terça-feira, 19 de abril de 2011

O passarinho





A roseira ao lado da janela do meu quarto vem recebendo uma visita ilustre nos últimos tempos. Um beija-flor passou a bater ponto diariamente, entre duas e quatro da tarde. Durante esse horário volto minha atenção à espera desse novo amigo. Não dá outra. Para bem próximo a mim, batendo freneticamente suas asas e saboreando o néctar das flores. Demora uns dois minutos e depois sai voando por aí, mas no dia seguinte estará aqui de volta.
Essa agradável visita me fez lembrar uma situação por qual passei quando menor.

Por morar em apartamento, era complicado ter algum animal maior. Meu bichinho de estimação era um passarinho, um periquito verde com pequenas manchas amarelas, que eu gostava de ouvir cantar e de ver bater as asas. De manhã, quando acordava, colocava a gaiola na janela e ficava por ali, parado, só admirando e imitando seu canto com assobios.

Passamos a misturar nossas rotinas. Sabia de cor o horário de trocar o alpiste, quando gostava de entrar na casinha e a hora que mergulhava no pote d'água e se banhava, batendo as asas e espalhando água. Sem dúvidas, minha parte favorita. 

Certo dia, trocando a vasilha de alpiste, descuidei a deixei aberta a porta da gaiola. Tempo suficiente pro passarinho sair e voar na direção das árvores, bem diante dos meus olhos, a essa altura já esbugalhados e chorosos. 

Penitenciei-me como gente grande. Não acreditava na tamanha falha que havia cometido. O maior de todos os meus pecados. Culpa demais pra um menino de seis anos. Não havia quem conseguisse me confortar. Segui a lamentar enquanto olhava a gaiola vazia. Coloquei o pote de alpiste próximo da janela na esperança de que retornasse. Nada feito. Definitivamente, meu amigo havia ido embora, e eu não poderia fazer mais nada. 

Dias depois, fui com meu pai visitar um tio. Ao me ver, perguntou porque eu andava tão triste, e lhe contei toda a história. Ele fez cara de surpreso:

- Acredita que ontem um passarinho igual ao seu pousou aqui em casa?

Recordo da minha face de espanto como se tivesse sido ontem. Meu tio me levou pra conferir se esse poderia ser o meu passarinho. Seria muita sorte e coincidência! E eu tremia mais a cada passo que dava...

Ver de longe já me bastou. Era mesmo o passarinho. O meu passarinho! Não conseguia acreditar. Havia voltado, o fujão!  E que satisfação meu tio teve ao ver! Deixou que eu o levasse com a gaiola e tudo. Com sorriso de orelha a orelha, fui acompanhando meu tio até o carro, onde meu pai já me esperava. Corri pra contar a novidade. 

O tio, ali parado, despediu-se de mim, do meu pai e do periquito que comprara poucas horas antes, já sabendo do ocorrido. Despediu-se com a certeza de que dali a pouco eu estaria com o passarinho, cantando e brincando novamente. Brincando a mais pura alegria.    






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