sexta-feira, 7 de março de 2014

Desenho para Raquel





Faz um tempo que estava guardado dentro de uma pasta velha, junto a documentos que de mais nada me serviriam, por isso uma cor amarelada já começava a surgir nas pontas do papel.

O ano era dois mil e nove. Eu voltava de viagem, trazia umas boas histórias junto de alguns amigos e uma ponta de saudade de uma mineira que o destino colocou à minha frente. Doce Raquel, dona dos mais esplendorosos olhos verdes. 

Pensei em enviá-la um presente assim que retornasse ao Rio de Janeiro, mas confesso que não foi muito fácil pensar em algo marcante e criativo ao mesmo tempo. Tive a ideia de desenhá-la, à época entusiasmado com o aprimoramento de um resquício de habilidade pra traçar rostos no papel.

Um desenho como presente... isso me pareceu meio cafona e esquisito, e me senti um pouco tolo por ter tido uma ideia dessas. Contei a alguns amigos e eles acharam graça e riram muito, eu disse que foi apenas uma ideia realmente tola e que essa intenção já estava totalmente abstraída. No final já estava rindo junto deles.

Passado alguns dias, movido por uma teimosia oriunda não sei de onde, resolvi fazer o desenho. Escolhi a foto que ela colocou no perfil em uma rede social e comecei a traçar. E confesso que gostei do resultado. Guardei junto a outros trabalhos, de vez em quando dando uns retoques.

Raquel era mergulhada em mistérios, o que a dava um tom ainda mais charmoso. De vez em quando usava um óculos de grau de haste roxa e tinha um certo carinho por eles. Os cabelos, negros e bastante lisos; o nariz um pouquinho arrebitado com um piercing discreto. Seu rosto formava uma harmônica conjunção quando apequenava os olhos ao sorrir. Eu disse, próximo de seu ouvido, que ela  haveria de ter sido a inspiração de Drummond quando ele descreveu, em uma de suas crônicas, uma "boca de luar". "É uma boca toda enluarada, com dentes alvos e leitosos, entende?"  Ela deu uma risada sem conseguir esconder as bochechas avermelhadas, beijou meu rosto e disse que eu era um carioca muito galanteador. 

 Em uma de nossas conversas pela internet, mostrei a música do Jorge Drexler cujo título leva seu nome. Ela disse que gostou muito e que sempre quis ouvir uma música que se chamasse 'Raquel'. Num instante já me apontou seu trecho preferido: A tu destino querías mantenerte fiel./ Princesa herida,/ el teatro de la vida/ cambia tu papel... 

Quando contei sobre o desenho, ela sorriu e disse que era o presente mais singelo e mais doce que alguém já lhe oferecera. Falou que outros homens já haviam lhe dado caros presentes, mas nunca um de valor tão alto quanto o meu. Que eu era um amor e que isso fazia de mim uma pessoa especial pra ela. Perguntou, da maneira mais bonita e mais mineira de se perguntar: "Tá igualzim eu?".

Hoje Raquel é uma boa lembrança de um período da minha vida. Algo que eu nunca soube exatamente, a fez desaparecer. Talvez algum problema pessoal, talvez um amor desmedido. Admito a curiosidade em saber se ainda existe nela algum resquício de pensamento sobre mim, sobre um menino de vinte e poucos anos que um dia lhe ofereceu um desenho como presente e tornou-se especial por causa disso. Caso sim, gostaria que fosse um pensamento muito carinhoso. "Como será que anda aquele menino, o Brunno, que fez um desenho de mim?". Se não, não teria qualquer moral pra julgá-la, visto tantas curvas que há nessa vida.

Agora, ao som de Jorge Drexler, revejo aquele desenho cujas pontas do papel já começam a ficar amareladas. Sorrio, sinto um pequeno aperto no peito e uma nostálgica saudade. Uma saudade dos olhos, do cheiro, da pele branquinha e, principalmente, daquela madrugada a sós com minha doce, especial e inesquecível Raquel. 


 






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