quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O amor fura fila





Furar fila é arte. 

Pobres daqueles fadados ao final da fila, os últimos, lá na ponta, na garupa do azar. A cara da tristeza.

Dor de barriga, torcicolo, desmaio... furadores são criativos no motivo e prefeitos na interpretação. Causam inveja a qualquer Fernanda Montenegro. 

Confesso que não tenho paciência para os fura-filas. Ô raça ruim!

Quando algum malandro resolve dar o bote, sou o primeiro a acusar. Sou um delator sem medo de retaliações posteriores. Após, os demais da fila entram pro meu time, me ajudam a despachar esse malfeitor. De tão encabulado, nem pro final da fila vai. Prefere escafeder-se. Saio de nariz em pé e com a renovação da minha carteira de cidadão honesto.

Mas foi aí que o tiro que saiu pela culatra deste cronista e ricocheteou nos corações apaixonados.

A fila pra conseguir mesa naquele restaurante era de causar inveja a qualquer banco.  Mais vagarosa do que trânsito de metrópole na hora do rush. A esperança de conseguir entrar já se esgotava. Foi nesse cenário que o aflito furador veio falar comigo. 

- Amigo, salve-me dessa, preciso entrar de qualquer jeito...

Ora, meu velho, todos nós dessa fila também temos que entrar, e por todos os motivos que caibam nesse mundo. Vamos lá, circulando, circulando...

- Mas minha noiva está aí dentro e hoje é o dia em que a pedirei em casamento.

O que dizer a esse angustiado útlimo-romântico? Mais: o que ele dirá para sua futura patroa? Se não consegue nem chegar no horário marcado com os amigos para um dos dias mais importantes da sua vida, como será no dia de entrar na igreja?

O amor e sua  malandragem.

Lá permanecia o agoniado mancebo, mãos no bolso e suor no rosto. O amor tem dessas coisas, dessas provações. As mulheres acompanhadas que estavam na fila já acolheram o rapaz como filho, compraram sua briga, a essa altura todas com uma pontinha de inveja.  Afinal, qual mulher não gostaria de receber uma declaração de amor dessas, mesmo que não faça ideia? Convencer umas quarenta pessoas de que seus sentimentos são tão relevantes a  ponto de cederem seus lugares é tarefa que deixaria qualquer Don Juan inibido. 

O amor da pura chantagem.

 Ainda que seja blefe, pois como dito anteriormente, os furadores são cobras-criadas, esse correria realmente o risco de se casar até mesmo naquela noite. Sua coragem de peitar aquele exercito de mal humorados já é o tapete vermelho pra qualquer altar.

 E do alto da minha gasta sola de sapato, no infame julgamento do amor alheio, na extorsão sentimental que me encurralava, não tive outra escolha. 

Vai, meu filho, vai... vai e vê se aprende que o amor não entra em fila, seu peste...

     




Comentários

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial