Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O passarinho





A roseira ao lado da janela do meu quarto vem recebendo uma visita ilustre nos últimos tempos. Um beija-flor passou a bater ponto diariamente, entre duas e quatro da tarde. Durante esse horário volto minha atenção à espera desse novo amigo. Não dá outra. Para bem próximo a mim, batendo freneticamente suas asas e saboreando o néctar das flores. Demora uns dois minutos e depois sai voando por aí, mas no dia seguinte estará aqui de volta.
Essa agradável visita me fez lembrar uma situação por qual passei quando menor.

Por morar em apartamento, era complicado ter algum animal maior. Meu bichinho de estimação era um passarinho, um periquito verde com pequenas manchas amarelas, que eu gostava de ouvir cantar e de ver bater as asas. De manhã, quando acordava, colocava a gaiola na janela e ficava por ali, parado, só admirando e imitando seu canto com assobios.

Passamos a misturar nossas rotinas. Sabia de cor o horário de trocar o alpiste, quando gostava de entrar na casinha e a hora que mergulhava no pote d'água e se banhava, batendo as asas e espalhando água. Sem dúvidas, minha parte favorita. 

Certo dia, trocando a vasilha de alpiste, descuidei a deixei aberta a porta da gaiola. Tempo suficiente pro passarinho sair e voar na direção das árvores, bem diante dos meus olhos, a essa altura já esbugalhados e chorosos. 

Penitenciei-me como gente grande. Não acreditava na tamanha falha que havia cometido. O maior de todos os meus pecados. Culpa demais pra um menino de seis anos. Não havia quem conseguisse me confortar. Segui a lamentar enquanto olhava a gaiola vazia. Coloquei o pote de alpiste próximo da janela na esperança de que retornasse. Nada feito. Definitivamente, meu amigo havia ido embora, e eu não poderia fazer mais nada. 

Dias depois, fui com meu pai visitar um tio. Ao me ver, perguntou porque eu andava tão triste, e lhe contei toda a história. Ele fez cara de surpreso:

- Acredita que ontem um passarinho igual ao seu pousou aqui em casa?

Recordo da minha face de espanto como se tivesse sido ontem. Meu tio me levou pra conferir se esse poderia ser o meu passarinho. Seria muita sorte e coincidência! E eu tremia mais a cada passo que dava...

Ver de longe já me bastou. Era mesmo o passarinho. O meu passarinho! Não conseguia acreditar. Havia voltado, o fujão!  E que satisfação meu tio teve ao ver! Deixou que eu o levasse com a gaiola e tudo. Com sorriso de orelha a orelha, fui acompanhando meu tio até o carro, onde meu pai já me esperava. Corri pra contar a novidade. 

O tio, ali parado, despediu-se de mim, do meu pai e do periquito que comprara poucas horas antes, já sabendo do ocorrido. Despediu-se com a certeza de que dali a pouco eu estaria com o passarinho, cantando e brincando novamente. Brincando a mais pura alegria.    






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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Da beleza irresistivelmente comum






Fazia hora andando pelo centro da cidade, entre livrarias, lojas e lanchonetes. Descansava enquanto meu horário de almoço não terminava.

Por ali passava uma moça. Impecavelmente vestida. Daquelas que, na mesma proporção, atraem olhares e destroem investidas.

Tinha toda a pinta de que entraria em alguns dos caríssimos restaurantes à sua volta. Que nada.  Aproximou-se de uma carrocinha de pipoca. Pediu um saquinho médio, doce, com leite condensado. Encostou na mureta ao lado e por ali ficou. 

Ela apenas comia pipoca durante a tarde. Não buscava espaços. Não queria holofotes. Comia pipoca, e pipoca, apenas por nome, já nos tira o mau humor. Pipoca é nome de palhaço. É batismo de cachorro mansinho. É pular de alegria. E eu a observava e sorria, como quem já se sentia íntimo.

Desfez-se  por completo da armadura que a tornava intocável. Trocou por vestido de menina.  Ofereceu infância.  Garimpou todos os diamantes da mais simples ternura. Desatou  invernos quando sorriu pro pipoqueiro. Nem notou, mas espalhou flores ao seu redor.

Adocicou a tarde. Passou leite condensado nas nuvens do céu nublado. Desconcentrou  pragmatismos naquela viela. Senti como se ela me abraçasse, e abraço é gesto singelo e simples, tão simples e tão terno, feito essa cena que eu observava.

A mulher se torna bonita através das pequenas atitudes. Durante os suaves deslindes. Preocupa-se tanto com os detalhes externos que a pipoca de início de tarde se torna seu refúgio, sua casa na árvore.

Naquela esquina ela mostrou beleza porque se mostrou comum. E não há nada mais belo que uma mulher irresistivelmente comum.

Lambeu os dedos ao final. Perdi o horário de almoço.






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