terça-feira, 30 de agosto de 2011

Teu colo





Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Da reverência das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite haviam perdido o reinado. 

Dançávamos pelo olhar e sorríamos oceanos. Nossas dúvidas não existiam mais. Eram pequenos medos cercados de sorrisos por todos os lados. Naquela noite navegamos. Fomos longe. Éramos absoluta serenidade. Pressa pra quê? Cobríamos nossas certezas e a lua nos ofertava passeio. Um passeio somente nosso.

Ríamos alto, sem medo, sem pudor, ríamos e ríamos, e quem ri junto assina o prefácio das próximas manhãs. Os corações também dançavam. Dançávamos a dança da batida dos nossos corações, beijávamos com os olhos, um beijo demorado com os olhos, entrelaçando pálpebras, misturando as íris, gosto puro de castanho escuro.

Derramou-se no sim, fez pouco caso de qualquer futura pressão, de qualquer percalço, de qualquer possível desdém. Ali havia encontrado uma vida inteira, e uma vida inteira não é muito tempo pra quem se permite gostar. Quando tomados de mútua cumplicidade, flertamos com Deus, negociamos nossa vida a dois em câmera lenta, onde tudo seja sempre intenso e duradouro, pra que assim nenhum dos dois enxergue fim.

Porém, houve dias a menos. Horas a mais. Excessos. Faltas. Portas trancadas, janelas cortinadas. Lembro da sua insegurança, eu não vasculhei pecados, não baguncei seus conceitos. Mas amor não tem definição, não se conceitua, amor necessita certas coragens, não pode ter medo de exageros. Amor é um moleque correndo descalço pelas ruas, destemido, falando palavrão. Um eterno moleque correndo descalço na direção do mundo, na direção de todos, na direção de nós dois.

Desaprendi você. O mundo que criamos não foi suficiente. Não brinquei de Deus, construí com a ajuda dele, e casal que tem o aval de Deus não faz tormenta. O silêncio ensurdecia-me, a voz não me  alcançava. Nossos olhos não mais dançavam. 

Olhos que dançam dizem adeus quando adormecem. 

Olhos que dançam sempre choram se não esquecem.

Não voltei pra casa. No colo do tempo eu ainda existo.

O colo do tempo é o teu colo.   






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