sábado, 10 de dezembro de 2011

A menina que lia o livro





Eu vi a menina que lia o livro sentada no banco dos fundos, como se desejasse esconder-se de tudo e de todos. Ela  lia o livro e eu tentava lê-la através de alguma transparência. 
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Suas mãos eram delicadas e cuidadosas no manuseio, pouco abria as páginas no intuito de preservar o livro como novo. Não queria amassos e dobraduras. Lia como quem troca confidências, como quem revela segredos. Suas mãos seguravam o livro de maneira zelosa como mãe que carrega o filho. A menina não virava as páginas, a menina fazia carinho nas folhas, massageava as palavras, fazia cócegas nas letras. 

A menina lia o livro e eu tentava à toda maneira descobrir qual era o Autor. Minha visão não alcançava com clareza, e ela lia com um semblante simples e benévolo, não desejava atenções, e aquela minha súbita e egoística curiosidade poderia atrapalhá-la. Que desejo mais indigno, esse o meu, de perturbar a leitura daquela menina, que lia de forma tão singela, não se preocupando com o murmúrio ao seu redor, e ajeitando de maneira delicada os cabelos quando o vento teimava em bagunçá-los. Ela lia o livro e eu não tinha a menor intenção em incomodar, e me contentei em observar ao longe, o  que ainda assim me fazia um certo bem.

Prendia-se  na leitura e esboçava reações, deixando transparecer um sorriso leve e tímido, e eu imaginava que estivesse lendo alguma história de amor, afinal histórias de amor têm dessas coisas, essas reações triviais e marcantes, como se ali nos encontrássemos, como se ali desejássemos nos encontrar, pra fazermos daquilo algo pra sempre, pra transformarmos em eterno tudo aquilo que é terno.
 
Ela lia o livro e eu aguardava o momento de me aproximar e dizer que também gostava daquele autor, que poderia indicar outros bons livros, e descobrirmos que temos um milhão de coisas em comum, que o que nasce através dos livros são as coisas mais lindas, que sua companhia seria algo agradável, porém o acaso não me ofereceu coincidências. A menina que lia o livro se perdeu de mim. Perdeu-se dos meus olhos pra se encontrar nas palavras.  






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