Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Das coisas que tenho pensado





Trancado em minha própria escuridão, encontro-me em meio aos feitiços da fria bruma das madrugadas. Eu ao redor de mim. Reflito meus desejos e vontades sendo o que jamais imaginaria ser. As paredes negras da noite confidenciam-me pensamentos que vagueiam sem destino, encurralam-me pelas estradas que me ajudam a descobrir se ainda estou no caminho traçado por mim.

Minhas verdades soam obscuras. Labírínticas, provocam o estrondo do mais denso silêncio. As verdades são vontades. Vejo-me fechado, claustrofóbico, estico os braços na tentativa de alcançar aquilo que está a milhas de mim. Digo com as palavras mais sujas as mentiras mais bonitas. Enxergo em meus olhos o dissabor de quem se entrega mais uma vez sem saber se ainda há caminho. 

A penumbra da noite é falha. Percorre inóspitos caminhos em busca de sua própria luz. Em vão. Nos espaços dentro de mim, a procura torna-se desencontro. O caminho sempre foi perdido. Dizer que sim é negar verdades. Correr por esse mundo inteiro é camuflar-se. É olhar ao redor e não enxergar gente. E não enxergar nada. E acostumar-se assim.

Anoiteci ao mergulhar na solidão. Nas tempestades que me surgem enfáticas. Trancar-se dentro de si é tecer retalhos em verdades nebulosas. A escuridão é tão distante quanto discreta. É tão menina quanto mulher. Mutila desejos, trapaceia ao nos apontar o único e inatingível facho de brilho.

Sim, tenho pensado nisso. E lembro de quando já estive em luz, mas, sem perceber, tranquei minhas portas. E ao notar-me sem saída, mergulhei e adormeci nos meus mais íntimos medos, até quando, não sei.  






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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Da arte mais ingênua de seduzir um homem





Ah, os detalhes femininos, aqueles que passam escondidos pelos olhos destes homens cada vez mais desatentos...

Aquelas minúcias simples e arrebatadoras. Quando a mulher se mostra bela justamente por não fazer ideia de que está se mostrando.

Um pecado, essa distração masculina. Pecado mortal, como aprendi na minha primeira comunhão.

Caros amigos, mudando de mar mas não de oceano, pergunto-vos: será que é possível apontar o mais belo dos detalhes femininos?
 
Sim, eu sei que são muitos. Uns mil. O mais cavalheiro dirá que não há neste mundo ao menos um detalhe que não soe como encanto aos olhos dos machos. E ele está coberto de razão.

Mas vamos lá, sem querer causar polêmica, este reles observador das nuances femininas que vos escreve tem o seu hors concours nesse assunto.

O mais belo dos trejeitos. A apoteose de tudo que pode ser mais ingênuo e mais devasso.

A mulher deitada de bruços com os pés pra cima. Pronto, falei.

Convenhamos: há algo nesse mundinho de meu Deus que supere uma cena dessas?

Não, não há. E não tentem me convencer do contrário.

Independente do biotipo ou do jeito de ser. Se é alta, magra, gorda, se é a timidez em pessoa ou a reencarnação de Carmen Miranda. Toda e qualquer mulher nessa posição despertará o mais adormecido dos desejos masculinos.

É sério.

Ela ali, deitada na cama, olhando com a cara mais sacana desse universo. Sim, ainda que passe longe de ser sua real intenção, ela sempre te olhará da maneira mais provocativa. Seja por pura vontade de entregar logo de cara seus segredos ou simplesmente por agir da maneira mais natural do mundo.

Seja assistindo tevê, tomando o café-da-manhã, ou até nos dando uma bronca. Despeje-me bravatas de todas as formas, amore mio, deitadinha assim, qualquer sermão torna-se a mais leve bossa-nova.

E quando elas resolvem nos pedir?

Balançando os pés,  mirando-nos com aquele sorrisinho mais que saliente, elas nos pedem o mundo, e nós, simples machos hipnotizados por essa feitiçaria, não sabemos dizer não. Somos capazes de entregá-las não apenas um mundo, mas sim um universo inteiro embrulhado pra presente.

E o que dizer do clássico dos clássicos, "Lolita", quando Dolores, deitada na grama úmida, lê inocentemente sua revista, molhada pelo irrigador e pela mais secreta libido masculina, absolutamente desligada das acontecências mundanas? Um suspiro, um mergulho nos remotos desejos Nabokovianos, traduzindo tudo o que há de mais ingênuo e mais lascivo nesse fatalismo feminino.

Mas não apenas de inocência e candura essa bela pose sobrevive. Vide Pulp Fiction, Uma Thurman deitada com abajur à meia-luz, cigarro e pistola às mãos. A mais genial das violências de Tarantino, seja jorrando sangue script afora, seja arrancando nosso coração com aquele salto-agulha que Mia Wallace balança da forma mais arrebatadora  que possa ter havido naquela Los Angeles dos anos 90.

Ela deitada de bruços e balançando as pernas. Balançando e fazendo soprar em mim a brisa das transparências dos meus desejos e amores platônicos, pensamentos ao longe... 






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