Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Ela terminou o namoro e está feliz




 Ela terminou o namoro. Terminou mas nada me disse. Nem precisava. Seus olhos deixavam escapulir algumas verdades. Ainda que tais verdades não fossem segredos.

Sim, ela terminou. Mas está feliz. Não se apressou em alterar seu status pra 'solteira' nas redes sociais, ela não é disso, sempre preferiu a discrição, nada de alardes, como se fosse uma carne nova colocada no mercado. Não. Os parentes perguntam o motivo do fim, os tios brincam dizendo que já tinham comprado o presente do casamento, os primos pequenos perguntam por que ele sumiu. Ela não se incomoda. "Motivos do coração", diz. Passou a estar presente nos encontros do pessoal do trabalho naquele bar embaixo do prédio, às quartas-feiras. Tem se divertido saindo com as amigas pra barzinhos, festas, praias e cinema. Anda cuidando mais de si, voltou à academia, resolveu tirar a carteira de motorista e começar aquela pós-graduação que tanto adiava.

Ela posta fotos com as amigas no Instagram e no Facebook sem qualquer receio de olhares atravessados ou de interpretações maldosas, não tem interesse em mandar indiretas, tem apenas a intenção de registrar todo e qualquer momento feliz.

Há vários pretendentes, ela sabe, alguns até interessantes, que combinam com seu estilo e lhe despertam certa curiosidade. Mas não há pressa, não há porquê emendar uma história na outra, as coisas não são assim, tudo tem seu tempo,  e aproveitar e curtir si mesma, seus amigos e sua família também é uma das mais belas provas de amor. 

Ela terminou e  não se vestiu de luto, não se fez de vítima, engoliu seu choro e olhou pra frente. Sabe que dessa vida não sabemos nada, apenas que somos jovens e felizes e com um mundo inteiro na palma das mãos pedindo pra que seja desbravado. Ela preferiu não se trancar dentro de seu quarto e dentro de si, não ignorar mensagens e ligações, pois ainda que términos sejam conturbados e doloridos, às vezes o amor acaba de forma natural e conclusiva. 

Ela ainda guarda consigo as doces lembranças, os momentos felizes e os sorrisos de alegria. Diz que não existem motivos pra deixar as coisas boas de lado, que o bom mesmo nessa vida é carregar consigo o que há de melhor. Afinal, tudo aquilo que foi vivido com amor e intensidade sempre terá lugar cativo no coração de uma mulher.  






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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sobre saudade e passarinhos






 Lembrei de você nessa tarde.

É que um passarinho pousou bem na minha janela.

E cantou.

Sim, o passarinho me lembrou você. Não sei bem por quê.

Era um passarinho livre e feliz. Sei disso porque seu canto era um canto de um passarinho feliz.

E eu lembrei de quando você cantava também.

Você cantava no meu ouvido, baixinho, naquelas madrugadas de frio.

Lembra?

Você era feliz.

Nós éramos felizes.

Mas igual àquele passarinho, você voou pra longe.

Bem longe.







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domingo, 16 de novembro de 2014

Falei teu nome, Ana





Falei teu nome numa dessas tardes de chuva, após sentir uma nostalgia não sei de quê, pois logo nessa tarde a saudade resolveu me visitar. Falei de maneira meio despretensiosa, com um sorriso simples no rosto e com os olhos distantes, como quem busca alguma resposta pra perguntas ainda indecifráveis. Falei teu nome, admito, à beira-mar, olhando lá pra longe, lá pra linha do horizonte, aonde simples olhares não conseguem alcançar, aonde as ideias vagueiam procurando sentimentos sinceros. Falei sem se dar por mim, sem medir vontades e sem calcular consequências, sem esperar o mais óbvio ou o mais desmedido resultado, falei, e quando reparei, seu nome já ventava por aí, traçando todos os possíveis caminhos, embrenhando-se entre nuvens e estrelas, entre mares e rios, entre florestas e arranha-céus. Falei teu nome sem perceber, depois de um ou dois goles de vodca em algum desses bares da vida, numa madrugada de lua cheia e sorrisos falsos, um vento frio, uma intensa bruma, olhos apequenados e verdades distantes. Sim, falei teu nome com pensamentos remotos, enquanto procurava verdades e não encontrava saídas, quando olhava para o céu e nada entendia daquele infinito azul lá em cima e tão distante, e eu olhava as estrelas mas logo as perdia de vista, naquele céu tão imenso, será que haveria espaço pra mim? Falei teu nome e não foi em vão, falei pois lembrei de você, lembrei de quando tudo ainda era apenas início, e inícios guardam o perfume das próximas manhãs, e eu lembro de quando pensei em jogar tudo pro alto e sair por esse muito feito um doido, na mochila apenas boas lembranças de ti, ah, inocência minha, querer viver o resto da vida em seus olhos castanhos, em seus vestidos de flores e seus sorrisos que ganham o mundo. Falei teu nome em nome de nós dois, em nome da saudade, em nome próprio e em nome de você, em nome de tudo o que foi verdade - e eu acredito que realmente tenha sido - e em nome de todas as frases impensadas e contidas de toda fidelidade. Eu sei, também falei teu nome naquela madrugada trancado dentro de casa e dentro de mim, garrafas de cerveja espalhadas pelo chão e uma noite pesada de carregar cá comigo, cantei de maneira desafinada aquela música do Engenheiros que sem qualquer piedade fatiava meu corpo: "E o teu olhar sempre distante sempre me engana. /É o fim do mundo todo o dia da semana." Ainda assim falei teu nome e o carreguei de toda poesia quando espalhei teu brilho por todos os cantos dos mais inóspitos lugarejos espalhados por aí. Poetizei você com o mais belo soneto dos amores verdadeiros e complacentes, entreguei a ti as rosas daqueles versos tão simples e tão verdadeiros, aqueles versos que tanto lembram você, que lembram nós dois vagando por aí sem qualquer rumo ou direção, pois já estávamos absoluta e verdadeiramente encontrados. Falei teu nome mas falei baixinho, como se cochichasse em algum ouvido, como se escondesse algo, como se tudo fosse um crime e o amanhã só fosse dúvida. Falei e falei sem remorso, falei sem medir esforços, e só falei porque foi verdade. Mas falei e você não ouviu. 






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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Das coisas que tenho pensado





Trancado em minha própria escuridão, encontro-me em meio aos feitiços da fria bruma das madrugadas. Eu ao redor de mim. Reflito meus desejos e vontades sendo o que jamais imaginaria ser. As paredes negras da noite confidenciam-me pensamentos que vagueiam sem destino, encurralam-me pelas estradas que me ajudam a descobrir se ainda estou no caminho traçado por mim.

Minhas verdades soam obscuras. Labírínticas, provocam o estrondo do mais denso silêncio. As verdades são vontades. Vejo-me fechado, claustrofóbico, estico os braços na tentativa de alcançar aquilo que está a milhas de mim. Digo com as palavras mais sujas as mentiras mais bonitas. Enxergo em meus olhos o dissabor de quem se entrega mais uma vez sem saber se ainda há caminho. 

A penumbra da noite é falha. Percorre inóspitos caminhos em busca de sua própria luz. Em vão. Nos espaços dentro de mim, a procura torna-se desencontro. O caminho sempre foi perdido. Dizer que sim é negar verdades. Correr por esse mundo inteiro é camuflar-se. É olhar ao redor e não enxergar gente. E não enxergar nada. E acostumar-se assim.

Anoiteci ao mergulhar na solidão. Nas tempestades que me surgem enfáticas. Trancar-se dentro de si é tecer retalhos em verdades nebulosas. A escuridão é tão distante quanto discreta. É tão menina quanto mulher. Mutila desejos, trapaceia ao nos apontar o único e inatingível facho de brilho.

Sim, tenho pensado nisso. E lembro de quando já estive em luz, mas, sem perceber, tranquei minhas portas. E ao notar-me sem saída, mergulhei e adormeci nos meus mais íntimos medos, até quando, não sei.  






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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Da arte mais ingênua de seduzir um homem





Ah, os detalhes femininos, aqueles que passam escondidos pelos olhos destes homens cada vez mais desatentos...

Aquelas minúcias simples e arrebatadoras. Quando a mulher se mostra bela justamente por não fazer ideia de que está se mostrando.

Um pecado, essa distração masculina. Pecado mortal, como aprendi na minha primeira comunhão.

Caros amigos, mudando de mar mas não de oceano, pergunto-vos: será que é possível apontar o mais belo dos detalhes femininos?
 
Sim, eu sei que são muitos. Uns mil. O mais cavalheiro dirá que não há neste mundo ao menos um detalhe que não soe como encanto aos olhos dos machos. E ele está coberto de razão.

Mas vamos lá, sem querer causar polêmica, este reles observador das nuances femininas que vos escreve tem o seu hors concours nesse assunto.

O mais belo dos trejeitos. A apoteose de tudo que pode ser mais ingênuo e mais devasso.

A mulher deitada de bruços com os pés pra cima. Pronto, falei.

Convenhamos: há algo nesse mundinho de meu Deus que supere uma cena dessas?

Não, não há. E não tentem me convencer do contrário.

Independente do biotipo ou do jeito de ser. Se é alta, magra, gorda, se é a timidez em pessoa ou a reencarnação de Carmen Miranda. Toda e qualquer mulher nessa posição despertará o mais adormecido dos desejos masculinos.

É sério.

Ela ali, deitada na cama, olhando com a cara mais sacana desse universo. Sim, ainda que passe longe de ser sua real intenção, ela sempre te olhará da maneira mais provocativa. Seja por pura vontade de entregar logo de cara seus segredos ou simplesmente por agir da maneira mais natural do mundo.

Seja assistindo tevê, tomando o café-da-manhã, ou até nos dando uma bronca. Despeje-me bravatas de todas as formas, amore mio, deitadinha assim, qualquer sermão torna-se a mais leve bossa-nova.

E quando elas resolvem nos pedir?

Balançando os pés,  mirando-nos com aquele sorrisinho mais que saliente, elas nos pedem o mundo, e nós, simples machos hipnotizados por essa feitiçaria, não sabemos dizer não. Somos capazes de entregá-las não apenas um mundo, mas sim um universo inteiro embrulhado pra presente.

E o que dizer do clássico dos clássicos, "Lolita", quando Dolores, deitada na grama úmida, lê inocentemente sua revista, molhada pelo irrigador e pela mais secreta libido masculina, absolutamente desligada das acontecências mundanas? Um suspiro, um mergulho nos remotos desejos Nabokovianos, traduzindo tudo o que há de mais ingênuo e mais lascivo nesse fatalismo feminino.

Mas não apenas de inocência e candura essa bela pose sobrevive. Vide Pulp Fiction, Uma Thurman deitada com abajur à meia-luz, cigarro e pistola às mãos. A mais genial das violências de Tarantino, seja jorrando sangue script afora, seja arrancando nosso coração com aquele salto-agulha que Mia Wallace balança da forma mais arrebatadora  que possa ter havido naquela Los Angeles dos anos 90.

Ela deitada de bruços e balançando as pernas. Balançando e fazendo soprar em mim a brisa das transparências dos meus desejos e amores platônicos, pensamentos ao longe... 






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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ela não está apaixonada




Ela não está apaixonada. Ela é de leão com ascendente em Áries. Ouve Caetano Veloso, Nando reis, Beatles e Pink Floyd. Já foi ao cinema sozinha. Tem vontade de pintar o cabelo de roxo, verde ou azul. Bebe cerveja em casa com o pai de vez em quando. 

Ela não está apaixonada. Ela confidencia-se apenas para os seus livros. Escreve cartas em segredo imaginando destinatários. Assiste de Fellini a Tarantino e gosta de discutir Frida Kahlo. 

Ela não está apaixonada. Ela sorri das vãs tentativas de quem se entrega somente a uma pessoa. Descortina caprichos e vontades que teimem em ultrapassar seus limites. Diz, com um sorriso debochado, que aprendeu a domar os homens. Controla suas emoções como que por controle remoto. Impõe restrições a si mesma, por mais que não saiba explicá-las. 

Ela não está apaixonada. Ela recebe ligações na sexta-feira à noite mas não atende todas. Marca um encontro com aquele rapaz de sempre. Vão àquele bar perto da faculdade onde a cerveja é barata e tem música ao vivo. Pedem os mesmos drinques. Sorri das piadas dele. Conta sobre sua vontade de crescer na empresa e conquistar independência financeira. Passa a noite com ele e chega em casa de manhã. Diz aos pais que dormiu na casa da melhor amiga. 

Ela não está apaixonada. Ela acorda e olha o celular à espera de alguma mensagem. Recorda da última noite e se sente bem. Marca um chope com as amigas no fim da tarde pra pôr o papo em dia. Gargalha das histórias das amigas. Descreve detalhes da noite passada. Em casa, tranca-se o quarto e fica deitada na cama olhando para o nada. Sorri. Sorri meio sem entender o motivo. Sorri, talvez, teimando em não entender. 

Ela não está apaixonada. Ela carrega consigo as feridas de um passado que insistem em não cicatrizar. Traz na bagagem o medo e a incerteza de se entregar a alguém por toda uma vida. Acha ilusão acreditar que nesse mundo exista alguém à sua espera. Chora em casamentos. Suspira quando lê Clarice Lispector. É tão fortaleza quanto brisa. É tão mulher quando quer ser. É tão menina quando não consegue se esconder. 

Ela nunca deixou de estar apaixonada.      






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terça-feira, 22 de julho de 2014

Confidências de um ex-amor.






Ainda guardo boas recordações daqueles dias. Mesmo que tenha sido apenas a nossa primeira troca de olhares, sempre tive a sensação de que já corremos juntos e felizes feito loucos pelos corredores do Louvre, tal como no filme do Godard. Coisas de outras vidas, entende? Acreditar  no amor que não faz rodeios, que se mostra sem vergonhas e sem medo. É assim que eu gosto de definir o momento em que você surgiu pra mim.

Eu, que achava que o amor  não me olhava mais. Que eu era mais amiga do que mulher. Quando apenas aconselhava e não recebia mais conselhos. Ali, com você, tive minha essência resgatada. Fizemos o nosso mundo, e que nele caberiam apenas nós dois, nada que pareça egoísmo, apenas uma maneira de nos guardarmos de tudo e de todos. Uma ilha feita exclusivamente  para apreciarmos girassóis. Um país inteirinho pra que você me dissesse coisas bonitas. E eu retribuiria com coisas bonitas também. E uma vitrolinha bem antiga pra que dançássemos embalados pela castanha poesia de nossos olhos entrelaçados.

Faço de conta que você está aqui, agora, juntinho de mim. Sim, isso me dá um certo conforto. Um certo conforto misturado com um quê de não entender bem o porquê, ainda que as respostas sejam por demais cristalizadas. Você aí e eu aqui, separados pela ironia desse debochado destino. Talvez isso tudo seja um simples desabafo, talvez algum resquício de culpa. Você sabe, mulheres carregam consigo os mais ocultos segredos. Sei que a vida nos prega surpresas. Sei também que jamais recomeçaremos. Mas se ainda estivéssemos naquela noite fria e bonita daquele inesquecível agosto, na metade daquela taça de vinho, à meia-luz, sob a bênção da lua cheia e ao som de John Coltrane, acredite, ainda aguardaria aquele beijo teu. Eu juro.






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domingo, 11 de maio de 2014

Amor de livraria





Já imaginou um amor de livraria?

Eu já.

Um amor que se inicia lá pelas sessões de literatura, sob a bênção de Machado de Assis, de Rubem Braga, de Vinícius de Moraes.

Um amor inspirado em toda a atmosfera que só uma livraria pode transmitir. Uma volta ao mundo. Um encontro capaz de guiar qualquer autor.

Ah, bem que eu iria gostar...

Não são poucas as horas que passo dentro de livrarias, folheando livros e descobrindo novos autores. Sento na  poltrona e às vezes leio um livro inteiro. Abduzido dessa cidade, transportado pra qualquer parte do mundo ou da galáxia. E numa dessas, ainda esbarrar com um novo amor. Sim, podem me chamar de sonhador, mas já idealizei essa situação. E por várias vezes.

Algo como um acidental esbarrão pelos corredores devido à atenção voltada para a leitura. Ou as mãos se encontrando por acidente na tentativa de pegar o mesmo livro ao mesmo tempo. Algo pode ser mais marcante do que um mesmo gosto literário?

Acho que não.

Encontrar um amor enquanto se perde na leitura. Ela está ali, desligada do mundo, despretensiosa em absoluto, apenas preocupada em ajeitar os cabelos pra que não caiam sobre as páginas do livro. Tão dentro de si, quase que acolhida em colo de mãe, com o coração tão cheio de paz e de sorrisos fáceis, que entregam o quão tomada está pela leitura, e nesse momento ela é unicamente alma, adentra às páginas e por vezes entrega um suspiro que comove, um suspiro tão natural de quem deseja todo o amor contido naquele romance. E, acreditem, nesse mundo não há nada mais belo do que uma mulher lendo um livro. É o arranjo perfeito. As lojas de cosméticos que me perdoem, mas tô pra ver produto de beleza mais charmoso e natural.

Que lindo seria o casual se tornando eternidade. Entre uma e outra prateleira, em cada estante, em cada sessão, tô pra ver lugar mais propício. Barzinhos? Boates? Que nada. Acredito no amor que não sabe que é. Que não não faz poses, que enxerga a beleza mais natural e instintiva, que sabe mergulhar nas histórias e transformar toda ficção no romance mais sincero e verdadeiro. E ao final do dia, não devolver o livro à estante. Levá-lo não somente pra casa, mas pra toda a vida, e assim perceber que somos nós quem escrevemos as histórias mais bonitas, e pra nossa sorte, sem imaginar qualquer final. 








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sábado, 3 de maio de 2014

Eu sei que é amor





 Ela cochila sentada na poltrona da sala, acorda de súbito e, instintivamente, olha para o relógio da parede. Olha com um certo medo desse Deus chamado tempo. Provavelmente, seu único e fixo olhar naquela noite. Às vezes esboça um sorriso que transmite um pouquinho de paz. Não demora muito, perde-se novamente no nada que seus olhos veem.

Ela não tem plena certeza se está em sua casa ou em algumas dessas longínquas galáxias desconhecidas pelo homem. Talvez nem note a diferença. 

Fecha os olhos e respira fundo, suas lembranças vêm e ela as abraça com todo afeto. Apenas ela e seus desejos, suas recordações, seus anseios. Não exige provas. Não pede nada em troca. Entrega-se de pura alma a si mesma. 

Prende o rabo-de-cavalo e fala, baixinho, duas ou três palavras que eu sou capaz de apostar que nem ela as tenha compreendido. Ainda tem o cuidado de não deixar que seus olhos marejados transbordem. Hoje ela não quer chorar. E às vezes tem a impressão de que tudo aquilo durará pra sempre.

Talvez ela não saiba bem o que é. 

Recebe ligações das amigas na sexta à noite pra sair de casa e lembrar de todo o mundo que existe lá fora, tomar umas doses de tequila e assim gargalhar até às cinco da manhã. Ainda que sorridente, recusa o convite. Hoje ela se sente mais mulher vestida no seu pijama de seda do que numa poderosa  minissaia. 

A madrugada lhe faz companhia. Deitada e com o abajur à meia-luz, ela não sabe se termina de ler John Green ou se inicia Martha Medeiros. Se assiste a 'Closer' pela oitava vez ou se ouve Chico Buarque. Mas a maioria do tempo ela passa olhando pro nada e mexendo nos cabelos, como se fosse desembaraçar todas as palavras que mais lhe importam naquele momento. 

Ela levanta da cama, despe-se e se olha naquele seu grande espelho. Olha-se pensativamente. Levanta um pouquinho o calcanhar esquerdo e observa aquela tatuagem no tornozelo. Ela se olha e se descobre cada vez mais. Olha-se com afinco, com todo instinto feminino. Olha-se e se vê mulher. E se vê vulnerável e se vê fortaleza. E ainda que nesse momento lhe pareça algo distante, sabe que há uma vida inteira aí consigo.

É preciso relembrar o que jamais se esqueceu. O amor continua em ti. E mais vivo.






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terça-feira, 1 de abril de 2014

Do amor e das caixas de correio





Acontece que eu saía do metrô na estação do Largo do Machado. Ainda que andando a passos largos, precisei correr pra não ser atropelado pelo povo que vinha atrás de mim, mais ferozes que um tsunami. Vá lá, era uma terça-feira, horário de pico, todos fatigados de mais um dia de trabalho e  loucos pra retornar ao lar. Mais que compreendido. Talvez apenas eu que não tivesse grandes afazeres no meio de toda aquela gente. 

Ainda dentro da estação, um cenário me despertou curiosidade. Próximo à saída localizavam-se vários caixas eletrônicos de diversos bancos, além de máquinas que recarregavam o cartão do metrô. Tudo certo, mas no meio de todos esses 'robôs' havia uma caixa de correio. Sim, uma caixa de correio daquelas com formato bem antigo, simpática, amarela com detalhes e haste azuis. Confesso que dediquei alguns segundos do meu tempo a observar aquela cena.

À primeira vista parecia anacronismo. Ora, uma caixa de correio no meio de todas aquelas modernas máquinas feitas exclusivamente pra quem tem pressa. Pra quem não pode perder tempo no banco e na bilheteria. Pra quem as horas tornaram-se segundos. Pra quem aprendeu a se dividir com o estresse. E enquanto nas máquinas formavam-se filas, lá permanecia a caixa de correio, como se fosse um ancião cuidando de seus pupilos. 

Quisera eu passar a tarde inteira naquela estação. Ou a semana toda. Talvez até o mês. Pura curiosidade de ver alguém utilizando daquela caixa. Alguém enviando uma carta. Acostumamo-nos a receber pelo correio apenas cobranças e propagandas. Cartas tornaram-se um enfado, sinônimo de dívidas e gastos. Mas aquela caixa de correio talvez ainda traga consigo uma ponta de esperança.

É bem verdade que ninguém responde às cartas de cobranças. Pelo menos não via correio. Não enviamos à empresa cobradora uma missiva afirmando que a cobrança é indevida ou que não temos dinheiro pra pagar. Não perdemos tempo burocratizando chateações.  Então, meus caros, aquela caixa de correio é a prova concreta de que ainda existem cartas de afeto. De amor. Cartas cujo desejo é desejar e ser desejado. É simplesmente querer o bem. Cartas que se negaram a ser digitadas, e ,sim, preferiram toda a emoção e calor das mãos à caneta.

Emoticons têm lá a sua fofura, mas o amor mais bonito é o amor que deixa rastros.

Passar pela estação do metrô e enviar uma carta de amor. Descompassar os passos apressados, colocar sorrisos nos rostos dominados pelo cansaço. Parar em frente à caixa de correio, colocar cuidadosamente a carta, respirar fundo e sair por aí com o semblante mais feliz. E que não temamos o ridículo, pois Fernando Pessoa já nos absolveu eternamente ao escrever que "As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas".

Ao carteiro, que tem a nobre missão de dar rumo a essas cartas, que as leve com todo zelo e afeto que lhe são de praxe. Torço pra que ele retire daquela caixa muitas, milhares, milhões de cartas de amor, e que saiba a importância de cada uma, de cada letra que lá dentro viaja. Que espalhe pelo metrô, pelo cidade e por todo o mundo a importância de, a cada dia, cultivarmos o amor na sua forma mais simples e mais verdadeira. Espalhe! Espalhe, amigo carteiro!






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terça-feira, 11 de março de 2014

Eu acredito em amor de carnaval





Eu acredito em amor de carnaval.

 Acredito naquele amor que nasce na folia, no ápice do bom humor, na descontração dos olhares. Aquele amor que soa tão despretensioso à primeira vista, que deu início através de uma simples troca de sorrisos ou das mãos que se esbarraram na multidão. Eu acredito. 

É um amor contestado, esse amor de carnaval. Alguns dizem ser até utopia. Mais extinto que  os dinossauros, mais lendário que saci-pererê. Um amor que não se encontra por aí, que não cruza as esquinas e não frequenta as mesmas filas de banco e pontos de ônibus. Um amor cronometrado, feito encanto daqueles com hora pra acabar. 

Aos céticos no amor carnavalesco, digo-vos: enganam-se!

Desfrutar dessa época tão aguardada e no fim ainda sair com um novo amor. Por que não? De onde inventaram essa impossibilidade? Carnaval é puro bom humor, é sorriso no rosto dia e noite, é encontrar e ser encontrado, e nesse ponto o amor é rei, é onipresente, não se esconde, apenas fantasia-se pra não ser notado com tanta facilidade. 

Perceber que por trás daquela máscara está o mais desmascarado e escancarado amor. No embalo do trio e dos blocos, um amor embalado a nossa espera. Um amor que já  começa na felicidade, sem a  preocupação do agrado de um primeiro encontro, sem a etiqueta de uma formalidade. Um amor que se entregou, sim, em uma época propícia, pois sabe que passada a folia, não há nada mais doce e aconchegante que um colo cheio de carinhos.

Um amor de carnaval que não virará cinzas na quarta-feira, que se agigantou, que escolheu a alegria da folia pra juntar os dois pombinhos, que lindo, e que a distância será apenas mais um atrativo, mais uma pimenta no reencontro. Um amor de carnaval que será um amor de dia dos namorados, de Natal, de réveillon, quiçá um amor de carnaval pro resto da vida. 

Entregar-se sem pensar no amanhã, onde quer que estejamos e quando for. Um amor de carnaval é declarar-se da maneira mais bonita, é uma nobre prova de amor, é rir das coincidências, afinal o mundo é um moinho, cantava Cartola, embalando romances de carnaval vida adentro. 

Sim, eu acredito em amor de carnaval. Afinal, o amor é não é uma fantasia?






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sexta-feira, 7 de março de 2014

Desenho para Raquel





Faz um tempo que estava guardado dentro de uma pasta velha, junto a documentos que de mais nada me serviriam, por isso uma cor amarelada já começava a surgir nas pontas do papel.

O ano era dois mil e nove. Eu voltava de viagem, trazia umas boas histórias junto de alguns amigos e uma ponta de saudade de uma mineira que o destino colocou à minha frente. Doce Raquel, dona dos mais esplendorosos olhos verdes. 

Pensei em enviá-la um presente assim que retornasse ao Rio de Janeiro, mas confesso que não foi muito fácil pensar em algo marcante e criativo ao mesmo tempo. Tive a ideia de desenhá-la, à época entusiasmado com o aprimoramento de um resquício de habilidade pra traçar rostos no papel.

Um desenho como presente... isso me pareceu meio cafona e esquisito, e me senti um pouco tolo por ter tido uma ideia dessas. Contei a alguns amigos e eles acharam graça e riram muito, eu disse que foi apenas uma ideia realmente tola e que essa intenção já estava totalmente abstraída. No final já estava rindo junto deles.

Passado alguns dias, movido por uma teimosia oriunda não sei de onde, resolvi fazer o desenho. Escolhi a foto que ela colocou no perfil em uma rede social e comecei a traçar. E confesso que gostei do resultado. Guardei junto a outros trabalhos, de vez em quando dando uns retoques.

Raquel era mergulhada em mistérios, o que a dava um tom ainda mais charmoso. De vez em quando usava um óculos de grau de haste roxa e tinha um certo carinho por eles. Os cabelos, negros e bastante lisos; o nariz um pouquinho arrebitado com um piercing discreto. Seu rosto formava uma harmônica conjunção quando apequenava os olhos ao sorrir. Eu disse, próximo de seu ouvido, que ela  haveria de ter sido a inspiração de Drummond quando ele descreveu, em uma de suas crônicas, uma "boca de luar". "É uma boca toda enluarada, com dentes alvos e leitosos, entende?"  Ela deu uma risada sem conseguir esconder as bochechas avermelhadas, beijou meu rosto e disse que eu era um carioca muito galanteador. 

 Em uma de nossas conversas pela internet, mostrei a música do Jorge Drexler cujo título leva seu nome. Ela disse que gostou muito e que sempre quis ouvir uma música que se chamasse 'Raquel'. Num instante já me apontou seu trecho preferido: A tu destino querías mantenerte fiel./ Princesa herida,/ el teatro de la vida/ cambia tu papel... 

Quando contei sobre o desenho, ela sorriu e disse que era o presente mais singelo e mais doce que alguém já lhe oferecera. Falou que outros homens já haviam lhe dado caros presentes, mas nunca um de valor tão alto quanto o meu. Que eu era um amor e que isso fazia de mim uma pessoa especial pra ela. Perguntou, da maneira mais bonita e mais mineira de se perguntar: "Tá igualzim eu?".

Hoje Raquel é uma boa lembrança de um período da minha vida. Algo que eu nunca soube exatamente, a fez desaparecer. Talvez algum problema pessoal, talvez um amor desmedido. Admito a curiosidade em saber se ainda existe nela algum resquício de pensamento sobre mim, sobre um menino de vinte e poucos anos que um dia lhe ofereceu um desenho como presente e tornou-se especial por causa disso. Caso sim, gostaria que fosse um pensamento muito carinhoso. "Como será que anda aquele menino, o Brunno, que fez um desenho de mim?". Se não, não teria qualquer moral pra julgá-la, visto tantas curvas que há nessa vida.

Agora, ao som de Jorge Drexler, revejo aquele desenho cujas pontas do papel já começam a ficar amareladas. Sorrio, sinto um pequeno aperto no peito e uma nostálgica saudade. Uma saudade dos olhos, do cheiro, da pele branquinha e, principalmente, daquela madrugada a sós com minha doce, especial e inesquecível Raquel. 


 






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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Gostar sem pressa







 Quando lembro de você, imagino um filme de nós dois. Penso em você falando comigo ao telefone, nas nossas histórias, nos seu olhar feliz quando eu dizia algo que você achava tão engraçado que chegava a chorar de tanto rir. Lembro também das semanas que ficávamos sem nos falar. Talvez obra do acaso. Talvez culpa do tempo. O tempo às vezes é o pior remédio. Dilacera vontades. Mas sempre soubemos desbravá-lo corajosamente e nos reencontros nos fazíamos de primeira vez.

Pura vontade de se ver. De marcar encontros e transformar a ansiedade em preliminares. De te ajudar a escolher o mais belo vestido. De já se saber feliz desde ali. A verdade é que sempre acreditamos um no outro. Seus olhos contavam o que as palavras timidamente escondiam dentro de ti. Sempre soubemos o que dizer, ainda que o silêncio encurralasse-nos. Não era vergonha. Era verdade. E as verdades não são essencialmente escancaradas.

Admiro seu jeito doce de menina. Suas responsabilidades de mulher. Seu sorriso quando olha pra mim. Sabe que pra você sou todo ouvidos, olhos, sorrisos e coração. Sou todo em plenitude. Sou até o que eu não conseguir ser. Sou porque sei que também és. E isso é coisa somente nossa. Temos nossa própria árvore pra fazer sombra e escalar. Temos nosso próprio sol pra que jamais apaguemos um ao outro. Temos nossa própria noite porque sabemos aproveitar a escuridão.

A vida tem dessas coisas. Dessas atitudes essencialmente humanas e honestas um com o outro. O saber de se gostar sem pressa. Sem ataques. Apenas nós dois e o sentimento, nos ares da inocência desse mundo, mundo esse que ás vezes parece tão pequeno pra nós dois. E ainda que o tempo passe, sei que encontro-te em cada esquina, em cada livraria, em cada primeiro amor, em todo e qualquer sonho bom. 






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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quero entender





Quero entender você.

Quero entender seu jeito feliz de me dar bom-dia. Seu charme quando usa um óculos de grau vintage.  Seu medo quando tranca a porta do quarto e chora escondida. Suas confidências com aquele ursinho de infância. Sua mania de andar só de calcinha quando sozinha em casa. Suas horas ouvindo música no banho. Seus vestidos simples de flores. Sua risada sem medo do ridículo, mostrando que o mundo é seu por direito. 

Quero entender seu hábito de raspar com a colher a lata de leite condensado e depois arrepender-se. De me mandar mensagens quando acho que o caos da segunda-feira já havia me devorado. Seu cuidado com minhas unhas. Seu sorriso tímido de quando escrevo um texto pra você. Seu cantar desafinado e bonito. Seus livros de autoajuda. Sua leveza quando coça minhas costas. Sua vontade de pintar o cabelo de verde e sair correndo por aí feito uma doida. 

Quero entender seu desejo de entrar no mar sem roupa de madrugada. Seu jeito tão charmoso de falar com sotaque. Seu carinho ao cobrir meus  pés. Seus assobios no ponto do ônibus. Sua vontade de diminuir os passos quando a chuva aumenta só pra chegar em casa toda molhada e, como você diz, "novinha de novo".  Sua conversa sobre sexo, futebol, novela, política sem cara feia ou suspiros irritados. Sua saudade das aulas de balé de quando criança, que você ainda lembra de umas coreografias e dança sozinha em frente ao espelho do seu quarto. 

Quero entender seu charme ao prender o rabo-de-cavalo com uma caneta bic. Sua fobia de baratas. Sua mania de debruçar-se na janela e pensar na vida. Seu porta-retrato com a foto do seu gato de estimação. Seu hábito de escrever poemas nas últimas folhas do caderno. Suas horas falando ao celular deitada na cama e olhando pro teto. Sua alegria ao dançar, bêbada, agarrada às amigas. Suas fotos fazendo careta que você morreria de vergonha se alguém as visse. 

Quero entender suas noites de sono. Seus sonhos. Seus olhos bordados à mão. Seu sorriso quando se fingiu de lua dentro de mim.  Sua estrela ao lado da minha, lá no céu.  Seu desejo de jamais anoitecer-se. Seu jeito de mais simples poesia. Seus passos mais felizes. Sua certeza de dizer que amanhã será ainda mais lindo.

Quero entender o que jamais entenderei.






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