Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A madrugada mais longa





Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã. Mas esquecemos que o amanhã só chega pra quem fecha os olhos.

Éramos novidade. Não me protegi das gotas de chuva, em mim já havia abrigo. Apontei pra ti discretamente,  apenas minha liberdade percebeu. Percebeu e sorriu a você. Sorriu seus olhos. Teus encantos me convidaram ao cinema. Minhas mãos buscaram as mais belas flores para os seus cabelos. Corri milhas pra não esquecer o seu jeito mais sereno. Andava meio sem tempo pra minha vida quando notei suas horas a mais.

 Lembra? 

Naquela noite eu não fechei as janelas. A escuridão havia se transformado em menina, e tinha medo do silêncio noturno. Sim, foi naquela noite. Naquela única de todas as noites. Naquela noite com mechas de vento. Eu não senti frio, pois paramos o tempo. Não retroagimos e não nos antecipamos. Éramos atemporais. Havíamos desaprendido a contagem das horas para que assim nos tornássemos eternidade. Você leu meus assobios, eu cantei seus versos, suas mãos sorriram pra mim. Seus olhos de bossa-nova. Sua timidez transpareceu recomeço.

Sempre há de haver outro dia, coube a mim a poesia, te entreguei meu aval. Cobri alguns poucos carinhos, mas seu beijo de meia-noite não exigiu preliminares. Notei o recolhimento dos seus lábios, ainda assim admirei. O próximo sol cuidaria de nós dois. Os dias seguintes nos transformariam em poucos segundos, seríamos absolutos primeiros beijos.

Hoje reconstituo os detalhes. O tempo passou e me deixou pra trás. Meu sono se tornou suas costas viradas, seus olhos baixos não apontavam mais os caminhos. Você ofereceu culpa, eu usei minhas noites como moeda de troca. Encurralado, me despedi de todo o começo. Caberá ao poeta as tristes linhas de meio e fim. As noites em claro. Você sem mim. 

Mais uma madrugada, e eu ainda lembro de você. Procuro minha cama dentro do seu esquecimento.







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sábado, 1 de setembro de 2012

Retratos de uma tarde de chuva





Lá estava ela, sentada a poucos metros de mim. Pôs-se aos meus olhos sem que percebesse, ensaiou uma bela pose. Eu rabiscava frases ao léu, esperando que a chuva lá fora desse trégua. Esse foi nosso ponto em comum, esperávamos pela passagem da chuva, ela cruzava os braços demonstrando impaciência enquanto eu fazia certo gosto de vê-la, e escrevia algumas frases que talvez a tivesse como destinatária, aquela moça bastante incomodada em perder seu tempo esperando a passagem da chuva. Fico imaginando que deva ter muitos afazeres quando chegar ao lar, que deva ser compromissada com as tarefas de casa, ou que então esteja atrasada para algum compromisso marcado, que haja alguém à sua espera. Mas essas ideias eram minhas e eu não poderia atribuir a ela. Eram ideias de quem  tinha apenas o ócio e um caderno velho como companhia.
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Não é uma moça que chama tanta atenção. Deve ter uns vinte anos. Talvez menos, talvez mais. Possui um jeito discreto, um corpo de curvas não muito desenhadas, mas bem feitas, não por academia, decerto. Olhos bem castanhos, quase verdes. Nariz como se lapidado ao formato do seu rosto, boca de um belo sorriso, apesar do enfado. Um vestido decotado que se alinhava ao desenho do seu corpo. Chamava atenção de alguns homens,  mas não retribuía olhares. Por algum motivo, desviou sua atenção ao meu caderno, não tardou a perceber que eu rabiscava olhando em sua direção. Creio que escrever em locais públicos cause certa curiosidade nas pessoas, mais ainda quando imaginamos sermos o alvo daquelas palavras, e nesse momento eu já não tinha mais o interesse em manter a discrição. Segui a detalhá-la.
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A chuva já dava sinal de fraqueza, o sol ameaçava retornar. Fico imaginando se ela é solteira ou compromissada. Se eu fosse seu namorado, talvez não gostasse que outro homem olhasse seu corpo e o descrevesse. Mas não tenho como fazer tal afirmativa, e se essa fosse sua reação, torceria para que ela o achasse um idiota, além de que ele jamais saberia disso, e não estamos tratando aqui de uma atitude condenável, admirar uma bela mulher.
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 Desamarrou seu rabo-de-cavalo e sacudiu os cabelos , levantou da cadeira e ensaiou uma espreguiçada. Era bela assim, nos seus movimentos simples. Ajeitou discretamente o decote, eu a olhei sem impertinência. Esboçou um sorriso com o lado esquerdo da boca. Finjo que fora em minha direção.

 A chuva cessa, ela se vai, e aqui deixo esta confidência. Talvez procure saber o que escrevi naquela tarde de chuva. Talvez não. 






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domingo, 5 de agosto de 2012

Menina à beira-mar





Chorava diante do mar. Chorava sem pedir consolo, sem desejar a piedade das ondas que, comovidas, vinham beijar seus pés. Apenas escondia-se em sua reclusão, desejava afogar-se dentro de si.

Buscava respostas que surgiam confusas, não apontavam atalhos. Viu. Viu mas não quis acreditar, viu com a dúvida das suas pálpebras mas com a certeza do seu instinto mais feminino. O passado recente viera à tona, projetou futuro, entretanto a vida não ofereceu segunda chance. Eram sonhos de alguns anos que ainda desmoronavam, ela se esforçava pra apagar aquela dor, mas tamanhas são as coincidências dessa vida... Viu o que não queria ver.  Entregou-se à bruma da noite.

Era simples o seu gesto de choro, de complacência à lua que a observava, aquela lua que de tantos amores foi madrinha, naquela noite oferecia seu colo, e ela chorava de maneira singela, sem escândalos, sem desejar afagos. Saturava seu próprio corte. Chorava por amor, pela dor que teimava em sangrar.

Distanciou-se do grupo com quem estava. Pediu apenas a bênção do mar, deram por sua falta, eu a vi caminhando sozinha, mas nada disse, guardei seu segredo e, confesso, me emocionei. Foi tão sábia em caminhar na direção do mar, quem mais a ouviria com tamanha atenção?

Molhou os pés nas ondas. Batizou-se nas areias umedecidas, olhou pra lua e pediu respostas, a lua que a ouviu com toda atenção de mãe, que apontava para o infinito, vaga e displicente pra quem olhava de fora, mas tão cheia de carinho com aquela menina.

Retornou para junto dos demais. Sorriu aos seus amigos.

 




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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Adeus você e eu





Vou me despedir de você. Vou me despedir dos nossos momentos. Vou me despedir das brincadeiras, dos risos fáceis, do seus olhos felizes.

Talvez não perceba, mas nos distanciaremos. Não procuraremos mais um ao outro. A alegria cederá lugar ao conformismo. O tempo ganhará o peso das nossas costas.

Nossos dias serão contados, vontades não fazem hora extra.

Amanhã será uma nova manhã. Não achará resposta, também não as procurará. Dirá que não se arrepende da mesma  forma que não se surpreende. Lembrará do primeiro dia, do primeiro e vazio olhar, da avalanche que sucedeu. Lembrará de maneira cordial, sem a efusão a qual finjo não me pertencer, o que não me deixa bem, porém não me fecho ao cair a noite.

Recordará das brincadeiras, da sua confusão quando eu dizia meias-verdades, da maneira acanhada que ficava se eu fosse mais direto. Compreenderá pela metade, abandonará por plenitude. Repousará em sorrisos alheios, repleta de esquecimento. Serei um porta-retrato empoeirado na sua mente.

Fantasiará o que viria se arriscasse um passo a frente, imaginará estar melhor assim. Sentirá mas não entenderá. Recordará com a alegria do que não existiu e a incerteza do que foi sabido.

Dizem que a vida é assim...

Vou me despedir antes da última gota, não diga que é cedo demais. Confundiremos as horas. Você voltará pra casa; O meu caminho é mais longo.Você acordará às nove; Eu dormirei com o tempo. Você sorrirá, eu cobrirei minha pele. Serei um no meio de tantos. Você será tantas no meio de uma.

Certos amores não têm história pra contar. 






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domingo, 17 de junho de 2012

Quando





Quando as luzes não mostrarem os atalhos
Quando os livros recolherem suas letras
Quando os segredos se tornarem cochichos
Quando o riso virar castigo
Quando a perda resultar isolamento
Quando a chuva molhar nossas verdades
Quando não enxergarmos mais a poesia
Quando o mar beber seu sal
Quando o eterno anunciar o fim do dia
Quando a timidez não for mais o seu segredo
Quando as nuvens desfizerem nossos olhos
Quando as folhas não brincarem mais com as árvores
Quando rir tão alto não for pura ternura
Quando perdermos o perdão de tão ingênuos
Quando sua mão não for mais meu melhor colo
Quando a violeta cobiçar espinhos de rosa
Quando a chuva minguar a nossa música
Quando nossos olhos não mais dançarem
Quando o vento não soprar dentro de mim
Quando sua boca não sorrir bonito assim
Quando a dor for amizade
Quando o cor for falsidade
Quando sua distância não lembrar o que é ser casa
Quando o dia for ainda mais dia pra esconder a filha lua
Quando a noite for ainda mais noite pra nos manter na escuridão
Ainda lembre-se de mim.
Estou cansado, meu amor.
Estou muito cansado.








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sábado, 26 de maio de 2012

Do sorriso das mulheres





Como escreveu Drummond, certa feita, em um de seus infindáveis momentos de inspiração: "É próprio da mulher o sorriso que nada promete e tudo permite imaginar."

Bravo, poeta.

Tem coisa melhor que receber de uma mulher um sorriso repleto de afeto?

Se houver, que não me contem.

A mulher sorrindo, a vida me pedindo colo.

A mulher sorrindo, e o sol não querendo ceder o lugar à noite.

Ah, a mulher sorrindo...

Elas e seus enigmas da boca, discípulas de Monalisa, não distribuem sorrisos ao léu. Sorriso de mulher é certeiro, atiradoras-de-elite de mãos cheias.

Procuramos o pergaminho dos seus sorrisos. A mulher guarda o sorriso porque nele contem verdades. Porque nele contem amor.

Sussurrar no pé do ouvido e ganhar um sorriso como premiação. Um sorriso desmedido, avultado, todo contido de carinhos.

Resistir. quem consegue?

Mulher sorrindo é um convite para o amor.

É percorrer os lábios que se mostram da maneira mais bonita.

Às vezes sorriem pra esconder segredos, nos obrigando a peneirar resposta. Tarefa mais prazerosa não há.

E aqueles sorrisos escapulidos, quando sozinhas nas ruas?

Um sorriso tímido, envergonhado, lembrança de algo muito agradável que viera à tona, decerto.

Sorrindo sozinhas nas ruas, que lindo, tão afável e tão carinhoso, tão feminino.

É no sorriso que a mulher se despe. É o striptease dos dentes, a lascívia dos lábios. A mulher sorri também pra se entregar.

Lindas quando sorriem com os olhos.

Lindas quando sorriem com todo o corpo.

Lindas por sorrirem de puro amor. 










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quarta-feira, 14 de março de 2012

Todos os dias da mulher






Foi um fim de tarde um pouco incomum. Havia algo de diferente nas mulheres. Um jeito doce, um brilho próprio. Minha noite nascia com gosto de ternura.

Retornavam para casa carregadas pelas nuvens, com a brisa lhes fazendo cócegas, de tão belas que estavam, lindas, sorridentes, seguras de si. Transformaram aquele velho centro em uma passarela de Milão. 


Dia oito de março, dia internacional da mulher, e dia da mulher só pode ser todo dia, mas este último teve um quê a mais.


As rosas, meus caros. As rosas.

Epidemia do amor; rosas aos montes!

Lindo de ver.

Ah, e não tinha como não reparar no efeito que elas causaram! Era como se as buzinas daqueles ônibus apressados passassem a ter som de harpa. Os carros, como num passe de mágica, se transformaram em cavalos brancos. Aquelas ruas apertadas tornaram-se florestas dos contos-de-fada mais bonitos.


Eram as mulheres e suas rosas.

Ganhar uma rosa por ser mulher. Nada é mais simples e mais carinhoso.

E eram muitas, passavam ao meu lado, rosa na mão, rosto erguido e semblante de menina feliz.

Sim. Menina. Porque toda mulher feliz é uma doce menina.

Ostentavam sem qualquer pudor. Louis Vuitton? Que nada. Uma rosa, simplesmente.

Que tenha recebido no trabalho, por cortesia da empresa, junto às demais colegas, não há problema, nada desmerecerá.

Que tenha sido entregue em mãos junto do beijo apaixonado, coisa mais linda...

Teve aquela que ganhou brincos de ouro, que jantará no mais fino restaurante, que passará a noite na Presidencial do Copacabana Palace.

Porém acredito mais na menina que caminhava cheirando aquela rosinha, que o sorriso escorria pelos olhos, que lia e relia aquele cartão tão singelo e puro: "De: Para:", que a protegia do vento com a concha das mãos e que espalhava por aí o seu suspiro mais feliz.

E os homens, desavergonhados, sem qualquer receio de olhares atravessados, formaram filas, escolheram cuidadosamente, fizeram a festa do florista.

A rosa é a amante da mulher. É a sua lua cheia.

Dia das mulheres todos os dias. Rosas para elas todos os dias.

Ah, meus amigos, o amor ainda pode dar certo...







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domingo, 22 de janeiro de 2012

Apenas palavras




Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

Deposito toda a minha força nas palavras. Faço delas as minhas mechas de Sansão. Não inicio um assunto sem antes calcular a temperatura e o frescor das sílabas. Costuro palavras sobre o sal do mar. Rio e gargalho das minhas palavras. Mar é o gargalo das minhas frases. Poesia sob ameaça de extinção em distinção a qualquer ponto final. 

Permito que as palavras me expressem, que digam por elas as minhas transparências. Arrasto pela vida o piano dos seus significados, entrego às minhas palavras as verdades mais límpidas, as descrições mais condizentes, a realidade mais distante de qualquer máscara.
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As linhas me conduzem, me fazem de refém, despejam suas verdades enquanto me finjo de desentendido. Minhas letras são meu único espelho. Minhas frases são meu perfume quando minha linguagem é o céu dos olhos.  Apontam os sentidos. Desfazem as fraquezas das respostas para que eu enxergue através da caneta, pra que eu enxergue pelos olhos da linguagem, pela visão aguçada da linguagem. Deito e aguardo o "boa noite" que cai sobre meu telhado no temporal das sílabas, das madrugadas dentro de mim. 

A palavra é quando me confesso. É o meu sacerdote. Minha beatificação no banho de água-benta da gramática. Sacrifiquei a intimidade de diário. Poesia também é intimidade. No destaque de mim mesmo, nas pernas frágeis das letras. Nas janelas de toda poesia, faça noite ou faça dia, seja chuva ou seja sol, na lua que derrama seu mar sobre mim. Eu, cárcere de minhas letras. 

Não confundo mais a vida com as palavras. Misturo-as. Transformo meus dias em páginas de uma fábula. Mergulho em mar de sílabas, tomo sopa de letrinhas. Minhas palavras eu escrevo em linhas tênues. Em linhas tortas. Procurei demasiadas respostas em minhas próprias perguntas, fechei meus olhos e minhas mãos quando encarei a fria noite da linguagem.

Perdoei minhas respostas. Afinal, tudo não passa de palavras. Apenas palavras.






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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

As verdades mais simples



Nada de você me diz a verdade.
verdades são todos os nossos limites
na nossa vida os momentos mais tristes
dizem que o infinito é uma chance de errar.

Tens em mãos minhas mentiras
espelhadas em suas esquinas
na forma e momento de estar
na beleza de qualquer outro olhar
nos cheiram infinitas verdades de amor.

Apontam o instante do nosso encontro
o que não encontro em nenhum outro ponto
naquele momento um cheiro de luar.

Até as verdades mais simples
transbordam alegrias em cores
no profundo silêncio aos amores.
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