sábado, 1 de dezembro de 2012

A madrugada mais longa





Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã. Mas esquecemos que o amanhã só chega pra quem fecha os olhos.

Éramos novidade. Não me protegi das gotas de chuva, em mim já havia abrigo. Apontei pra ti discretamente,  apenas minha liberdade percebeu. Percebeu e sorriu a você. Sorriu seus olhos. Teus encantos me convidaram ao cinema. Minhas mãos buscaram as mais belas flores para os seus cabelos. Corri milhas pra não esquecer o seu jeito mais sereno. Andava meio sem tempo pra minha vida quando notei suas horas a mais.

 Lembra? 

Naquela noite eu não fechei as janelas. A escuridão havia se transformado em menina, e tinha medo do silêncio noturno. Sim, foi naquela noite. Naquela única de todas as noites. Naquela noite com mechas de vento. Eu não senti frio, pois paramos o tempo. Não retroagimos e não nos antecipamos. Éramos atemporais. Havíamos desaprendido a contagem das horas para que assim nos tornássemos eternidade. Você leu meus assobios, eu cantei seus versos, suas mãos sorriram pra mim. Seus olhos de bossa-nova. Sua timidez transpareceu recomeço.

Sempre há de haver outro dia, coube a mim a poesia, te entreguei meu aval. Cobri alguns poucos carinhos, mas seu beijo de meia-noite não exigiu preliminares. Notei o recolhimento dos seus lábios, ainda assim admirei. O próximo sol cuidaria de nós dois. Os dias seguintes nos transformariam em poucos segundos, seríamos absolutos primeiros beijos.

Hoje reconstituo os detalhes. O tempo passou e me deixou pra trás. Meu sono se tornou suas costas viradas, seus olhos baixos não apontavam mais os caminhos. Você ofereceu culpa, eu usei minhas noites como moeda de troca. Encurralado, me despedi de todo o começo. Caberá ao poeta as tristes linhas de meio e fim. As noites em claro. Você sem mim. 

Mais uma madrugada, e eu ainda lembro de você. Procuro minha cama dentro do seu esquecimento.







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