Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 11 de março de 2014

Eu acredito em amor de carnaval





Eu acredito em amor de carnaval.

 Acredito naquele amor que nasce na folia, no ápice do bom humor, na descontração dos olhares. Aquele amor que soa tão despretensioso à primeira vista, que deu início através de uma simples troca de sorrisos ou das mãos que se esbarraram na multidão. Eu acredito. 

É um amor contestado, esse amor de carnaval. Alguns dizem ser até utopia. Mais extinto que  os dinossauros, mais lendário que saci-pererê. Um amor que não se encontra por aí, que não cruza as esquinas e não frequenta as mesmas filas de banco e pontos de ônibus. Um amor cronometrado, feito encanto daqueles com hora pra acabar. 

Aos céticos no amor carnavalesco, digo-vos: enganam-se!

Desfrutar dessa época tão aguardada e no fim ainda sair com um novo amor. Por que não? De onde inventaram essa impossibilidade? Carnaval é puro bom humor, é sorriso no rosto dia e noite, é encontrar e ser encontrado, e nesse ponto o amor é rei, é onipresente, não se esconde, apenas fantasia-se pra não ser notado com tanta facilidade. 

Perceber que por trás daquela máscara está o mais desmascarado e escancarado amor. No embalo do trio e dos blocos, um amor embalado a nossa espera. Um amor que já  começa na felicidade, sem a  preocupação do agrado de um primeiro encontro, sem a etiqueta de uma formalidade. Um amor que se entregou, sim, em uma época propícia, pois sabe que passada a folia, não há nada mais doce e aconchegante que um colo cheio de carinhos.

Um amor de carnaval que não virará cinzas na quarta-feira, que se agigantou, que escolheu a alegria da folia pra juntar os dois pombinhos, que lindo, e que a distância será apenas mais um atrativo, mais uma pimenta no reencontro. Um amor de carnaval que será um amor de dia dos namorados, de Natal, de réveillon, quiçá um amor de carnaval pro resto da vida. 

Entregar-se sem pensar no amanhã, onde quer que estejamos e quando for. Um amor de carnaval é declarar-se da maneira mais bonita, é uma nobre prova de amor, é rir das coincidências, afinal o mundo é um moinho, cantava Cartola, embalando romances de carnaval vida adentro. 

Sim, eu acredito em amor de carnaval. Afinal, o amor é não é uma fantasia?






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sexta-feira, 7 de março de 2014

Desenho para Raquel





Faz um tempo que estava guardado dentro de uma pasta velha, junto a documentos que de mais nada me serviriam, por isso uma cor amarelada já começava a surgir nas pontas do papel.

O ano era dois mil e nove. Eu voltava de viagem, trazia umas boas histórias junto de alguns amigos e uma ponta de saudade de uma mineira que o destino colocou à minha frente. Doce Raquel, dona dos mais esplendorosos olhos verdes. 

Pensei em enviá-la um presente assim que retornasse ao Rio de Janeiro, mas confesso que não foi muito fácil pensar em algo marcante e criativo ao mesmo tempo. Tive a ideia de desenhá-la, à época entusiasmado com o aprimoramento de um resquício de habilidade pra traçar rostos no papel.

Um desenho como presente... isso me pareceu meio cafona e esquisito, e me senti um pouco tolo por ter tido uma ideia dessas. Contei a alguns amigos e eles acharam graça e riram muito, eu disse que foi apenas uma ideia realmente tola e que essa intenção já estava totalmente abstraída. No final já estava rindo junto deles.

Passado alguns dias, movido por uma teimosia oriunda não sei de onde, resolvi fazer o desenho. Escolhi a foto que ela colocou no perfil em uma rede social e comecei a traçar. E confesso que gostei do resultado. Guardei junto a outros trabalhos, de vez em quando dando uns retoques.

Raquel era mergulhada em mistérios, o que a dava um tom ainda mais charmoso. De vez em quando usava um óculos de grau de haste roxa e tinha um certo carinho por eles. Os cabelos, negros e bastante lisos; o nariz um pouquinho arrebitado com um piercing discreto. Seu rosto formava uma harmônica conjunção quando apequenava os olhos ao sorrir. Eu disse, próximo de seu ouvido, que ela  haveria de ter sido a inspiração de Drummond quando ele descreveu, em uma de suas crônicas, uma "boca de luar". "É uma boca toda enluarada, com dentes alvos e leitosos, entende?"  Ela deu uma risada sem conseguir esconder as bochechas avermelhadas, beijou meu rosto e disse que eu era um carioca muito galanteador. 

 Em uma de nossas conversas pela internet, mostrei a música do Jorge Drexler cujo título leva seu nome. Ela disse que gostou muito e que sempre quis ouvir uma música que se chamasse 'Raquel'. Num instante já me apontou seu trecho preferido: A tu destino querías mantenerte fiel./ Princesa herida,/ el teatro de la vida/ cambia tu papel... 

Quando contei sobre o desenho, ela sorriu e disse que era o presente mais singelo e mais doce que alguém já lhe oferecera. Falou que outros homens já haviam lhe dado caros presentes, mas nunca um de valor tão alto quanto o meu. Que eu era um amor e que isso fazia de mim uma pessoa especial pra ela. Perguntou, da maneira mais bonita e mais mineira de se perguntar: "Tá igualzim eu?".

Hoje Raquel é uma boa lembrança de um período da minha vida. Algo que eu nunca soube exatamente, a fez desaparecer. Talvez algum problema pessoal, talvez um amor desmedido. Admito a curiosidade em saber se ainda existe nela algum resquício de pensamento sobre mim, sobre um menino de vinte e poucos anos que um dia lhe ofereceu um desenho como presente e tornou-se especial por causa disso. Caso sim, gostaria que fosse um pensamento muito carinhoso. "Como será que anda aquele menino, o Brunno, que fez um desenho de mim?". Se não, não teria qualquer moral pra julgá-la, visto tantas curvas que há nessa vida.

Agora, ao som de Jorge Drexler, revejo aquele desenho cujas pontas do papel já começam a ficar amareladas. Sorrio, sinto um pequeno aperto no peito e uma nostálgica saudade. Uma saudade dos olhos, do cheiro, da pele branquinha e, principalmente, daquela madrugada a sós com minha doce, especial e inesquecível Raquel. 


 






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