Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Moça sentada à frente





Não sabe quem sou. Desconhece meu nome. Não faz ideia se sequer moro neste planeta. Tampouco notou que eu estava dois bancos à direita. Parecia distraída, ou simplesmente cansada, o horário era condizente.

Sentou-se e aguardou. Apoiou a bolsa sobre os joelhos, bolsa que escondia parte do vestido claro e simples, fazendo combinação com seus olhos castanhos, quase esverdeados, que brilhavam face à lua. Brilho natural, tão contrastante ao cansaço que já lhe ameaçava domínio.  

Era simples seu jeito de moça. Arriscava cochilo quando menos constrangida aos olhares carniceiros à sua volta. Sorriu timidamente e perdeu-se no cansaço. Enfim dormiu, pobre menina, como quem suplica pelo merecido retorno ao lar. Nomeei-me guardião de seu descanso.

Adormeceu como de puro encanto. Ah, e como era bela enquanto dormia! E eu olhava pra ela na tentativa de desvendar seus segredos. Imaginava que ela voltasse pra casa em uma rua vazia, quase madrugada, sendo recebida pelos pais que a aguardavam para o beijo de boa noite, afetuosos, orgulhosos da honesta filha. Ou que morasse com um tio alcoólatra, e que sentisse medo de chegar em casa, que corresse pro quarto a chorar, moça coitada, na esperança que seus estudos não fossem em vão e que tão logo mudará a vida. Ou então que morasse e vivesse sozinha, que viesse de cidade do interior por ter recebido alguma proposta de trabalho, ou por tentar a sorte mesmo, que fosse brigada com os pais, que desde moleca buscasse independência, que de repente até tivesse pais ricos, mas vontade de crescer às custas do seu próprio suor. E eu não quis imaginá-la com homens. Vesti meu próprio luto.   

Mas a verdade é inevitável, e devia haver muitos homens em sua vida. Homens que receberiam seu sorriso a cada dia, a cada hora, e que saberiam o horário que acorda e o horário que encosta pra ver tevê. Saberiam o dia do seu aniversário, a flor que prefere, o drinque favorito, o melhor programa a dois. Existem homens que a conhecem, que na alegria gargalham juntos e na tristeza se abraçam chorando. E que de mim ela não guardará nada, nem uma lembrança, afinal sou apenas aquele que sentou à sua direita, que a vigiou enquanto dormia e quando despertou com olhar triste a retornar ao lar, naquele fim de noite, a moça.






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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fofo






Homem não gosta de ser chamado de fofo. Não tem jeito.

O fofo é visto como o amante à moda antiga. Tão antiga que tornou-se obsoleta.

É atencioso. Simpático, sempre estará disposto a agradar. Não se incomoda em aguardá-la por duas horas pra oferecer carona. Pagará o drinque. Ligará às quatro da manhã pra saber se chegou bem, mesmo tendo-a deixado na porta de casa.

O homem fofo beira a perfeição. Seu único defeito é ser fofo.

A mulher parece dinamitar o homem ao chamá-lo de fofo. Seu sorriso saliente contrasta com a face espantada e constrangida do fofo. Fofo soa como uma violência verbal aos ouvidos masculinos. Um estupro pela língua.

Admito, o fofo está  à frente dos demais. Tem tantos pontos com as mulheres que já acumulou milhas. Saberá dos atalhos. Vestirá a atenção dos olhos da mulher. Guardará segredos.

O fofo é um autêntico homoheterossexual.

Mas a verdade é que a mulher brinca ao chamar o homem de fofo. Coloco-me no lugar delas. Visto saia por uns instantes. Fofo é uma das poucas palavras que o dicionário se enrola pra traduzir, então que os homens não sejam tão cruéis a ponto de duvidar de seu verdadeiro significado.

Todo homem é fofo. Nem que seja por interesse. Pagar a conta do restaurante é ser fofo. Beijar a testa também. Ceder lugar é lavrar certidão de fofura. Ser fiel é ser irremediavelmente fofo.

E a mulher?

A mulher desnuda o homem ao chamá-lo de fofo. Desmascara desnecessárias elegâncias. Entrega o jogo e o desconcentra. Derrama intenções. Repare como nenhuma mulher chama um homem de fofo e vira a cara logo depois. Ela aguardará as nuances. Observará os traquejos. Uma voyeur sem pudores.

Seus olhos são atentos à toda reação masculina. Leem a levantada de sobrancelha. Gravam a coçada na nuca. Pintam de rosa as bochechas.

Apenas mais um de seus fatalismos.

Não à toa o dicionário define mal o fofo. É segredo feminino guardado à sete chaves, porém controversamente à disposição.






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