quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Álbum de fotografias





Nunca fui muito fã de fotografia. Salvo exceções, costumo ceder a vez. Logo me prontifico a fotografar, a desculpa perfeita de quem não deseja incluir-se no registro. 

Talvez por fotografia ter virado algo banal.  Desceu do romantismo ao fast food, do segredo à fofoca. Foto não pertence mais ao baú de família. É o atalho do nosso exibicionismo. 

Na minha casa, fotografia era aguardada como sorteio de Mega-Sena. Registros de viagens, festas, aniversários... Meu pai as levava para a revelação, que durava, em média, três dias. Eram três dias de ansiedade e curiosidade. Quando reveladas, juntávamos a família. A mãe pedia cuidado no manuseio enquanto tratava de colocá-las no álbum. No final de semana levávamos à casa dos tios. Puro pretexto pra reunião de família. Fazia bem.

E o que dizer  sobre as fotos antigas, já beijadas pelo tempo? Aquelas fotos amareladas, recebendo a reverência do passado, o aplauso da longevidade, o lirismo de um por-do-sol que ali se desenha. Meus pais têm fotos de antes do casamento. Fotografias amareladas. Morro de inveja. O casal que tem fotografias amareladas é contemplado com um filme de sua história. A fotografia passa a falar. Torna-se um diário. Cria-se uma relação fraterna, ganha valor no mercado. É exposta como o maior e mais merecido troféu. Não terei fotos amareladas. No máximo, um pen drive com mal contato. Pena.

Essa teoria me convencia. Até surgir a tal da foto 'selfie'.

Repare que pouco importa se ao fundo está a Capela Sistina ou um varal com calcinhas penduradas. O interesse não está ali. A intenção não é mostrar aonde estão, e sim que estão. É transmissão de ternura, carta de amor gravurada. Nada mais importa senão os dois.
 
A foto é ousada. Revela as espinhas da mulher e os pêlos na orelha do homem. O flash vem como um detetive. Mas e daí? Quem enxergaria esse tipo de coisa? Quem apontaria algum defeito quando as pessoas demonstram tamanha vontade de estarem juntas?

Inclusive, a distância da máquina fotografica é meramente proposital. A intenção é deixar mais próximo. Não abraçamos e registramos tal momento junto a pessoas que não desejamos todo o bem. Quem ama preenche o mundo com a pessoa amada. A paisagem é despropósito. O foco é em segundo plano.

Não recordo de fotos assim tiradas com máquinas de antigamente. Talvez pela dificuldade do encaixe ao foco. Que bom. Certos avanços nos contemplam com a glória de um regresso.

 Tecnologias têm lá suas vantagens. Peneirar simplicidades é a maior delas.







Comentários

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial