sábado, 3 de maio de 2014

Eu sei que é amor





 Ela cochila sentada na poltrona da sala, acorda de súbito e, instintivamente, olha para o relógio da parede. Olha com um certo medo desse Deus chamado tempo. Provavelmente, seu único e fixo olhar naquela noite. Às vezes esboça um sorriso que transmite um pouquinho de paz. Não demora muito, perde-se novamente no nada que seus olhos veem.

Ela não tem plena certeza se está em sua casa ou em algumas dessas longínquas galáxias desconhecidas pelo homem. Talvez nem note a diferença. 

Fecha os olhos e respira fundo, suas lembranças vêm e ela as abraça com todo afeto. Apenas ela e seus desejos, suas recordações, seus anseios. Não exige provas. Não pede nada em troca. Entrega-se de pura alma a si mesma. 

Prende o rabo-de-cavalo e fala, baixinho, duas ou três palavras que eu sou capaz de apostar que nem ela as tenha compreendido. Ainda tem o cuidado de não deixar que seus olhos marejados transbordem. Hoje ela não quer chorar. E às vezes tem a impressão de que tudo aquilo durará pra sempre.

Talvez ela não saiba bem o que é. 

Recebe ligações das amigas na sexta à noite pra sair de casa e lembrar de todo o mundo que existe lá fora, tomar umas doses de tequila e assim gargalhar até às cinco da manhã. Ainda que sorridente, recusa o convite. Hoje ela se sente mais mulher vestida no seu pijama de seda do que numa poderosa  minissaia. 

A madrugada lhe faz companhia. Deitada e com o abajur à meia-luz, ela não sabe se termina de ler John Green ou se inicia Martha Medeiros. Se assiste a 'Closer' pela oitava vez ou se ouve Chico Buarque. Mas a maioria do tempo ela passa olhando pro nada e mexendo nos cabelos, como se fosse desembaraçar todas as palavras que mais lhe importam naquele momento. 

Ela levanta da cama, despe-se e se olha naquele seu grande espelho. Olha-se pensativamente. Levanta um pouquinho o calcanhar esquerdo e observa aquela tatuagem no tornozelo. Ela se olha e se descobre cada vez mais. Olha-se com afinco, com todo instinto feminino. Olha-se e se vê mulher. E se vê vulnerável e se vê fortaleza. E ainda que nesse momento lhe pareça algo distante, sabe que há uma vida inteira aí consigo.

É preciso relembrar o que jamais se esqueceu. O amor continua em ti. E mais vivo.






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