Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Teu colo





Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Da reverência das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite haviam perdido o reinado. 

Dançávamos pelo olhar e sorríamos oceanos. Nossas dúvidas não existiam mais. Eram pequenos medos cercados de sorrisos por todos os lados. Naquela noite navegamos. Fomos longe. Éramos absoluta serenidade. Pressa pra quê? Cobríamos nossas certezas e a lua nos ofertava passeio. Um passeio somente nosso.

Ríamos alto, sem medo, sem pudor, ríamos e ríamos, e quem ri junto assina o prefácio das próximas manhãs. Os corações também dançavam. Dançávamos a dança da batida dos nossos corações, beijávamos com os olhos, um beijo demorado com os olhos, entrelaçando pálpebras, misturando as íris, gosto puro de castanho escuro.

Derramou-se no sim, fez pouco caso de qualquer futura pressão, de qualquer percalço, de qualquer possível desdém. Ali havia encontrado uma vida inteira, e uma vida inteira não é muito tempo pra quem se permite gostar. Quando tomados de mútua cumplicidade, flertamos com Deus, negociamos nossa vida a dois em câmera lenta, onde tudo seja sempre intenso e duradouro, pra que assim nenhum dos dois enxergue fim.

Porém, houve dias a menos. Horas a mais. Excessos. Faltas. Portas trancadas, janelas cortinadas. Lembro da sua insegurança, eu não vasculhei pecados, não baguncei seus conceitos. Mas amor não tem definição, não se conceitua, amor necessita certas coragens, não pode ter medo de exageros. Amor é um moleque correndo descalço pelas ruas, destemido, falando palavrão. Um eterno moleque correndo descalço na direção do mundo, na direção de todos, na direção de nós dois.

Desaprendi você. O mundo que criamos não foi suficiente. Não brinquei de Deus, construí com a ajuda dele, e casal que tem o aval de Deus não faz tormenta. O silêncio ensurdecia-me, a voz não me  alcançava. Nossos olhos não mais dançavam. 

Olhos que dançam dizem adeus quando adormecem. 

Olhos que dançam sempre choram se não esquecem.

Não voltei pra casa. No colo do tempo eu ainda existo.

O colo do tempo é o teu colo.   






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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Amor não é cálculo





Nunca fui a favor daquele amor que parte de teorias. Não acredito no amor que tenha nascido de razões, de vontade já preestabelecidas. Amor tem que ser à vista. Vontades eu trago à prazo. Faço questão de caminhar com os pés descalços. 

Porque amor é simplesmente assim. Bate à porta sem prévio aviso. E o que você dirá? Volte depois, a casa está desarrumada? Não adiantará oferecer paisagens, amor só se sustenta com um mundo inteiro. 

Amor não diz o que é, tampouco a que veio. Isso é missão nossa. Amor se dá, mas não se desvenda. Buscamos descobrir seus segredos, e isso é mais que justo, pois não desejamos mergulhar em um mundo de incertezas, mas pecamos ao esquecermos que a incerteza é a gasolina do amor, e isso é lindo, pois casal que não se nutre de incertezas não é mais casal. Transformam o amor em conveniência, em contrato, desfazem vidas, desatam desejos. A melhor maneira de planejar o amor é deixando que o amor nos planeje.

É chato, é clichê, mas não tem jeito; Não compreendo quem calcule a chegada do amor. Mais: não entendo quem desvirtue sentimentos quando o amor já se faz presente. Algo parecido com 'o amor chegou, mas ainda não é hora', e é óbvio que não é hora, pois jamais haverá hora, e não faz qualquer sentido nos oferecermos apenas quando estamos cem por cento, até porque não sabemos quando isso ocorre. Imaginamos, mas não sabemos. 

A verdade é que o oposto do amor não é o ódio nem a indiferença. O oposto do amor é o cálculo. No cálculo há o amor recíproco, há a vontade de estar junto, de dividir olhares, de compartilhar a respiração, há o desejo de construir futuro. O problema é que colocamos vaidades e vergonhas à frente, conduzimos de maneira errada, somos maduros no amor quando deveríamos ser crianças. Passamos a dividir saudades.

Na indiferença você passa batida. No cálculo você para e fica.

Isso me lembra paralamas do sucesso: "Ela disse adeus e chorou, já sem nenhum sinal de amor". Ora, ninguém dá adeus e chora sem que haja nenhum sinal de amor. Herbert deixa isso claro. É  blasfêmia amorosa. Significa ter amor mas não predestinar, e sim pré conceituar. Ela amou mas calculou; tendeu ao fim.

A indiferença atinge um. O cálculo maltrata os dois. 

Calcular amor é enganar si próprio. É dizer não quando o sim já tornou-se onipresente. Não calculo o amor porque minha conta é dedutiva e incerta, sem medidores, já na primeira respiração e no primeiro sorriso. 






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terça-feira, 2 de agosto de 2011

O receio de magoar o outro é a certeza de magoar si mesmo





 Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões. Sensatas ou abruptas, em frações de segundos, no calor do momento ou no calmo e sereno sofá de casa. Seja pra decidir a poltrona do cinema, o destino das próximas férias ou jogar tudo pro alto e aceitar aquela bendita e desastrosa proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.
  
Talvez o grande problema ocorra quando antecipamos essas decisões. Quando colocamos a dúvida à frente do amor. A incerteza guiando possibilidades. Afirmamos o insucesso antes de darmos as mãos, prevemos fatalidades enquanto gozamos de extrema saúde.

Há quem não se entregue por receio, medos ou incertezas. Usa do altruísmo. Diz não querer correr o risco de magoar a outra pessoa.

Não me levem a mal, mas o altruísmo, esse tão singelo sentimento, de nada representa no pré-amor.


Difícil enxergar um amor que não tenha qualquer resquício de dúvida. Um amor decorado, onde cada passo é previsto e milimetricamente pensado. Seria o fim das mais que bem-vindas descobertas. Ficamos presos a detalhes absolutamente vazios quando, na verdade, o medo encontra-se dentro de nós. Por não querermos enfrentar o que está logo adiante, imaginamo-nos nobres, divinos, à beira da santificação. Abrimos mão do amor na intenção de que o outro não sofra. Abrimos mão, mas apertamos o coração. Tapamos os olhos para a luz do sol. Vestimos nossa própria reclusão. Julgamo-nos merecedores. Dificultamos o amor por esquecermos da sua genuína simplicidade.

O medo da mágoa faz com que percamos a elegância do amor, e elegância, nesse caso, é naturalidade. Gostamos de fingir que o amor não é feito de mistérios. A maior dúvida de um casal surge quando não  há mais dúvidas entre os dois. O receio de magoar o outro é a certeza de magoar si mesmo. É não esperar mais por sorrisos e por beijos, e sim gelar o capuccino da relação. Querer saber do que acontece e do que haverá de acontecer, e assim ter a falsa impressão caminhar pelo harém de um amor prefeito. 

O medo da mágoa não nos dá o direito de criar expectativas, e isso é lindo em um casal, criar expectativas. Diria mais: a melhor amiga da mulher é a expectativa. Por bem ou por mal, na mágoa ou na realização, na certeza ou na dúvida.

Ter medo de magoar o outro é ter medo dos dias de amanhã, viver de indiferenças, sorrir com a boca de lágrimas. É medo de se enfrentar, de aguçar a própria curiosidade. É desistir de toda a poesia de uma vida a dois.


Não querer magoar já significa vasculhar mágoas.







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