Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

domingo, 11 de maio de 2014

Amor de livraria





Já imaginou um amor de livraria?

Eu já.

Um amor que se inicia lá pelas sessões de literatura, sob a bênção de Machado de Assis, de Rubem Braga, de Vinícius de Moraes.

Um amor inspirado em toda a atmosfera que só uma livraria pode transmitir. Uma volta ao mundo. Um encontro capaz de guiar qualquer autor.

Ah, bem que eu iria gostar...

Não são poucas as horas que passo dentro de livrarias, folheando livros e descobrindo novos autores. Sento na  poltrona e às vezes leio um livro inteiro. Abduzido dessa cidade, transportado pra qualquer parte do mundo ou da galáxia. E numa dessas, ainda esbarrar com um novo amor. Sim, podem me chamar de sonhador, mas já idealizei essa situação. E por várias vezes.

Algo como um acidental esbarrão pelos corredores devido à atenção voltada para a leitura. Ou as mãos se encontrando por acidente na tentativa de pegar o mesmo livro ao mesmo tempo. Algo pode ser mais marcante do que um mesmo gosto literário?

Acho que não.

Encontrar um amor enquanto se perde na leitura. Ela está ali, desligada do mundo, despretensiosa em absoluto, apenas preocupada em ajeitar os cabelos pra que não caiam sobre as páginas do livro. Tão dentro de si, quase que acolhida em colo de mãe, com o coração tão cheio de paz e de sorrisos fáceis, que entregam o quão tomada está pela leitura, e nesse momento ela é unicamente alma, adentra às páginas e por vezes entrega um suspiro que comove, um suspiro tão natural de quem deseja todo o amor contido naquele romance. E, acreditem, nesse mundo não há nada mais belo do que uma mulher lendo um livro. É o arranjo perfeito. As lojas de cosméticos que me perdoem, mas tô pra ver produto de beleza mais charmoso e natural.

Que lindo seria o casual se tornando eternidade. Entre uma e outra prateleira, em cada estante, em cada sessão, tô pra ver lugar mais propício. Barzinhos? Boates? Que nada. Acredito no amor que não sabe que é. Que não não faz poses, que enxerga a beleza mais natural e instintiva, que sabe mergulhar nas histórias e transformar toda ficção no romance mais sincero e verdadeiro. E ao final do dia, não devolver o livro à estante. Levá-lo não somente pra casa, mas pra toda a vida, e assim perceber que somos nós quem escrevemos as histórias mais bonitas, e pra nossa sorte, sem imaginar qualquer final. 








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sábado, 3 de maio de 2014

Eu sei que é amor





 Ela cochila sentada na poltrona da sala, acorda de súbito e, instintivamente, olha para o relógio da parede. Olha com um certo medo desse Deus chamado tempo. Provavelmente, seu único e fixo olhar naquela noite. Às vezes esboça um sorriso que transmite um pouquinho de paz. Não demora muito, perde-se novamente no nada que seus olhos veem.

Ela não tem plena certeza se está em sua casa ou em algumas dessas longínquas galáxias desconhecidas pelo homem. Talvez nem note a diferença. 

Fecha os olhos e respira fundo, suas lembranças vêm e ela as abraça com todo afeto. Apenas ela e seus desejos, suas recordações, seus anseios. Não exige provas. Não pede nada em troca. Entrega-se de pura alma a si mesma. 

Prende o rabo-de-cavalo e fala, baixinho, duas ou três palavras que eu sou capaz de apostar que nem ela as tenha compreendido. Ainda tem o cuidado de não deixar que seus olhos marejados transbordem. Hoje ela não quer chorar. E às vezes tem a impressão de que tudo aquilo durará pra sempre.

Talvez ela não saiba bem o que é. 

Recebe ligações das amigas na sexta à noite pra sair de casa e lembrar de todo o mundo que existe lá fora, tomar umas doses de tequila e assim gargalhar até às cinco da manhã. Ainda que sorridente, recusa o convite. Hoje ela se sente mais mulher vestida no seu pijama de seda do que numa poderosa  minissaia. 

A madrugada lhe faz companhia. Deitada e com o abajur à meia-luz, ela não sabe se termina de ler John Green ou se inicia Martha Medeiros. Se assiste a 'Closer' pela oitava vez ou se ouve Chico Buarque. Mas a maioria do tempo ela passa olhando pro nada e mexendo nos cabelos, como se fosse desembaraçar todas as palavras que mais lhe importam naquele momento. 

Ela levanta da cama, despe-se e se olha naquele seu grande espelho. Olha-se pensativamente. Levanta um pouquinho o calcanhar esquerdo e observa aquela tatuagem no tornozelo. Ela se olha e se descobre cada vez mais. Olha-se com afinco, com todo instinto feminino. Olha-se e se vê mulher. E se vê vulnerável e se vê fortaleza. E ainda que nesse momento lhe pareça algo distante, sabe que há uma vida inteira aí consigo.

É preciso relembrar o que jamais se esqueceu. O amor continua em ti. E mais vivo.






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