê?
 São tantas dúvidas nessa minha mente inquieta
 Que eu só queria saber, somente saber:
 Por que minha cartinha permanece tão intacta, tão apenas minha, só contida de mim?
 Ah, meu amor, são tantas dúvidas nessa vida!
 São tantas dúvidas que eu trocaria toda e qualquer dúvida
 Pela certeza de você ler minha cartinha.
 São simples palavras minhas 
 Tão necessitadas de ti
 Que se você as lesse, meu amor
 Ah, eu armaria um piquenique pra nós dois!
 Passearia de pedalinho com você!
 Te levaria pra andar de bondinho!
 Nós dois subindo e acenando a qualquer um...
 Imagina, meu amor! 
 Que bom seria rir
 Desse amor só de nós dois.
 Que bom seria viver
 Uma vidinha junto de ti.
 Mas minha carta aqui continua
 Recebendo o vento frio das noites afora
 E lembrando da ausência tua
 Sentindo um vazio não sentido outrora 
 Então restou-me admitir: 
 Você não lerá minha cartinha.
 Meu amor não lerá minha cartinha...






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