sábado, 1 de setembro de 2012

Retratos de uma tarde de chuva





Lá estava ela, sentada a poucos metros de mim. Pôs-se aos meus olhos sem que percebesse, ensaiou uma bela pose. Eu rabiscava frases ao léu, esperando que a chuva lá fora desse trégua. Esse foi nosso ponto em comum, esperávamos pela passagem da chuva, ela cruzava os braços demonstrando impaciência enquanto eu fazia certo gosto de vê-la, e escrevia algumas frases que talvez a tivesse como destinatária, aquela moça bastante incomodada em perder seu tempo esperando a passagem da chuva. Fico imaginando que deva ter muitos afazeres quando chegar ao lar, que deva ser compromissada com as tarefas de casa, ou que então esteja atrasada para algum compromisso marcado, que haja alguém à sua espera. Mas essas ideias eram minhas e eu não poderia atribuir a ela. Eram ideias de quem  tinha apenas o ócio e um caderno velho como companhia.
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Não é uma moça que chama tanta atenção. Deve ter uns vinte anos. Talvez menos, talvez mais. Possui um jeito discreto, um corpo de curvas não muito desenhadas, mas bem feitas, não por academia, decerto. Olhos bem castanhos, quase verdes. Nariz como se lapidado ao formato do seu rosto, boca de um belo sorriso, apesar do enfado. Um vestido decotado que se alinhava ao desenho do seu corpo. Chamava atenção de alguns homens,  mas não retribuía olhares. Por algum motivo, desviou sua atenção ao meu caderno, não tardou a perceber que eu rabiscava olhando em sua direção. Creio que escrever em locais públicos cause certa curiosidade nas pessoas, mais ainda quando imaginamos sermos o alvo daquelas palavras, e nesse momento eu já não tinha mais o interesse em manter a discrição. Segui a detalhá-la.
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A chuva já dava sinal de fraqueza, o sol ameaçava retornar. Fico imaginando se ela é solteira ou compromissada. Se eu fosse seu namorado, talvez não gostasse que outro homem olhasse seu corpo e o descrevesse. Mas não tenho como fazer tal afirmativa, e se essa fosse sua reação, torceria para que ela o achasse um idiota, além de que ele jamais saberia disso, e não estamos tratando aqui de uma atitude condenável, admirar uma bela mulher.
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 Desamarrou seu rabo-de-cavalo e sacudiu os cabelos , levantou da cadeira e ensaiou uma espreguiçada. Era bela assim, nos seus movimentos simples. Ajeitou discretamente o decote, eu a olhei sem impertinência. Esboçou um sorriso com o lado esquerdo da boca. Finjo que fora em minha direção.

 A chuva cessa, ela se vai, e aqui deixo esta confidência. Talvez procure saber o que escrevi naquela tarde de chuva. Talvez não. 






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