terça-feira, 1 de abril de 2014

Do amor e das caixas de correio





Acontece que eu saía do metrô na estação do Largo do Machado. Ainda que andando a passos largos, precisei correr pra não ser atropelado pelo povo que vinha atrás de mim, mais ferozes que um tsunami. Vá lá, era uma terça-feira, horário de pico, todos fatigados de mais um dia de trabalho e  loucos pra retornar ao lar. Mais que compreendido. Talvez apenas eu que não tivesse grandes afazeres no meio de toda aquela gente. 

Ainda dentro da estação, um cenário me despertou curiosidade. Próximo à saída localizavam-se vários caixas eletrônicos de diversos bancos, além de máquinas que recarregavam o cartão do metrô. Tudo certo, mas no meio de todos esses 'robôs' havia uma caixa de correio. Sim, uma caixa de correio daquelas com formato bem antigo, simpática, amarela com detalhes e haste azuis. Confesso que dediquei alguns segundos do meu tempo a observar aquela cena.

À primeira vista parecia anacronismo. Ora, uma caixa de correio no meio de todas aquelas modernas máquinas feitas exclusivamente pra quem tem pressa. Pra quem não pode perder tempo no banco e na bilheteria. Pra quem as horas tornaram-se segundos. Pra quem aprendeu a se dividir com o estresse. E enquanto nas máquinas formavam-se filas, lá permanecia a caixa de correio, como se fosse um ancião cuidando de seus pupilos. 

Quisera eu passar a tarde inteira naquela estação. Ou a semana toda. Talvez até o mês. Pura curiosidade de ver alguém utilizando daquela caixa. Alguém enviando uma carta. Acostumamo-nos a receber pelo correio apenas cobranças e propagandas. Cartas tornaram-se um enfado, sinônimo de dívidas e gastos. Mas aquela caixa de correio talvez ainda traga consigo uma ponta de esperança.

É bem verdade que ninguém responde às cartas de cobranças. Pelo menos não via correio. Não enviamos à empresa cobradora uma missiva afirmando que a cobrança é indevida ou que não temos dinheiro pra pagar. Não perdemos tempo burocratizando chateações.  Então, meus caros, aquela caixa de correio é a prova concreta de que ainda existem cartas de afeto. De amor. Cartas cujo desejo é desejar e ser desejado. É simplesmente querer o bem. Cartas que se negaram a ser digitadas, e ,sim, preferiram toda a emoção e calor das mãos à caneta.

Emoticons têm lá a sua fofura, mas o amor mais bonito é o amor que deixa rastros.

Passar pela estação do metrô e enviar uma carta de amor. Descompassar os passos apressados, colocar sorrisos nos rostos dominados pelo cansaço. Parar em frente à caixa de correio, colocar cuidadosamente a carta, respirar fundo e sair por aí com o semblante mais feliz. E que não temamos o ridículo, pois Fernando Pessoa já nos absolveu eternamente ao escrever que "As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas".

Ao carteiro, que tem a nobre missão de dar rumo a essas cartas, que as leve com todo zelo e afeto que lhe são de praxe. Torço pra que ele retire daquela caixa muitas, milhares, milhões de cartas de amor, e que saiba a importância de cada uma, de cada letra que lá dentro viaja. Que espalhe pelo metrô, pelo cidade e por todo o mundo a importância de, a cada dia, cultivarmos o amor na sua forma mais simples e mais verdadeira. Espalhe! Espalhe, amigo carteiro!






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