Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O amor não entende nada sobre nós





Você pega o amor e desfaz. Desmembra. Segue a bula. A forma de usar. Enlatado, plastificado, inconfundível. 

Amor não caminha ao léu. Carrega seguidores. Não dá um passo sem metamorfoses. Abstrai mentiras escancaradas. Meticuloso, sufoca reações. Amor abre passagem para o sorvete no shopping nas tardes de domingo. É  sabido. Entende que acaso vira caso em um bater de asas. E dizem que amor não é passo à frente. Enganam-se!

Se for gentil vira amor. Se verdadeiro, é amor artesanal. Cínico? Amor bruto. O romântico é amor literal. Todos tão pueris quanto folha que dança ao vento. E qual amor não é pueril? Temo por um amor que não conheça da infância. Que não recorde dos oito anos de idade. Aponto para aqueles que, inexoráveis, tornam-se descrentes de um amor eternamente infantil. Desaparecem rígidos e irredutíveis aos olhos de quem finge não enxergar. 

Mas aí você fecha os olhos e ama. E ama mais. E se atira. Diz não ter fim. E todo amor que não tem fim é pura linha do horizonte. Não entende de razões, de espelhos, de página virada e café quente. E projeta futuro enquanto o passado ainda assombra. Tudo o que mais queres é uma vida inteira de amor, enquanto leva-se uma vida inteira pra entender o que é amor.

O amor não é ninguém. Amor é qualquer um. Pro amor todos deduzem, todos debocham, todos denotam. O amor é um lascivo eufemismo. Transforma-te. Atrai e a trai.

O amor é desmascarado. É frente a frente. É tudo que colocar sobre o papel. É basicamente o que não tem nada de básico. Não dizemos nada sobre o amor. O amor não entende nada sobre nós. Esse é o medo. Essa é a alegria. Somos nós dois. Todos os lugares. Lugar algum.










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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Álbum de fotografias





Nunca fui muito fã de fotografia. Salvo exceções, costumo ceder a vez. Logo me prontifico a fotografar, a desculpa perfeita de quem não deseja incluir-se no registro. 

Talvez por fotografia ter virado algo banal.  Desceu do romantismo ao fast food, do segredo à fofoca. Foto não pertence mais ao baú de família. É o atalho do nosso exibicionismo. 

Na minha casa, fotografia era aguardada como sorteio de Mega-Sena. Registros de viagens, festas, aniversários... Meu pai as levava para a revelação, que durava, em média, três dias. Eram três dias de ansiedade e curiosidade. Quando reveladas, juntávamos a família. A mãe pedia cuidado no manuseio enquanto tratava de colocá-las no álbum. No final de semana levávamos à casa dos tios. Puro pretexto pra reunião de família. Fazia bem.

E o que dizer  sobre as fotos antigas, já beijadas pelo tempo? Aquelas fotos amareladas, recebendo a reverência do passado, o aplauso da longevidade, o lirismo de um por-do-sol que ali se desenha. Meus pais têm fotos de antes do casamento. Fotografias amareladas. Morro de inveja. O casal que tem fotografias amareladas é contemplado com um filme de sua história. A fotografia passa a falar. Torna-se um diário. Cria-se uma relação fraterna, ganha valor no mercado. É exposta como o maior e mais merecido troféu. Não terei fotos amareladas. No máximo, um pen drive com mal contato. Pena.

Essa teoria me convencia. Até surgir a tal da foto 'selfie'.

Repare que pouco importa se ao fundo está a Capela Sistina ou um varal com calcinhas penduradas. O interesse não está ali. A intenção não é mostrar aonde estão, e sim que estão. É transmissão de ternura, carta de amor gravurada. Nada mais importa senão os dois.
 
A foto é ousada. Revela as espinhas da mulher e os pêlos na orelha do homem. O flash vem como um detetive. Mas e daí? Quem enxergaria esse tipo de coisa? Quem apontaria algum defeito quando as pessoas demonstram tamanha vontade de estarem juntas?

Inclusive, a distância da máquina fotografica é meramente proposital. A intenção é deixar mais próximo. Não abraçamos e registramos tal momento junto a pessoas que não desejamos todo o bem. Quem ama preenche o mundo com a pessoa amada. A paisagem é despropósito. O foco é em segundo plano.

Não recordo de fotos assim tiradas com máquinas de antigamente. Talvez pela dificuldade do encaixe ao foco. Que bom. Certos avanços nos contemplam com a glória de um regresso.

 Tecnologias têm lá suas vantagens. Peneirar simplicidades é a maior delas.







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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Aos seus pés






Sou admirador de um belo par de pés femininos.

Não tem jeito. Se me sentir atraído, escorregarei minha visão por todo o seu corpo até chegar quase ao chão. Sem qualquer pudor. Praticamente um peão de obra. Só disfarço após suntuosa análise.

Mas vamos com calma. Não pretendo passar a imagem de um podólatra psicótico. Minha admiração por essa parte da anatomia feminina passa longe de lambidas e chupões em meio a leite condensado e morangos. Não ganhará status de massagem erótica, tampouco sentirei prazer ao receber pisadas e esmagadas enquanto me faço de tapete. Minha admiração é em plano geral, quase na visão de um especialista. Pura estética.

É pelo pé que a mulher se revela vaidosa. Ora, quem cuidaria de um parte do corpo feita apenas pra nos sustentar? Quem pensaria em tratar da nossa parte mais naturalmente castigada? Os homens? Que as bolhas e calos parecem fazer parte do corpo desde o nascimento? Que ignoram o crescimento de unhas nos pés e passam meses sem cortá-las? Os mesmos que os apertam em chuteiras amarradas até a canela? Não mesmo. As mulheres são verdadeiras feiticeiras. Apertam seus pés em sapatos bico-fino pra depois surgirem como se sempre andassem descalças. Equilibram-se em saltos-agulha, mas a unha sempre bem feita. Seus pés são seus manuais, e os leio com toda atenção.

No shopping, passam horas escolhendo calçados. Aguardo com toda a calma. Faço meus minutos de silêncio. Reconheço a hora sagrada, a hipnose feminina perante esse santuário. Torço pra que seus olhos passem longe de botas, fechadas e compridas, impedindo qualquer visualização. Sempre torço pela sandália, o mais nu dos calçados, o vestido transparente dos pés, como marca de biquine propositalmente  à mostra.

Unhas pintadas com esmalte clarinho que ela escolheu dentre tantas outras cores. Tornozeleira de couro comprada em uma viagem inesquecível. Um anel de pé  feito praticamente sob medida. Aquela tatuagem de borboleta acima do calcanhar, seu mais novo mimo. A mulher se mostra aos homens de maneira diferente. Através da linguagem das nuances, do faro um pouco mais aguçado, da percepção apurada. Observar uma mulher por inteira é trocar intimidades pelo olhar. Elogiar uma tatuagem, um brinco ou o cheiro do perfume é mais válido que despejar mentiras esfarrapadas. A mulher se esconde de um lado pra se mostrar de outro, e desvendar seus enigmas é puro detetivismo masculino.

O verdadeiro homem sempre chegará aos pés de uma mulher. 






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