sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Moça sentada à frente





Não sabe quem sou. Desconhece meu nome. Não faz ideia se sequer moro neste planeta. Tampouco notou que eu estava dois bancos à direita. Parecia distraída, ou simplesmente cansada, o horário era condizente.

Sentou-se e aguardou. Apoiou a bolsa sobre os joelhos, bolsa que escondia parte do vestido claro e simples, fazendo combinação com seus olhos castanhos, quase esverdeados, que brilhavam face à lua. Brilho natural, tão contrastante ao cansaço que já lhe ameaçava domínio.  

Era simples seu jeito de moça. Arriscava cochilo quando menos constrangida aos olhares carniceiros à sua volta. Sorriu timidamente e perdeu-se no cansaço. Enfim dormiu, pobre menina, como quem suplica pelo merecido retorno ao lar. Nomeei-me guardião de seu descanso.

Adormeceu como de puro encanto. Ah, e como era bela enquanto dormia! E eu olhava pra ela na tentativa de desvendar seus segredos. Imaginava que ela voltasse pra casa em uma rua vazia, quase madrugada, sendo recebida pelos pais que a aguardavam para o beijo de boa noite, afetuosos, orgulhosos da honesta filha. Ou que morasse com um tio alcoólatra, e que sentisse medo de chegar em casa, que corresse pro quarto a chorar, moça coitada, na esperança que seus estudos não fossem em vão e que tão logo mudará a vida. Ou então que morasse e vivesse sozinha, que viesse de cidade do interior por ter recebido alguma proposta de trabalho, ou por tentar a sorte mesmo, que fosse brigada com os pais, que desde moleca buscasse independência, que de repente até tivesse pais ricos, mas vontade de crescer às custas do seu próprio suor. E eu não quis imaginá-la com homens. Vesti meu próprio luto.   

Mas a verdade é inevitável, e devia haver muitos homens em sua vida. Homens que receberiam seu sorriso a cada dia, a cada hora, e que saberiam o horário que acorda e o horário que encosta pra ver tevê. Saberiam o dia do seu aniversário, a flor que prefere, o drinque favorito, o melhor programa a dois. Existem homens que a conhecem, que na alegria gargalham juntos e na tristeza se abraçam chorando. E que de mim ela não guardará nada, nem uma lembrança, afinal sou apenas aquele que sentou à sua direita, que a vigiou enquanto dormia e quando despertou com olhar triste a retornar ao lar, naquele fim de noite, a moça.






Comentários

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial