quinta-feira, 7 de abril de 2011

Da beleza irresistivelmente comum






Fazia hora andando pelo centro da cidade, entre livrarias, lojas e lanchonetes. Descansava enquanto meu horário de almoço não terminava.

Por ali passava uma moça. Impecavelmente vestida. Daquelas que, na mesma proporção, atraem olhares e destroem investidas.

Tinha toda a pinta de que entraria em alguns dos caríssimos restaurantes à sua volta. Que nada.  Aproximou-se de uma carrocinha de pipoca. Pediu um saquinho médio, doce, com leite condensado. Encostou na mureta ao lado e por ali ficou. 

Ela apenas comia pipoca durante a tarde. Não buscava espaços. Não queria holofotes. Comia pipoca, e pipoca, apenas por nome, já nos tira o mau humor. Pipoca é nome de palhaço. É batismo de cachorro mansinho. É pular de alegria. E eu a observava e sorria, como quem já se sentia íntimo.

Desfez-se  por completo da armadura que a tornava intocável. Trocou por vestido de menina.  Ofereceu infância.  Garimpou todos os diamantes da mais simples ternura. Desatou  invernos quando sorriu pro pipoqueiro. Nem notou, mas espalhou flores ao seu redor.

Adocicou a tarde. Passou leite condensado nas nuvens do céu nublado. Desconcentrou  pragmatismos naquela viela. Senti como se ela me abraçasse, e abraço é gesto singelo e simples, tão simples e tão terno, feito essa cena que eu observava.

A mulher se torna bonita através das pequenas atitudes. Durante os suaves deslindes. Preocupa-se tanto com os detalhes externos que a pipoca de início de tarde se torna seu refúgio, sua casa na árvore.

Naquela esquina ela mostrou beleza porque se mostrou comum. E não há nada mais belo que uma mulher irresistivelmente comum.

Lambeu os dedos ao final. Perdi o horário de almoço.






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