Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

É com amor que lembrarei de ti





Não, não é mais a mesma coisa. E não foi simples perceber. Talvez você não compreenda de bate-pronto, eu não farei julgamentos, sei que essas coisas são confusas, que o tempo passou, você viveu uma longa história, até cogitava casamento e filhos, não é? Mas quero que saiba que sempre torci por você, ainda que à minha maneira. Preferi me resguardar, me afastar de ti, afinal a vida me ensinou que amores não vividos são bonitos e poéticos só até certo ponto. Depois passa a machucar. E como machuca.

Encontrar você novamente, com o mesmo sorriso escancarado e com a mesma sinceridade no olhar, me fez voltar no tempo. Recordei os bons momentos, as alegrias vividas juntos, foi tudo muito bom, não foi? Não é tarefa fácil admitir que os dias trataram de me cicatrizar de ti.  E se não seria nem um pouco justo comigo, o que dizer com você? Te ver solteira ali ao meu lado, depois de tanto tempo, dançando com a mesma leveza e angelicalidade de antes, fez com que eu revirasse sentimentos. Talvez eu tenha tentado resgatar algo que já estava finalizado, e quando digo isso, digo de uma maneira bonita, sem ressentimentos, sem mágoas, e sim com a convicção de que histórias verdadeiras não têm a necessidade de serem lembradas por vaidades.

Eu sei que as coincidências desse mundo nos colocaram frente a frente novamente, na mesma roda de amigos, nos mesmos lugares de lazer, e saiba que enxergo isso da melhor maneira possível. Sua presença me alegra, suas histórias são sempre engraçadas e gargalhadas jamais faltarão pra quem estiver ao seu lado. E hoje, com uma visão mais madura do que vivemos, é isso que lhe desejo: toda a felicidade do mundo ao lado de alguém que te complete, porque sei que você a completará sem muito esforço, pois isso é virtude sua, preencher quem estiver ao seu lado de uma maneira naturalmente plena. 

Não é mais a mesma coisa e a vida vai seguir normalmente. É claro que ainda nos esbarraremos demais por aí, olharemos demais um pro outro, riremos demais também, e se hoje te amo é de uma forma apenas minha, e isso nada tem de desonesto, afinal o que mais vemos por aí são amores fajutos sendo jurados como quem jura amor eterno, concorda? 

Não é mais a mesma coisa, mas é com amor que lembrarei de você. E que se danem as controvérsias.    






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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Namore uma mulher que lhe deseje um bom apetite





Diz o velho ditado que é pela boca que se conquista o coração de um homem. Carrego minhas dúvidas, pois a entrega em domicílio e o drive thru continuam em alta. Eu faria uma adaptação. Diria que é pelo cortejo à boca que realmente se conquista o coração dos machos. Sim, refiro-me ao cinematográfico 'bom apetite!".

Bom apetite... Isso me lembra aqueles chefes de cozinha italianos, barrigudos e bigodudos com seus chapéus de mestre-cuca gritando 'Buon appetito!' para os fregueses da sua cantina. Ou então aquele gerente puxa-saco ao cumprimentar seu patrão na hora em que este está de saída pro almoço. Esse é o bom apetite eleitoreiro, que enxerga  o retorno, que facilita pra ser facilitado. Não me refiro a esse, e sim ao bom apetite quase que materno, àquele que vem com um sorriso de sobremesa, àquele que já não vemos por aí. O bom apetite genuinamente feminino. 

Ainda que não possua guardado as receitinhas da vovó. Ainda que não saiba discernir a panela de pressão de uma frigideira. Ainda que não saiba nem riscar  um obsoleto palito de fósforo e acender a boca de um fogão velho. A mulher que deseja 'bom apetite' pega o atalho dos corações famintos. 

Que mulher amada, essa que nos deseja bom apetite... É tão segura de si que é capaz de falar abertamente (e sem medo)  sobre o maior inimigo das mulheres midiaticamente complexadas: a balança. Sabe que somos devotos do seu  pneuzinho de bicicletinha infantil, doces aprendizes das primeiras pedaladas e tombos. O bom apetite não deseja controle, coleiras, e sim a pura liberdade, aquela liberdade sabida de todos os seus mais ternos bem-quereres.

O bom apetite da mais fina educação sem qualquer regra de etiqueta. Do chope e da picanha no lugar do caviar e da champanhe. Do bom apetite sem frescuras, sem aulas de francês, sem mentir a idade. Das palavras bem faladas, molhadas nos olhos, do biquinho mais sexy e natural na pronúncia dos dois tês. O bom apetite de desejar o bem sem olhar a quem, minha lady

Nunca pecará pela falta. Seu desejo não tem a preocupação demasiada de uma mãe nem a formalidade de uma nova namorada. Seu desejo é apenas desejar. Sua verdade é a mais simples e a mais clara. Seu desejo de cuidar é de mais pura família. São vontades plurais. A mulher não esperará uma resposta ao seu doce bom apetite. O bom apetite já é uma pergunta-resposta. 

E que mãe essa mulher será, meus amigos... Que mãe!

Imagino o prazer e o cuidado na amamentação, na fartura do seu mais sagrado alimento, das bochechas rosas e roliças de seus rebentos. Zelosos sentimentos maternos aguardam essa cuidadosa mulher, altruísta por essência, aflorando sua vontade de cuidar de tudo e de todos. Apetitoso esmero de amiga, mãe e companheira fiel.  

Mulheres que desejam bom apetite: multiplicai! Aos milhares, aos milhões! E olhai pra este desiludido cronista...








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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Talvez eu seja seus pés





Ela tem a mania de dormir com o lençol entre os pés.

Diz que, independentemente do calor, necessita do lençol pra adormecer. Tem naquele pedaço de pano um fiel amante. Um eunuco. Um guardador de sonhos. Um zelador de intimidades. Sente-se tão protegida quanto livre dentro de si. Distancia-se das frias brumas de seus medos.



Ela gosta de sapatos vermelhos.

Sente-se a mais mulher das mulheres. A mais meninas das meninas. Ela sempre disse que o amor começava pelos pés. São paixões platônicas ao dispôr de seus passos. Há toda uma combinação com seus lábios de maçã. Basta bater os calcanhares pra que alguém a ame como num conto-de-fadas.


Ela anda descalça pelas ruas da vizinhança.

Quase chora de tanto desejar sua infância. Aqueles paralelepípedos desnivelados eram sua estrada de tijolos amarelos. A cada passo que dá, sente vontade de se livrar de todas as obrigações e deveres de um mundo adulto. Seus pés pretos de sujeira nada são além de suas lembranças lhe querendo bem.



Ela parece levitar enquanto dança.

Move-se pelo salão de uma maneira inocentemente graciosa. Certa vez contei suas passadas. Sete. Apenas sete são as passadas necessárias pra que seus pés ganhem asas e se levantem. Sentia-me dono do mundo quando envolto em seus braços e seus passos. Nas alturas, brincávamos de esquecer quem éramos. 


Talvez seus pés sintam vontade de despi-la durante as noites. 

Talvez eu seja seus pés.










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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Carta aberta a esses homens frouxos






Olha, o que tenho visto por aí não é brincadeira não. Parece piada, e antes realmente fosse, mas não passa da mais crua realidade. Que esse homens moderninhos estão cada vez mais babacas, isso já não é nenhuma novidade. Que andam fugindo de relacionamentos sérios como o capeta foge da cruz, todo mundo já sabe. Mas daí acharem que nós, mulheres bem resolvidas e donas de si, estamos à mercê de suas vontades e caprichos infantilóides, já é demais. E põe demais nisso. 

A impressão que tenho é a de que todo homem pensa que as mulheres buscam um príncipe encantado em cada esquina. Devem imaginar que passeamos por aí suspirando, inebriadas de amor como nesses textos românticos que viralizam na internet ou como na "Malhação" na época que prestava. Parece até que andamos com uma placa pendurada ao pescoço, dizendo "Procura-se um namorado urgentemente!"

Meus caros, lamento informá-los, mas estamos muito, muito longe disso. 

Senhores machões inveterados, saibam de uma coisa: os tempos são outros. Assim como vocês, também gostamos de pegar sem se apegar. Também sabemos aproveitar a solteirice da melhor maneira, e aquele ditado "solteira sim, sozinha nunca!" apenas retrata uma verdade. Diferentemente do que imaginam, estamos longe de cair de quatro por vocês quando se utilizam das maneiras mais tolas e supérfluas pra chamar nossa atenção. Não nos levem a mal, mas não há como segurar uma risada irônica e debochada - até com um quê de pena - diante das estripulias financeiras babaquinhas de vocês. E o que é pior: acham que nos impressionam! Saibam que isso nada revela além de uma personalidade fraca e uma cabeça vazia. 

Entendam o seguinte, muitas vezes nós queremos exatamente a mesma coisa que vocês: uma agradável noite de diversão. E se terminar em sexo, melhor ainda. Gostamos tanto quanto os homens, a única diferença é que não banalizamos. Dá pra entender? As coisas têm mudado, essa onda que vocês pensam que tiram ao mostrar fotos nossas pros amigos, acompanhado de um sonoro "Peguei!" não é nada além do que fazemos também. Talvez com uma certa delicadeza, pouco ou nada interessadas em números, e sim no conteúdo, na diversão e no prazer. Não pensem que imaginamos altar, véu e grinalda enquanto vocês dão risada após uma noite de sexo. Onda por onda, também sabemos tirar. 

E se no final das contas rolar um química, uma conexão de ideias, uma cumplicidade entre os corpos, que pecado há? Existe algo de errado ou de ruim nisso? Uma mensagem carinhosa no dia seguinte, um simples "Tudo bem?" é tão capaz assim de ofender a teatral imagem de machão-que-não-se-apega-a-ninguém? Percebem que não falo sobre nada de outro mundo, né? É o mínimo a se fazer depois de toda uma intimidade. Garanto que não imaginaremos nenhuma paixonite aguda da parte de vocês.

Ter vontade de encontrar novamente com alguém que te fez bem é algo ruim? Tratar com afeto uma pessoa que despertou em ti sentimentos bons é ser piegas? 

Ora, senão pra isso, pra quê viemos ao mundo? 

Caros machões, muitas de nós desejam, sim, um relacionamento firme e duradouro, e isso é digno, é bonito, é humano, nada tem de vergonhoso ou de ruim. Mas deliram se pensam que há todo um desespero como no tempo de nossas bisavós, como se uma mulher solteira fosse algo que indignificasse. Diria até que, diante dessas atitudezinhas de meninos-babões, estamos muito melhores na companhia das amigas, de uma boa noitada e de uma cerveja gelada. Continuem babacas e medrosos, pois nós continuaremos de copo cheio, sorriso no rosto e camisinha na bolsa.

Desse donjuanismo barato que vocês tentam encenar, saibam: a máscara já caiu. E como todo produto falso, se espatifou.








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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O amor é uma grande e bela breguice




Você acena pra mim de uma maneira aparentemente tímida, e eu, pego de surpresa, não consigo disfarçar a alegria em forma de sorriso. Ah, essas deliciosas coincidências, um mundo desse tamanho todo e nós dois no mesmo lugar e na mesma hora. Minha mente vai longe, será que realmente não passa de uma mera casualidade? Não haveria um alinhamento dos planetas ou um complô dos deuses no meio disso tudo? 

Passei  a desdenhar do tempo no momento em que te encontrei. Tenho a impressão de que esses malditos e ininterruptos ponteiros que regem nossa vida paralisam quando diante de ti. Já te disseram que há em você toda uma espontaneidade ao conversar fazendo caras-e-bocas? Que seus olhos, vezes castanhos claros, vezes esverdeados, expressam-se tanto quanto seu sorriso envergonhado? Que suas palavras são pra mim as canções que eu jamais conseguiria compor? Você caminha a passos mansos, serenos, e te acompanhar me faz imaginar que não estamos no meio de tantos carros e tantos prédios,  e sim à beira de um rio bem clarinho, ouvindo o barulho da correnteza chocando-se em algumas pedras. Já pensou? Antes que você comece a zombar de mim, saiba que se sou assim tão sonhador a ponto de pensar essas coisinhas bobas, é tudo por causa de você, senhora-culpada-pelos-meus-mais-adoráveis-e-sinceros-pensamentos.  

Reparo no seu novo corte de cabelo, você sorri e pergunta, um pouco espantada, se radicalizou muito ao cortar as mechas até quase na altura dos ombros. Eu te acalmo e digo que continuaria charmosa mesmo com um agressivo moicano moldado a gel, você faz careta e diz que isso não vale, pede pra eu falar sério, e acredite, sinceridade maior eu não seria capaz de dizer. Gosto desse seu jeito camaleoa, autentica, e sei que personalidade forte você tem pra dar e vender. 

Você segue em frente e meu caminho me obriga a virar a esquina. Me abraça e diz até-qualquer-dia. Diminuo o passo e te observo caminhando. Sei que você riria da minha cara se eu te dissesse isso, mas se o amor nada é senão uma grande e bela breguice, então fico a imaginar se algum dia viraremos, de mãos dadas, as esquinas dessa vida.





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sábado, 28 de novembro de 2015

Como deixamos tudo isso acontecer?





Acho que a ficha só foi cair realmente quando você bateu a porta. 

Eu, apenas com uma mochila nas costas, me vi sem chão. Sem apoio. Sem rumo. E então todo um filme me passou pela cabeça. 

Como deixamos tudo isso acontecer?

Como transformamos todo aquele amor em uma relaçãozinha fajuta?

Como perdemos nossa intimidade de carícias?

Muitas perguntas. Nenhuma resposta. 

Éramos felizes, isso eu posso garantir. Cumplicidade era algo que nunca nos faltou. Você adorava me contar o seu dia, e eu  a ouvia com toda atenção. Nada forçado, era puro interesse em saber tudo sobre você. Até os mínimos detalhes. E havia reciprocidade. 

Em qual parte do caminho deixamos de nos interessar pela vida do outro? 

Nossos gostos são incrivelmente parecidos. Pearl Jam, Los Hermanos, Tarantino, Bukowski, Alan Poe, estrogonofe. Cerveja importada, praia no verão, serra no inverno. 

Fazíamos das coisas simples o pilar da relação. 

Por que tudo isso foi deixado pra trás?

Foram incontáveis vitórias contra esses obstáculos da vida. Trabalho, faculdade, provas, cursos nos finais de semana. Sempre que nossos horários nos desafiavam, dávamos um jeito de driblá-los e vencermos. Ainda que fosse um encontrozinho de dez minutos, já teria um valor enorme pra nós dois. 

Tempo resumia-se à eternidade quando repousávamos no peito do outro. 

Onde foi que abandonamos toda essa cumplicidade?

Amigos chegados a uma boa cerveja eu tenho aos montes, mas você sempre foi minha melhor parceira de copo. Não havia frescuras. Fosse em um bom pub ou em qualquer boteco de esquina. Voltávamos pra casa abraçados, depois um bom banho e o merecido descanso. 

E todos aqueles planos para o futuro? Já havíamos pensado em dois ou três amigos para serem nossos padrinhos. Recorda? Eu me simpatizo com uma cerimônia na praia. Você não abria mão da igreja. Gato ou cachorro? Casa ou apartamento?

Todas essas expectativas foram vividas ao teu lado. 

E agora, ao ouvir o barulho da chave trancando a porta, tudo isso se transforma em dolorosas lembranças. 

Nos perdemos pelo meio do caminho. Havia toda uma mistura de sentimentos em nossos olhos marejados.

Será que daqui a algum tempo encontraremos as respostas?

Será que um dia conversaremos sobre tudo isso?

Será que quando as emoções estagnarem, conseguiremos entender nossos palavrões e nossas frases impensadas?

Ao bater o portão do seu prédio, torci pra que você estivesse me olhando pela janela. Não virei pra trás. Mas torci.  






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terça-feira, 24 de novembro de 2015

Tô gostando de você





Sabe, tô gostando de você.

Gostando de verdade mesmo. Não como gosto de dormir ou de comprar sapatos. É diferente, é algo muito maior, entende?

Pode parecer ridículo, mas até pouco tempo atrás eu não entenderia.

Confesso que tudo é muito novo pra mim. Não num sentido ruim, muito pelo contrário. É tão bom que chega a assustar.

Muitas definições já li sobre o amor, mas nenhuma se enquadrou naquela que eu realmente sentia aqui dentro: o amor dá medo.

Encontrar uma pessoa que mexa com todos os seus sentidos, que faça nascer em ti os sentimentos mais bonitos, que te ensine a despertar os mais primitivos instintos. Tudo isso é tão sublime a ponto de espantar.

Mas é tudo de uma maneira muito gostosa, entende? É um medo que me faz apostar todas as fichas. Afinal, tenho você junto de mim pra dividir essa experiência.

Sabe quando você está numa roda de amigas e a conversa acaba indo pra um assunto de que você nada entende? Sorrisos sem graça, tímidos e envergonhados. E toda uma vontade de sair correndo dali. É o que acontecia comigo quando as meninas puxavam papo sobre relacionamentos.

Eu precisava experimentar esse outro lado, sabe?

E hoje, graças a você, muito eu já entendo.

É bom saber que tenho a ti. É bom saber que tenho a quem contar meus medos, minhas aflições, meus sustos. E claro, partilhar as coisas boas também, os sorrisos, os momentos a sós, aquelas coisinhas simples da vida.

Você me fez descobrir que o amor é uma partilha.

Me fez entender que tudo aquilo que eu definia como liberdade, na verdade é muito mais livre quando estou nos teus braços. Me ensinou todo o arrepio que um beijo demorado e verdadeiro pode causar. Me mostrou o poder quase fatal de um carinho na nuca.

Ah, essa vida... quantas surpresas nos esconde, né?

Quando eu iria imaginar que todas as minhas barreiras seriam quebradas apenas com a sua leve presença? Que suas piadas me fariam gargalhar até chorar? Que seu colo seria o melhor endereço desse planeta?

A cada dia você tem me ensinado mais. Juro que não imaginava aprender tanto em tão pouco tempo. E espero estar te transmitindo coisas boas também. Essas sensações não são das mais fáceis de perceber, concorda? Quando começamos a notar, já estamos completamente tomados, e talvez aí é que more todo esse segredo.

E comigo tem sido assim. A sensação de estar descobrindo tudo isso ao seu lado me conforta e me faz feliz.

Olha, se isso tudo, com toda a certeza que eu tenho, for amor, uma coisa eu te confesso: me faz um bem danado. E tem sido tão bom assim...

Até me fez lembrar aquela musica do Jota Quest. "Se isso não é amor, o que mais pode ser?"

Sei que é continuação da música, mas essa parte eu tomo pra mim: tô aprendendo também.

É bom pensar em nós dois. É tão gostoso imaginar um futuro ao seu lado, mas somos tão novos pra isso, né? Tanta vida pela frente... É, acho que o segredo é deixar as coisas acontecerem. Afinal, pra quê se preocupar com o futuro se você é o meu melhor presente?





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Você é a minha maneira mais sincera de sorrir





"Eu sou sua menina, viu? Ele é o meu rapaz”.

Buarqueei algumas melodias e versos quando te vi dormindo ao meu lado, mão na minha coxa, cabelo jogado no rosto, encolhido e esboçando um certo frio, então cobri você com o lençol e com o meu corpo. E te admirei.

É gostoso te observar enquanto dorme. Você ali, completamente indefeso, e eu penso ter a mais nobre de todas as missões, a de proteger você de qualquer mal que queira se aproximar da nossa cama. Protejo-te também dos pesadelos, não há sonho ruim se estivermos juntos, concorda? Nossa cama é nosso templo, nossos corpos são testemunhas de que sempre somos verdade um pro outro. Coisas do amor, meu bem.

Gosto dessa sua mania de me abraçar por trás quando menos espero e de ficar roçando a barba no meu rosto. E de uma maneira quase que egoística, todas as dúvidas desse mundo passam a ter explicação. Meu amor, que dom é esse de me decifrar por completa com apenas um abraço por trás? Quais encantamentos essa barba por fazer pode desvendar? Ah, quer saber, não me explica nada não, o amor não exige explicações, o amor é a certeza do inexplicável, e se não há palavras pra definir, há toda uma cumplicidade em volta de nós dois. Teu silêncio por trás de mim é minha bíblia, minha verdade mais bonita, o divisor-de-águas dos caminhos que me apontam aonde seguir.

Você é a minha maneira mais sincera de sorrir. É meus olhos tomados de honestidade. Você sou eu deitada numa rede num domingo de mormaço, um canto de pássaro, um mate gelado e um bom livro. É toda a paz que possa haver dentro de mim. Tudo aquilo que entendo acerca do amor paira sobre você, sabia? Não há verdade maior do que nós dois rindo e implicando um com o outro, afinal gostamos de transformar esses momentos triviais em felicidade plena, não é? Talvez aí esteja todo o segredo, descobrir que cada momento ao lado de ti reflete em mim a mais sincera felicidade.

Ah, meu amor, se quiser pode me chamar de sonhadora, mas é que enxergo em ti tudo que há de imortal. Sei que somos noite quando desejamos nos cobrir de estrelas, e uma boa escuridão sempre nos caiu bem, concorda? Uma coisa é muito certa: sabemos nos aproveitar. Nos amamos de forma inteira, de forma verdadeira, e nada nesse mundo temos a dever ou temer. Engraçado, é nesse momento que a vida faz sentido, e acredite, ainda dizem por aí que descobrir o sentido da vida é um dos maiores mistérios da humanidade. Tolos! Querem descobrir? Pois perguntem pra nós dois. Mas isso é um segredo nosso. Vamos continuar rindo disso tudo? Vamos? Apenas você e eu. A sós. À nossa maneira. Mas deixa esse papo pra depois. Já reparou na lua? Hoje a noite está especialmente gostosa. Esquece de tudo e me beija.





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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Prometo te fazer a pessoa mais feliz desse mundo





Amor meu, tem um tempinho pra nós dois? Uma conversinha rápida, juro. Não se preocupe, não é nenhuma notícia ruim, não precisa me olhar com esses olhos arregalados não. Só queria aproveitar que estamos aqui, um de frente para o outro e às voltas desse mundo imenso e assustador que nos aguarda, pra te dizer algumas coisinhas. 

Prometo sempre ser eu mesmo. Acha meio louco ou abstrato isso, né? Entendo. Vou te explicar: prometo, aos pouquinhos, mostrar pra você minhas qualidades. Se possível, todas. Mas prometo também não esconder meus defeitos, que, talvez, superem minhas virtudes. Porém, saiba que prometo a cada dia ser melhor em alguma coisa. Por mim e por você. Ok, acho que mais por você que por mim. É que tanto ouço falar por aí no "amor perfeito",  e sei lá se alguém é capaz de viver nesse mundo de maravilhas, se alguém consegue, que bom, fato é que ser humano é ser passível de falhas e eu não passo de um humanozinho desses qualquer, que enxerga nas imperfeições de um amor a forma mais perfeita de defini-lo. 

Prometo fugir dos clichês. Abaixar a tampa da privada ou tirar a toalha molhada de cima da cama? Sai dessa. Vou além. Prometo dividir as tarefas domésticas. Ser um ótimo cozinheiro, embora meus dotes culinários não ultrapassem o clássico arroz com feijão e bife. Prometo, na segunda de manhãzinha, me matricular no melhor curso de culinária dessa cidade e fazer uma surpresa pra você, algo parecido com um daqueles pratos franceses de nome complicado mas capaz de dar inveja a qualquer vencedor do Master Chef. Prometo cuidar do nosso jardim. Prometo varrer as folhas que caem da árvore do vizinho sobre o nosso quintal, embora eu enxergue algo de poético nisso, e você acha graça e me chama de sonhador. É, talvez eu seja. Prometo também plantar dois ou três girassóis em meio às suas violetas, acho que ficaria bonito, não?  

Prometo ler pra você. Rubem Braga, Veríssimo e Caio Fernando. E alguns outros. Prometo declamar versos de Vinícius, de Drummond e de Leminski. E prometo, no meio de todos esses inalcançáveis poetas, versar a ti alguns poeminhas de minha autoria, e dizer que foi escrito por Mário Quintana e olhar sua reação. Depois ouvir você dizer: "Ah, só Quintana mesmo pra escrever essas coisas..." E só aí contar a verdade, que foi escrito por mim numa dessas tardes chuvosas de domingo, enquanto pensava em você com aquele seu vestido de flores, sorrindo pra mim de forma displicente mas muito verdadeira. Divertido seria testemunhar suas bochechas ficando rosa de vergonha, aquela ajeitadinha tímida no cabelo e o elogio mais feminino impossível: "bobo". Ou seja, entenda-se: "Casa comigo amanhã pela tardinha?"

Prometo te abraçar. Abraçar muito. Demais da conta. Abraçar até o limite. Ou além. Prometo te abraçar quando você sentir frio, mas não pela obviedade de aquecê-la, e sim pela certeza de sermos apenas um quando juntos. Eu sou você e você sou eu, entende? Prometo te abraçar na fila do pão, no táxi, no passeio pela praça, na loja de sapatos, na lotérica ou em qualquer outro lugar banal como esses, afinal o amor é mais lúdico nas banalidades. Prometo te abraçar quando estivermos sozinhos, de testemunhas apenas um céu estrelado e uma lua cheia, de preferência numa praia deserta em Fiji, já pensou? Mas se não puder, que seja aqui pelo Rio de Janeiro mesmo, felicidade não calcula-se por quilômetros, felicidade é você e eu abraçados em qualquer lugar que decidirmos chamar de "nosso paraíso".

Prometo risadas. Incontáveis risadas. Algumas mais contidas, outras sem medir a voz. Prometo rir do seu pijama de vaquinha. Prometo rir do seu chinelo 34 e te chamar de "minha pequena" logo em seguida. Prometo rir só por implicância mesmo, pra que você venha me dando aqueles seus soquinhos incapazes de machucar até mesmo uma borboleta, e eu revide com um beijo longo e transbordado de sentimentos. Prometo sorrir quando você me disser coisas bonitas. Prometo também um sorriso amigo num momento difícil. Prometo, acima de tudo, sorrisos eternos quando percebermos que decidimos proteger pra sempre um ao outro. 



Crônica publicada no site Superela


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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Pra quê se contentar com amores pela metade?





Entender o amor não é tarefa fácil. Nunca foi. Desafio quem consiga, e caso comprove farei votos de que escreva o livro mais vendido de todos os tempos, que ganhe milhões dando consultas amorosas e candidate-se à Presidência dos Estados Unidos.

Mas em certos momentos não precisamos ser especialistas pra reconhecermos se é amor ou não. Melhor: não há necessidade de ser nenhum expert pra enxergar uma certa discrepância de sentimentos entre duas pessoas. Alguém doando-se como quem já imagina igreja lotada e "Whisky a go go" tocando na festa de casamento. Há algo de errado nisso? É óbvio que não, estranho é quem nunca parou pra pensar em futuro quando diante de alguém que te completa de todas as maneiras. O problema ocorre quando a outra pessoa não está no nosso mesmo nível de amor, se assim pode-se dizer. Em alguns casos não se trata nem de má índole nem sacanagem, e sim de dúvidas que um relacionamento de alguns anos não foi suficiente pra sanar. Resumindo, o ponto de interrogação ainda mora atrás dos sorrisos fáceis dele, entende?

Há também o caso onde a pessoa reconhece essa diferença, e ao meu ver, falo agora do pior estágio de um amor-fantasia: o comodismo. Que pode ser mútuo, inclusive. A relação não é mais a mesma, e isso você já nota não é de hoje. Mas vá lá, são mais de três anos juntos, um terço do seu guarda-roupa já está na casa dele, sua sogra adora mostrar fotos de quando ele era criança, o irmãozinho pequeno faz festa quando você chega, e até àquele basset de latido estridente você já está apegada. Além disso, você não faz sexo menos de três vezes na semana e não está nem um pouco interessada em diminuir essa margem. Então passa a alimentar uma falsa sensação de que tudo pode mudar, que aquelas alegrias dos primeiros meses voltarão, é só uma fase turbulenta, ainda que já esteja há mais de um ano nessa. E a tendência, me perdoe a sinceridade, é seguir ladeira abaixo.

Mas não precisamos ir tão longe pra percebermos essa falta de sintonia. Aquela pessoa que surgiu do nada na sua vida, já foram incontáveis encontros e você passou a enxergar nele o cara certo. Porém não é difícil notar que as trocas de mensagens já diminuíram, os programas de fim de semana caíram na mesmice, a cumplicidade em contar os problemas e ouvir palavras de incentivo e conforto já não são mais tão frequentes. E se olharmos de uma maneira mais fria, nota-se que tudo tem se resumido a sexo. Não que isso seja ruim, mas quando os dois sabem exatamente o que desejam e procuram um no outro. Não estou exigindo nenhum príncipe montado em cavalo branco, apenas tentando evitar o que mais pra frente será certo: alguém saíra magoado dessa "brincadeira", e não há dúvidas de que será aquele que mais se entregou.

A verdade é que o amor é equilíbrio. É buscar sempre a mesma sintonia, ou algo muito próximo disso. Não há como manter uma relação onde um é cem por cento entrega e o outro está apenas a passeio. Não há como querer levar à frente um relacionamento onde as mãos dadas não fazem mais tanta importância, onde as palavras e gestos de afeto cederam lugar à rotina de um namoro empurrado-com-a-barriga. Não dá. Não há como ser meio-termo no amor. Não dá pra ser amado pela metade e se contentar. Que seja inconstante, brega, com umas briguinhas aqui outras ali, mas que seja única e verdadeiramente amor. 

Só se contente com amores plenos. Quase-amor ainda é solidão.






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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Detalhes de ti que ainda guardo comigo






Então você me olhava como quem pedia socorro por causa da luz que entrava pelas frestas da cortina. Era como se o sol  - por pura inveja, quem sabe - maltratasse seus olhos castanhos. Como se implorassem pra permanecer fechados.
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Era assim que você acordava, querida. Dormia apenas com as minhas blusas de rock cortadas na manga. Podia fazer um calor digno do Saara, mas você só adormecia com o cobertor. Podia nevar lá fora, mas se o ar-condicionado não estivesse ligado, ainda que fosse no mínimo, certamente seria uma noite de insônia.
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Aquela espreguiçada com o travesseiro nas mãos e a coberta nos pés, cabelos jogados no rosto, vira pra cá, vira pra lá como quem deseja permanecer pra sempre naquele colchão, a essa altura o mais macio de todos os colchões desse planeta. Olhava pra mim com os olhos ainda apequenados e perguntava, de forma mais sarcástica impossível. "Tô bonita?"
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Café-da-manhã. Se não fosse com a mesa posta, tudo separadinho, leite, suco, bolo, manteiga, queijo, pão, patê, presunto, seu dia começaria faltando alguma coisa. Uma mesa digna daqueles comerciais felizes de margarina. Ainda que você não comesse nem um terço daquilo. "Café-da-manhã também é sagrado!", você dizia.  
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Aquela corridinha na academia logo de manhã. Que disposição! Era sempre às sete horas, né? Você e a sua mania de sempre encontrar algum defeitinho nesse corpo que, pra mim, nada deixava a dever pra essas atrizes da novela das nove. Chegava em casa e muito mal largava a bolsa no sofá, um banho demorado era tudo o que você desejava. Se fosse um final de semana daqueles clássicos do verão carioca, um mergulho na piscina.
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Nós dois indo pro trabalho juntos, que sorte nossas empresas serem tão próximas, apenas uma estacãozinha do metrô nos separava, apenas seis quadras seria a nossa distância nas próximas horas. O metrô vezes vinha cheio, vezes guardava um lugarzinho pra nós dois. Você dizia que gostava de andar de metrô, que lá encontramos gente de todos os lugares, certa vez você apontou pra uma senhorinha simpática sentada aos fundos e disse que fora sua professora na quinta série, que memória você tem! E de fato lá era possível encontrar muita gente, inclusive nós dois, de mãos e vidas dadas.
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Nossas noites. Nosso templo. Um restaurante japonês ou uma cervejinha e um bom filme. Você, Almodóvar. Eu, Tim Burton. Quase sempre era eu que cedia, mas de bom grado, claro. Na verdade, qualquer filme seria pura diversão pra nós dois. De luz, apenas o meu abajur. Eu e você. Um único corpo. Fazíamos, reconstruíamos e reinventávamos; éramos amor.  
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Recordo de tudo, minha querida. Mas recordo devido a um triste e inevitável motivo: hoje nós dois somos lembranças. 
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Apenas lembranças.   





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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Quando ela se toca




Nua, ela deita-se na cama após o dia de trabalho. Olha-se no espelho e se reconhece. Passeia sobre os olhos de seu corpo. Analisa-se como se declamasse versos em si. E sorri.

É ela e sua solidão. É ela dentro de si mesma. Um quarto, uma cama e o seu corpo. Uma única harmonia. Suas pernas permitindo passagens. Seus dedos, desbravadores de seus desejos. Cúmplices de suas primitivas vontades. Nesse momento ela nada é além de instinto. Seus olhos se fecham para darem vista às suas ânsias. O suor desabrocha num delicado perfume. É o seu cheiro mais feminino. Suas pernas se contorcem e sua mão segura com força o lençol da cama. É como se ela desse as mãos a si mesma. Seus cabelos escorrem pelo rosto como se desejassem esconder os lábios que, mordidos, escancaram sinceridades. A cada movimento ela se reconhece mais. A cada toque, seus desejos ganham força. Passa a se entregar como se sua existência ali se resumisse.

Sua mente ganha liberdade e os desejos tomam forma. Perdão pra quê? Os sussurros traduzem-se em uma linguagem universal. É essa,  a verdadeira e genuína linguagem do corpo. São seus pés tremendo. São seus braços tremendo. São seus dedos que se irrigam do seu mais precioso néctar. Seu corpo abraça-se como se pedisse colo. Também expulsa-se como se pedisse tapas. Não há por que haver pudor. Ela entrega-se de pura alma a seus arbítrios, e o sol, que entra timidamente pelas frestas da janela, parece abençoá-la. Era como se a benzesse de suas salivas.  

Ela não constrói tabus. Seu corpo é sua propriedade, e ela o detém com autonomia. Seus dedos, despudorados, sabem por onde deslizar. Quase chora de tanto que se doa. Treme a cintura como se dançasse para os anjos. Nesse momento ela não encontra-se mais em si. Seus seios apontam a direção dos céus. Sem que perceba, ela levita. Sente como se estivesse prestes a explodir. Ou a incendiar. Sente como se seus olhos fossem mudar de cor. Como se  um calor dentro de si implorasse por liberdade. Sente um arrepio que surge como um frio para fora de sua alma. É como se seu corpo a chamasse. Como se seu corpo a pedisse de volta.

Com os olhos marejados, vira-se para o lado após o nirvana, por completo redimida dos pecados dessa Terra. 






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domingo, 20 de setembro de 2015

Verdades sobre ela






I. Ela é uma mistura de menina tímida e frágil com mulher segura e poderosa. Lê de John Green a Nietzsche. Assiste a documentários sobre a Segunda Guerra e chora em filmes de comédia romântica. Distribui sorrisos e palavrões com a mesma naturalidade e franqueza. Torna-se a mulher mais bem resolvida quando montada em seu salto vermelho. Mas às vezes não deseja nada além de um colo, uma pipoca e um cobertor. Tem dias que nem ela mesma a entende. Tudo depende de cada ocasião. Ou do seu humor. Ou da TPM. Ou da posição da lua.
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II. Ela não pede licença pra entrar na vida de ninguém. "Meu plano é ser espalhafatosa, porque quem chega de mansinho é condenado ao esquecimento", diz. Ela não passa em branco. É folha rabiscada. Não se permite ser mais uma. Ela aponta a direção. Mexe com os cabelos e ajeita o vestido. Ela gargalha e observa. Gargalha penetrando nos olhos. Sabe que a gargalhada da mulher é a oração em voz alta do homem. A comunhão dos poros. O momento que ela derrete-se e se abre por dentro. A mulher quando gargalha, escancara o homem. Faz parte do espetáculo.
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III. Sorrisos de canto de boca são e sempre serão um de seus pontos pontos fortes. É o paradoxo entre um convite à porta do céu e uma fervorosa noitada no inferno. É cercada de enigmas, daqueles com direito a pergaminhos inintendíveis. Não imagine casamento e lua-de-mel em Veneza caso ela te olhe por eternos dois segundos. Mas não a considere uma mulher impossível se ela falar ao celular ou puxar papo com a amiga mediante sua primeira investida. Talvez você tenha apenas lhe dado um susto, não a leve a mal, já parou pra imaginar quantos sem-noção e mal-educados ela atura por aí?
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IV. Ela está ali, sozinha, nua de alma, distraída e revelando-se a mais indefesa, mas pronta pra devorar quem  a cutucar com vara curta. Dança como se desse mundo não fizesse parte, porém atenta a todo movimento ao seu redor. Ela possui o dom aguçado da observação, embora disfarce com exímia maestria. Observa à exaustão, mas sabe que prefere ser observada. Melhor: decifrada. Ela, sim, entende - e põe em prática - o verdadeiro significado do célebre e milenar enigma da esfinge: "Decifra-me ou devoro-te."
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V. Ela não procura namoros perdidos em esquinas. Não adota  namoros indefesos. Não se prende a relacionamentos apenas por solidão. Não se entrega simplesmente por haver intenções e carências, não assume o que, à vista oblíqua de terceiros, seja escancarado. Diz que não se trata de medo, e sim de abnegação àquilo que muitos buscam a qualquer preço e à toda forma quando confundem paciência com amor, tesão com paixão, equilíbrio com confiança. Ela não. Ela não confunde.
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VI. Ela vivia em busca de um homem que a preenchesse em todos os requisitos. Quando enfim o encontrou, não tardou a deixá-lo. Percebeu que o homem que desceu do céu para adorá-la precisaria, antes, ter feito um estágio no inferno. Só por precaução. Sob a bênção de Deus, mas do jeito que o diabo gosta. 
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VII. Perfeição é a antítese do amor. Se o teu amor é perfeito, alguma coisa está errada. Ou encenada. Ela desistiu da busca pelo amor estudado e encantado, e se insinuou para as oportunidades que nos esbarram na esquina, de supetão, tão imperfeitas quanto humanas.






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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Algo ou muito ainda entendo sobre o amor





"Eu te amo sem acreditar em mim." Foi o que repeti depois de despir-me de tua pele, com a porta e janelas do nosso mundo entreabertas, um vento frio que nos varria com uma força que não permitia-me adormecer. Olhei pra ti e exatamente em teus olhos verdes me enxerguei. Eu era você refletida em mim.

Como pode o amor resumir-se à mera reflexão de nossos corpos?

Como pode o amor ser aquilo que nunca poderíamos ser? 

Havia uma penumbra, ainda existia a presença um do outro, o cheiro um do outro, ainda existia as verdades e as mentiras um do outro. Meu amor, acredite, eu sou o que você agora enxerga, sou o que a vida chama de destino preparado pra nós dois. O amor define-se por indefinições, compreenderei seus medos e incertezas  quando desejar bater a porta. Não há como negar: outros dias chegarão. Se tenho alguma certeza nessa vida, a certeza é apenas essa, de que outros dias chegarão e aqui continuaremos. Afinal, a vida nos revela certas verdades, e você foi e continuará a ser cria dessas revelações.

Ainda temos muito a nos descobrir,  a nos interessar, a nos odiar, a nos contemplar. Digo isso sem medo de amanhãs, digo por tudo que já passamos e por o que há de nos surgir. Não há dúvidas de que nos conhecemos suficientemente  bem a ponto de não temermos certas intempéries desses dias correntes, a mim não importa as circunstâncias desse nosso amor dissimulado e destemido. O acaso não nos dita regras. O acaso é apenas um e você não é apenas única, você é o diferencial daquilo que defino entre vida e morte. 
 
Teus olhos verdes sentem o gosto de nossos corpos desavergonhados e crentes  um do outro. Seu vestido é preto e fino e pouco esconde tua pele; nada comento, mas reparo em ti como se você fosse a derradeira sobrevivente de uma guerra ao retornar ao lar depois de sabe lá Deus quanto tempo. Olhar-te me faz pedir perdão por algo que não faço ideia do que seja, mas decerto que a vida resume-se a um amontoado de perdões, e nessa estatística estamos incluídos. Meu bem, te peço: feche os olhos e abrace minhas semanas, meus meses e minha vida. Embora eu saiba que sentimentos frágeis não deveriam fazer parte de nós, sei também  que somos um muro de titânio quando juntos. Desafiamos pré-conceitos quando temos nossos corpos colados. Somos abrigo contra a fria brisa que ainda nos invade pela porta e janelas entreabertas, e eu te protejo com toda a verdade que ainda resta em mim. Protejo-te com a clara e sincera certeza de que algo ou muito ainda entendo sobre o amor. 






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sábado, 15 de agosto de 2015

Gosto da sua maneira de prender o cabelo




 
Gosto quando você prende o seu cabelo com uma caneta.

É como se oferecesse palavras aos seus fios. Como se a nuca fosse seu papel em branco. São poesias penteadas em seus castanhos. São versos que escorregam de suas mechas. Há todo um desbravar poético. Há toda uma simplicidade de prosa. A caneta abraça seus cabelos com uma sincera cumplicidade. É notório. É verdadeiro. É você sendo pura e absolutamente você mesma. É como se desejasse continuar os contornos de sua tatuagem atrás da orelha. Como se ofertasse flores e nuvens e liberdade. E toda uma leveza tão singela e apenas tua. 

Você prende suas mechas num balé das mãos. Numa  dança visualmente harmônica. Você fecha os olhos. Por que você fecha os olhos? Deve haver ali algum ritual guardado a sete chaves e há mais de séculos. E você é conhecedora desses segredos. Tem todo o direito. E observá-la neste ato é meu prazer. Esforço-me para ler as palavras que você escreve no ar enquanto desenha o penteado. Naquele momento a caneta ganha poderes divinos. Transcende toda e qualquer regra ou intenção. Não existe leis nesse mundo criado por você. A única obrigação é admirar-te, mas te admiro sem qualquer obrigação. E nesse momento sou feliz pra sempre. É um instante sem fim. É um pedaço de você que insisto em carregar comigo. 

Então você se ajeita olhando no espelho. Naquele espelhinho que você carrega seja lá pra onde for. Tem todo o cuidado, seja com um coque ou com um habilidoso rabo-de-cavalo. Você tem suas vontades e eu as aprecio. Faço-me teu espelho  e te reflito dentro de mim. Faço-me tua nuca e poetizo você aqui. E brinco de catar conchas por entre seus fios castanhos. Você é de uma maneira que eu gosto de definir como "perfeita harmonia".  Você se descreve por suas nuances, eu a leio através de seus gestos bonitos. 

Você prende seus cabelos e  o mundo segue a girar normalmente, dizem. Mas tenho lá as minhas dúvidas. E tenho meu mundo particular, também. E você faz parte dele. Uma das sete maravilhas do meu mundo particular é admirar a combinação dos seus brincos com o coque. É a combinação mais despretensiosa e mais fiel que poderia haver. Como se aqueles poucos fios ajeitados atrás da orelha fossem testemunhas. Mais: fossem cúmplices. Como se a caneta fizesse seus cabelos de refém e exigisse-te por toda eternidade. E a mim, meu bem, a mim cabe te observar. E num suspiro de sorte ou de puro destino, versar a ti a minha mais sincera poesia. 



 
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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Você voltou



Você voltou como quem tira férias de si mesma. Como quem tira férias do mundo. Como quem tira férias de mim.

Você voltou sem que desfizesse as malas, com as roupas ainda dobradas e inutilizadas. 

Com algumas certezas dobradas e inutilizadas. 

Você voltou como quem acorda de um sonho bom. Ou como quem desperta de um leve cochilo. Voltou como quem não lembra de nada. Ou como quem jamais esquecerá de tudo. 

Você voltou com um sorriso largo, sem esconder sentimentos, sem fantasiar intenções. Você trouxe consigo tudo aquilo que fica depois que as flores desbotam. Tudo aquilo que fica depois que as cores florescem. Tudo aquilo que fica depois que as dores esquecem. 

Você voltou com seu jeito leve de um tempo bom. Com o lirismo alaranjado de um crepúsculo de gotas finas. Com os segredos de um olhar camuflado de um dia branco de neve. 

Você voltou com o mesmo corte de cabelo. Com o mesmo vestido. Com o mesmo destino. Com o mesmo entender das coisas. Com o mesmo jeito de menina-que-aproveita-um-dia-após-o-outro-e-ser-feliz-é-o-que-realmente-importa. Com a mesma música de fundo. Com a mesma intensidade em expressar-se. Com a mesma serenidade em esconder-se.

Você voltou e, caso não saibas, confesso-te: acompanhei sua volta. Me fiz companheiro de sua volta. Foste minha única e verdadeira companhia em sua volta. 

Você voltou e, de alguma maneira, eu me senti presente. Eu refiz passados. Eu entendi o futuro. Confundi as manhãs e  te enxerguei nas noites. E durante as madrugadas, recusei-me a dormir. 

Você voltou e refez conceitos. Desembaraçou suas dependências. Percebeu-se feliz e satisfeita consigo mesma, obrigada. E quando perguntam se você está bem, foge de respostas prolixas: "Estou". Ponto.  Pergunta respondida da forma mais sincera e completa. 

Você tem dessas. 

Por isso não canso de repetir. Você voltou. 

E voltou porque jamais deveria ter ido. 

Você voltou e, por Deus, que essa não seja a minha hora de ir.






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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Alvorada



Estava na janela e olhava na direção da Baía de Guanabara. A vista é cercada por alguns prédios, mas, ainda assim, consideravelmente ampla. Era início de manhã, a alvorada já reclinava sobre as montanhas e refletia sua luz nas águas. Um tom alaranjado ganhava forma. Era como tinta derramada no papel de um mar que sacode no balanço de suas águas de ressaca. 

Ao fundo avisto Niterói. Avisto a Ponte e os carros que passam sobre a Ponte. Não avisto, mas  imagino alguns motoristas dentro daqueles carros. Um automóvel que passa acelerado pelo caminhão na altura do vão central é conduzido por um pai de família que estaria retornando de uma viagem a serviço em São Paulo, e preferiu encarar a estrada de madrugada pra poder levar os filhos pequenos à escola e matar as saudades. Em um carro mais atrás há uma mulher de aproximadamente trinta anos, e estaria a pensar em seu noivo de maneira bastante saudosa, pois moram em cidades distantes a não se veem há um mês, e ela dirige sonhando com o dia em que ele virá morar junto dela, pois assim  decidiram. O ônibus leva um trabalhador que teria despertado às quatro da manhã pra poder estar às sete no trabalho sem problemas de engarrafamento, e no fim do expediente irá direto à faculdade, com todo o cansaço obviamente exposto em seu semblante, mas  relutando por acreditar em dias melhores. E assim fico imaginando a história de cada pessoa dentro daqueles automóveis. Penso também naqueles que ainda tentam construir suas histórias. Aquelas pessoas tristes, rumando com uma certa dor, talvez sem saber  por quê, e que encontrem nessa bonita paisagem um pouco de conforto, e na estrada, as respostas de que precisam.

Da janela localizo um ponto preto no meio da Baía. Um pontinho solitário, quase invisível ante aquelas águas, que num esforço maior de visão noto tratar-se de um pescador. Um simples pescador aguardando pacientemente, com sua rede estirada, o que o mar há de oferecê-lo. Que seja uma pesca farta, assim torço, pois logo despertei em mim uma gratuita estima por esse homem, que faz dessa bonita atividade, a pesca, sua maneira de vencer na vida. Que ele continue dono de todas essas águas banhadas de alvorada, recebendo as bênçãos de um raiar de sol que desnuda o marear. E que algum dia, quem sabe, eu também possa ser dono de meus amanheceres, num barquinho distante que desbrave as madrugadas. E que no amansar das nuvens e no clarear das alvoradas, no meio de todas aquelas águas e de toda uma solidão, alguém, de uma maneira absolutamente sincera e comovente, resgate uma boa lembrança de mim.  






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sexta-feira, 19 de junho de 2015

O homem e a amêndoa





Passa o homem pela Praça XV. Está lotada, normal a essa hora da amanhã, onde misturam-se pessoas vindas de Niterói e de outros cantos do Rio de Janeiro. Ainda são oito horas. Faz frio. É inverno. E algumas gotas de sereno pingam da folhas das amendoeiras que se espalham pela praça, além de encher o chão com seus frutos, que a toda hora despencam dos pés.

Como disse, por ali passa o homem. Anda a passos apressados, como a maioria. Desvia de alguns canteiros e de quem caminha mais vagarosamente. Nota-se, aparentemente, uma certa pressa. E dentre as várias amêndoas espalhadas pelo chão, o homem escolhe uma. E chuta.

Percebo que ele acompanha com o olhar a amêndoa chutada. Desvia do canteiro, dá três ou quatro passos para a esquerda e a alcança. Chuta a amêndoa novamente, dessa vez com mais força. A fruta vai desviando das pessoas à frente como se tudo fosse calculado. 

O ato desse homem, o de chutar a amêndoa, me traz um certo prazer. Não sei por quê, mas me sinto bem ao reparar a sua ação. Noto uma nobreza infantil, um desprendimento das etiquetas urbanas, uma brincadeira no meio de todo o estresse de mais um dia de trabalho e, confesso, arranca de mim um leve sorriso.

Observo que a amêndoa se mistura a outras de tonalidade bastante parecidas, e o homem precisará de uma certa destreza para discerni-la no meio de tantas. A amêndoa é bastante verde, um pouco diferente da maioria que se vê no chão da praça, já praticamente secas, e talvez por isso tenha escolhido-a para chutar. Porém - para o seu azar, talvez - a amêndoa rola até próximo a uma árvore onde todos os frutos que caem estão tão maduros quanto sua amêndoa. Eu, modéstia à parte, distinguiria com facilidade, pois acompanhei-a durante todo o trajeto. Inclusive a vejo neste momento, ali, camuflada entre tantas outras.

Minha opinião é a de que o homem não tem qualquer culpa se a amêndoa rolou por um caminho diferente daquele imaginado quando chutou. Afinal, amêndoas não são redondas, e sim bastante ovais, ou seja, se ele não tiver a peculiar habilidade de chutar objetos ovais, não terá a destreza de adivinhar até onde a amêndoa rolará, tampouco a direção. E isso eu posso afirmar com conhecimento de causa, pois de vez em quando também arrisco alguns chutes nas frutas que caem da amendoeira no início da minha rua, e noto o seu ziguezaguear. 

Enfim, relato: o homem soube, sim, discernir a sua amêndoa no meio de tantas outras, e digo mais, digo que dessa vez impôs bastante força no seu chute, fazendo com que eu a perdesse de vista, já que precisei dobrar à Rua do Mercado enquanto ele seguia pelo Paço Imperial, como quem cruzará a Primeiro de Março.

A esse simpático homem, declaro aqui minha mais sincera estima. Que ele siga a chutar a amêndoa até onde considerar por bem.  E ao chegar ao trabalho, direi aos colegas que vi um homem chutando a mesma amêndoa na Praça XV por várias vezes. Talvez considerarão isso algo muito corriqueiro e sem grande valor, e eu não replicarei. Apenas guardarei a imagem daquele homem que, durante uma manhã normal de inverno, talvez quisesse voltar a ser criança novamente. Ou jamais deixar de ser.





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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Nosso final foi feliz




Passei em frente àquele café e lembrei de você. Olhei para a mesa no canto esquerdo, que naquele dia estava decorada com um vaso de azaléias, lembra? Você rindo da minha cara quando notei que eram flores de plástico, você disse já ter percebido antes de mim e eu duvidei, então ficamos naquela discussãozinha boba e gostosa, que apenas serviu de pretexto para rirmos à vontade um do outro. Sim, eu sei, não podemos negar: foi bom.
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E foi a partir dali que o nosso filme voltou-me à mente, os leves sorrisos e as boas risadas, tudo sem exigências, sem alarmes, apenas aproveitando aquilo que chamávamos de "nossa brincadeira". Aqueles momentos não serviam para que impuséssemos nada um ao outro, mas muito nos desfrutamos, não é? Não havia nada entre nós que incitasse algum tipo de cobrança, mas quando juntos, fomos um do outro de maneira plena e integral, concorda? Ah, querida, que bom poder dizer que soubemos nos amar de forma honesta um com o outro! Que satisfação é ter apenas lembranças boas e dignas de ti! E são lembranças estas das mais fieis. Tão fieis que me vêm à tona juntamente com uma vontade de bater um papo agora com você, como fizemos diversas vezes enquanto bebíamos chope em Copacabana, lembra? E rimos muitas vezes também. Recorda de quando o mar estava de ressaca e uma onda quase nos puxou, com barraca e tudo? E quando passamos um pouquinho da conta na bebida e voltamos pra casa abraçados e cambaleantes? Era um tempo bom, é verdade. Certa vez imaginamos uma viagem a dois para as Ilhas Maldivas assim que o dólar baixasse. Até o roteiro chegamos a traçar! E quando olhamos um simpático fusquinha azul  à venda e fantasiamos uma volta pelas praias do Nordeste com ele? Ah, éramos estudantes! E se faltava dinheiro no bolso, havia uma enorme vontade de merecermos um ao outro.
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Ali, parado em frente àquele café, olhei para a mesa vazia onde conversamos pela última vez, e despertei em mim uma saudade de ti. Uma saudade meio inexplicável, meio nostálgica, mas com muito de uma absoluta e intensa verdade. Não há do que reclamar: fomos autênticos. Nossa história teve um final. E esse final foi feliz. Obrigado, querida. Muito obrigado por tudo. Fica bem.






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