Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nós dois e o silêncio





Nós dois olhando um pro outro. Os minutos que são horas. Os dias que são segundos. O tempo que desfaz seus ponteiros. Seu olhos na minha boca. Meus olhos que passeiam em sua língua.

Somos nós dois e o silêncio.

No momento em que  as palavras são utopia, as mais belas frases são ditas com todo o carinho das mãos.  Sorrisos são dicionários. O silêncio é berrante, é pura intimidade de ouvido, é o sentido aguçado daqueles que apenas se olham e se reparam, reparam em si próprios e no outro da maneira mais simples e mais amorosa, como se ali não estivessem. E realmente não estão. No pretexto da esperança, escolheram a cor verde pra colorirem suas verdades. 

São os segundos que não precisamos das frases. Basta um olho no olho, um colo, um carinho nas mãos. Somos nós dois ratificando nossas vontades adivinhadas. Nosso instinto mais simples e necessário, as vontades mais afloradas. É no silêncio que dizemos sim. É o cafuné de mãe. A troca de olhares e de  emoções. Não há o que se falar no nosso profundo silêncio. São corações que perguntam um pelo outro e necessitam da calmaria para dizerem que ali estão , peito encostado em uma única pulsação.

É o nosso silêncio de frente pro mar.

É o nosso silêncio cortejado pela lua.

É o nosso silêncio que surge em qualquer esquina, em qualquer troca de olhares, que esbarra em mim e eu agarro com força.

Entrego-te o meu silêncio. Cedo-me à sua calmaria. Acredito nas palavras simples e verdadeiras daquele momento de mais incontestável verdade. Encosto minha cabeça no seu ombro e ofereço-te meu maior presente embrulhado com o todo o silencio do nosso futuro. 

São seus risos. Todos os seus risos. Suas vontades tão escancaradas e tão femininas, seu jeito simples de me olhar bonito. É todo o universo daquilo que pressente. Diga-me tudo através do olhar, através dos sorrisos, despeje em mim todas as palavras de nossas mãos dadas.

Seu carinho é poesia. Meu ombro é tua moradia. No silêncio somos casa um para o outro. E é um prazer morar em ti.






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domingo, 15 de dezembro de 2013

Aquela canção






Aquela canção que lembra nós dois...

Aquele som que começa a tocar do nada, no churrasco, na esquina, no táxi...

Aquela música tão dois pombinhos...

Pode ser a pessoa mais séria e centrada do mundo. Pode estar na reunião que decidirá a sua vida. Se o malfadado camelô coloca a bendita música no último volume, o som adentrando ferozmente aquela sala... não negue, meu caro, tremerá na base.

Não fique constrangido caso essa música seja um pagode mela-cueca, um tecno-brega, um funk. É válido, corações partidos não fazem distinções ao subverter lembranças.

"Ah... telefona por favor... Tô morrendo de saudade..."

A lembrança dos bons momentos, das  horas passadas juntos, das festas, confraternizações, das brigas que terminavam em puro amor também, por que não?  Volta tudo, é o passado rebobinando a fita dos sentimentos escondidos, quase moribundos, que retornam ao som de uma simples batidinha musical.

Ainda que tenha atirado o vaso do flores na cabeça dele, que não tenham chegado às vias de fato por mero acaso do destino, basta  ouvir a famigerada melodia  pra pensar: bons tempos...

Sim, bons tempos, pois a música não trará à tona lembranças desconfortáveis, música não serve pra isso, ela varrerá e encontrará o único resquício positivo que tenha existido naquele peste.

E se tudo foi uma maravilha, um conto-de-fadas, que beleza, só esticar a rede e ligar o som  pra receber o cafuné das lembranças...

Ou se foram épocas de galho, de ter que abaixar a cabeça pra passar por algumas portas, não se grile, coloque a música baixinho e curta essa dor que dizem por aí  que é uma dor que não dói...

O amor musicado, saudosista, no ritmo de nossos antigos romances, tão íntimo, tão nosso, ainda que o futuro não traga de volta, dance comigo nesse ritmo, amore mio...

  




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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O amor fura fila





Furar fila é arte. 

Pobres daqueles fadados ao final da fila, os últimos, lá na ponta, na garupa do azar. A cara da tristeza.

Dor de barriga, torcicolo, desmaio... furadores são criativos no motivo e prefeitos na interpretação. Causam inveja a qualquer Fernanda Montenegro. 

Confesso que não tenho paciência para os fura-filas. Ô raça ruim!

Quando algum malandro resolve dar o bote, sou o primeiro a acusar. Sou um delator sem medo de retaliações posteriores. Após, os demais da fila entram pro meu time, me ajudam a despachar esse malfeitor. De tão encabulado, nem pro final da fila vai. Prefere escafeder-se. Saio de nariz em pé e com a renovação da minha carteira de cidadão honesto.

Mas foi aí que o tiro que saiu pela culatra deste cronista e ricocheteou nos corações apaixonados.

A fila pra conseguir mesa naquele restaurante era de causar inveja a qualquer banco.  Mais vagarosa do que trânsito de metrópole na hora do rush. A esperança de conseguir entrar já se esgotava. Foi nesse cenário que o aflito furador veio falar comigo. 

- Amigo, salve-me dessa, preciso entrar de qualquer jeito...

Ora, meu velho, todos nós dessa fila também temos que entrar, e por todos os motivos que caibam nesse mundo. Vamos lá, circulando, circulando...

- Mas minha noiva está aí dentro e hoje é o dia em que a pedirei em casamento.

O que dizer a esse angustiado útlimo-romântico? Mais: o que ele dirá para sua futura patroa? Se não consegue nem chegar no horário marcado com os amigos para um dos dias mais importantes da sua vida, como será no dia de entrar na igreja?

O amor e sua  malandragem.

Lá permanecia o agoniado mancebo, mãos no bolso e suor no rosto. O amor tem dessas coisas, dessas provações. As mulheres acompanhadas que estavam na fila já acolheram o rapaz como filho, compraram sua briga, a essa altura todas com uma pontinha de inveja.  Afinal, qual mulher não gostaria de receber uma declaração de amor dessas, mesmo que não faça ideia? Convencer umas quarenta pessoas de que seus sentimentos são tão relevantes a  ponto de cederem seus lugares é tarefa que deixaria qualquer Don Juan inibido. 

O amor da pura chantagem.

 Ainda que seja blefe, pois como dito anteriormente, os furadores são cobras-criadas, esse correria realmente o risco de se casar até mesmo naquela noite. Sua coragem de peitar aquele exercito de mal humorados já é o tapete vermelho pra qualquer altar.

 E do alto da minha gasta sola de sapato, no infame julgamento do amor alheio, na extorsão sentimental que me encurralava, não tive outra escolha. 

Vai, meu filho, vai... vai e vê se aprende que o amor não entra em fila, seu peste...

     




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