Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Quero ouvir de você




Quero ouvir de você as verdades mais descabidas. Quero ouvir de você as mentiras que nos servem também. Quero ouvir de você os caprichos e os dramas que mais nos unem em um só amor. Quero ouvir de você a canção mais brega e simples, aquela canção que mais lembra você. Quero ouvir de você os seus olhos de menina nervosa e de mulher mais doce. Quero ouvir de você os seus sonhos mais lindos e os pesadelos mais tristes, para que neste você devore o meu colo. Quero ouvir de você as ausências mais sentidas e todos os momentos de minha companhia única e a mais sublime. Quero ouvir de você os passos que me dão o maior susto de tantas alegrias. Quero ouvir de você o mais quente inverno e o verão rodeado de folhas secas. Quero ouvir de você as vaidades, as mais graciosas vaidades. Quero ouvir de você o seu ponto fraco que me aponta o rumo. Quero ouvir de você a dança mais bela dos seus cabelos quando assoprados pelo vento. Quero ouvir de você o seu cheiro mais natural e mais feminino. Quero ouvir de você o barquinho de papel que nos levou tão longe. Quero ouvir de você a poesia tão simples e tão nós dois. Quero ouvir de você o seu "meu bem" das palavras mais doces. Quero ouvir de você as nossas mãos dadas que apontam lá pra detrás do céu. Quero ouvir de você o seu primeiro e eterno beijo, o beijo mais rápido e o mais demorado, o beijo único que é todo seu. Quero ouvir de você as brincadeiras mais infantis e as mais puras. Quero ouvir de você aquele momento mais devagar de coração mais acelerado. Quero ouvir de você o seu jeito mais carinhoso de menina feliz. Quero ouvir de você o nosso ensurdecedor silêncio naquela madrugada de paz. 






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sábado, 10 de dezembro de 2011

A menina que lia o livro





Eu vi a menina que lia o livro sentada no banco dos fundos, como se desejasse esconder-se de tudo e de todos. Ela  lia o livro e eu tentava lê-la através de alguma transparência. 
.
Suas mãos eram delicadas e cuidadosas no manuseio, pouco abria as páginas no intuito de preservar o livro como novo. Não queria amassos e dobraduras. Lia como quem troca confidências, como quem revela segredos. Suas mãos seguravam o livro de maneira zelosa como mãe que carrega o filho. A menina não virava as páginas, a menina fazia carinho nas folhas, massageava as palavras, fazia cócegas nas letras. 

A menina lia o livro e eu tentava à toda maneira descobrir qual era o Autor. Minha visão não alcançava com clareza, e ela lia com um semblante simples e benévolo, não desejava atenções, e aquela minha súbita e egoística curiosidade poderia atrapalhá-la. Que desejo mais indigno, esse o meu, de perturbar a leitura daquela menina, que lia de forma tão singela, não se preocupando com o murmúrio ao seu redor, e ajeitando de maneira delicada os cabelos quando o vento teimava em bagunçá-los. Ela lia o livro e eu não tinha a menor intenção em incomodar, e me contentei em observar ao longe, o  que ainda assim me fazia um certo bem.

Prendia-se  na leitura e esboçava reações, deixando transparecer um sorriso leve e tímido, e eu imaginava que estivesse lendo alguma história de amor, afinal histórias de amor têm dessas coisas, essas reações triviais e marcantes, como se ali nos encontrássemos, como se ali desejássemos nos encontrar, pra fazermos daquilo algo pra sempre, pra transformarmos em eterno tudo aquilo que é terno.
 
Ela lia o livro e eu aguardava o momento de me aproximar e dizer que também gostava daquele autor, que poderia indicar outros bons livros, e descobrirmos que temos um milhão de coisas em comum, que o que nasce através dos livros são as coisas mais lindas, que sua companhia seria algo agradável, porém o acaso não me ofereceu coincidências. A menina que lia o livro se perdeu de mim. Perdeu-se dos meus olhos pra se encontrar nas palavras.  






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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Mulher sozinha





Ela não busca nada além de uma felicidade qualquer. Deseja trovoar manhãs. Deseja se alimentar dos sorrisos de quem ela alimenta. Deseja chorar o choro dos olhos de quem chora por ela. Procura por esse mundo o que é seu por direito e necessidade. Cansou do acaso. Deseja caso. 

Reza toda noite, desculpando-se de suas entregas. Penitencia-se por desejar amor demais onde a esperança já lhe deu as costas. Sofre, mas sofre em silêncio. Sofre pra si, trancada dentro de seu peito, dentro de seus arrependimentos, dentro de seus medos. Cobre-se de toda sua coragem despejada em tão tênue sentimento, que por espinhos da vida não se tornou seu harém de pétalas.

Ela procura nas frases as brincadeiras da poesia.

Procura na conversa alta o seu beijo de  "durma bem". 

O que a difere das outras mulheres? 

Considera-se diferente, incomoda-se com quem incomoda seu mundo. Não será qualquer um que desabotoará seus orgulhos, orgulhos de mulher que contracenam e contradizem com as intenções de quem se aproxima. Não é pecado, é receio. Receio de um resquício de sorriso culminado em imaturas verdades ou veementes mentiras.

Não que lhe faltem tentativas. Torna-se a mais bela da noite, arruma-se de maneira leve e delicada, passeia pelos olhos de quem a olha e a alguns esboça sorrisos. Dança como quem ali não está, porém atenta a todo movimento ao seu redor. Dentro de si ela busca amor, mas sabe que prefere ser buscada. Deseja amor por coincidências, pois coincidências são alicerces da eternidade.

Ela busca no outro o que não encontra em si. Ela busca no outro, não encontra, e ri.

Retorna pra casa na espera do agora. Leva consigo as incertezas de uma  noite. Dorme  o sono de quem se arrepende de tentativas, de quem aguarda o inesperado, de quem não espera os segredos das manhãs, tamanhas são as surpresas dessa vida.






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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Do início de um namoro





Início de namoro beira a reencarnação. A reencarnação ainda em vida. Uma dupla-vida, uma esquizofrenia por doação.

Ah, o início, como se tudo fosse um filme, ainda com o musical ao fundo, ainda anunciando o elenco, ainda dando os créditos ao seu criador ou ao seu cupido. O momento em que tapamos o canto da nossa visão pra centralizarmos unicamente no recém amado, ainda no cordão umbilical. O medo de segurar no colo, de machucar qualquer parte daquele tão sensível e delicado feto de amor. 

Pouco importa como veio e de onde veio. Está à sua frente, novinho, aquele amor pelo qual você tanto produziu-se pra atraí-lo, que tanto via interpretado por Richard Gere (guardadas as devidas proporções, per favore), que tanto ouvia nas canções de Chico, que tanto lia nos versos de Vinícius. Encontra-se hipnotizada, e isso é muito justo. 

O amor e seus reflexos.

Que chova granizo e granito. Pouco importa, não haverá tempo ruim. 

O cara reagirá com graça ao atraso de 40 minutos da donzela. "Estava ajeitando a franja!" Mais do que justificado. 

Ela achará fofo a mania que ele tem de usar a calça na metade da bunda. Ouvirá seu rock pesado como se fosse o mais lírico canto.   

Ele aceitará prontamente a ideia de um jantar romântico no restaurante japonês, por mais que o treiler de X-tudo à frente lhe seja muito mais atrativo.

Ela saberá de cór a escalação completa do time dele. Incluindo os reservas. 

O primeiro programa a dois, obviamente, é o cinema.

Nada mais romântico e carinhoso.

O cinema é o batismo do amor. É a primeira comunhão de qualquer relacionamento. 

Casais, façam-me o favor, comprem apenas um saco de pipoca!

Não é pão-durismo. Tampouco regime. É puro pretexto para o enlace. Pura necessidade de estarem mais juntos que quaisquer outros daquela sessão. De manter as mãos atadas como se tentassem formar uma única mão. Para encostar a cabeça no ombro do outro em uma cena romântica. Para se abraçarem em um momento de terror. 

Mulher, pode convidá-lo pra assistir a Almodóvar ou Woody Allen. Até mesmo uma comédia romântica. Garanto que ele não fará cara feia. 

Homem, não irá titubear se levá-la a uma sessão de "Jogos Mortais" ou "Velozes e Furiosos". Ela lhe abrirá um sorriso. 

Início de namoro nada mais é que a busca pela intimidade. Intimidade é fazer sala para as manias, reverter os contratempos, debochar das intempéries. Intimidade é saber driblar as siglas que, mais cedo ou mais tarde, hão de surgir.

É manter o relacionamento sempre acima da DR.

É entender um momento de TPM.

É nunca recorrer ao SOS.

A intimidade não se entrega a quem não cede. Porque ceder sempre foi beber do outro.

Casal que cede mantém a sede.






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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Quando ela chora




Chorou como quem dá adeus ao corpo.
Chorou da maneira como um vaso seco chora.
Da maneira como um vaso seco sem flor chora.
Chorava por quê, mulher?
Seus olhos vermelhos demoravam a cicatrizar.
Suas bochechas escorriam desesperanças.
Chorava de tanto que se recriminava.
Chorava de tanto que se absolvia.
Chorava por quê?
Não imagino a mulher chorando por outro motivo senão amor.
Pela falta de um amor
Pelo excesso de um amor.
Pela distância de um amor sempre presente.
Por estar perto de um amor, porém ausente.
Chorava sem medir lençóis, sem disfarçar traços.
Chorava como quem se libertava.
Chorava como quem implora prisão.
O que dizer a uma mulher que chora?
Mulher pede colo ao seu próprio choro.
Não procura respostas. O choro torna-se sua certeza.
Homens não entendem por que as mulheres choram.
Nem deveriam.
Mulheres choram quando querem conversar com Deus.
São sabidas de seus atalhos.
Egoísmo? Negativo. Fidelidade.
Mulheres são fieis ao seu choro.
E eu observava o choro daquela mulher.
Chorou até o momento em que não aguentou e parou de chorar.
Secou a lágrima como quem sente vergonha.
Olhou pro lado com receio de suas verdades.
Não temas, mulher.
Sua lágrima é sempre doce.
Sua lágrima é redenção.
Sua lágrima é água benta.
Sua lágrima constrói perdão.
Chore pra nos batizar.
Chore pra recomeçar.
Chore, mulher. Chore.






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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Teu colo





Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Da reverência das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite haviam perdido o reinado. 

Dançávamos pelo olhar e sorríamos oceanos. Nossas dúvidas não existiam mais. Eram pequenos medos cercados de sorrisos por todos os lados. Naquela noite navegamos. Fomos longe. Éramos absoluta serenidade. Pressa pra quê? Cobríamos nossas certezas e a lua nos ofertava passeio. Um passeio somente nosso.

Ríamos alto, sem medo, sem pudor, ríamos e ríamos, e quem ri junto assina o prefácio das próximas manhãs. Os corações também dançavam. Dançávamos a dança da batida dos nossos corações, beijávamos com os olhos, um beijo demorado com os olhos, entrelaçando pálpebras, misturando as íris, gosto puro de castanho escuro.

Derramou-se no sim, fez pouco caso de qualquer futura pressão, de qualquer percalço, de qualquer possível desdém. Ali havia encontrado uma vida inteira, e uma vida inteira não é muito tempo pra quem se permite gostar. Quando tomados de mútua cumplicidade, flertamos com Deus, negociamos nossa vida a dois em câmera lenta, onde tudo seja sempre intenso e duradouro, pra que assim nenhum dos dois enxergue fim.

Porém, houve dias a menos. Horas a mais. Excessos. Faltas. Portas trancadas, janelas cortinadas. Lembro da sua insegurança, eu não vasculhei pecados, não baguncei seus conceitos. Mas amor não tem definição, não se conceitua, amor necessita certas coragens, não pode ter medo de exageros. Amor é um moleque correndo descalço pelas ruas, destemido, falando palavrão. Um eterno moleque correndo descalço na direção do mundo, na direção de todos, na direção de nós dois.

Desaprendi você. O mundo que criamos não foi suficiente. Não brinquei de Deus, construí com a ajuda dele, e casal que tem o aval de Deus não faz tormenta. O silêncio ensurdecia-me, a voz não me  alcançava. Nossos olhos não mais dançavam. 

Olhos que dançam dizem adeus quando adormecem. 

Olhos que dançam sempre choram se não esquecem.

Não voltei pra casa. No colo do tempo eu ainda existo.

O colo do tempo é o teu colo.   






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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Amor não é cálculo





Nunca fui a favor daquele amor que parte de teorias. Não acredito no amor que tenha nascido de razões, de vontade já preestabelecidas. Amor tem que ser à vista. Vontades eu trago à prazo. Faço questão de caminhar com os pés descalços. 

Porque amor é simplesmente assim. Bate à porta sem prévio aviso. E o que você dirá? Volte depois, a casa está desarrumada? Não adiantará oferecer paisagens, amor só se sustenta com um mundo inteiro. 

Amor não diz o que é, tampouco a que veio. Isso é missão nossa. Amor se dá, mas não se desvenda. Buscamos descobrir seus segredos, e isso é mais que justo, pois não desejamos mergulhar em um mundo de incertezas, mas pecamos ao esquecermos que a incerteza é a gasolina do amor, e isso é lindo, pois casal que não se nutre de incertezas não é mais casal. Transformam o amor em conveniência, em contrato, desfazem vidas, desatam desejos. A melhor maneira de planejar o amor é deixando que o amor nos planeje.

É chato, é clichê, mas não tem jeito; Não compreendo quem calcule a chegada do amor. Mais: não entendo quem desvirtue sentimentos quando o amor já se faz presente. Algo parecido com 'o amor chegou, mas ainda não é hora', e é óbvio que não é hora, pois jamais haverá hora, e não faz qualquer sentido nos oferecermos apenas quando estamos cem por cento, até porque não sabemos quando isso ocorre. Imaginamos, mas não sabemos. 

A verdade é que o oposto do amor não é o ódio nem a indiferença. O oposto do amor é o cálculo. No cálculo há o amor recíproco, há a vontade de estar junto, de dividir olhares, de compartilhar a respiração, há o desejo de construir futuro. O problema é que colocamos vaidades e vergonhas à frente, conduzimos de maneira errada, somos maduros no amor quando deveríamos ser crianças. Passamos a dividir saudades.

Na indiferença você passa batida. No cálculo você para e fica.

Isso me lembra paralamas do sucesso: "Ela disse adeus e chorou, já sem nenhum sinal de amor". Ora, ninguém dá adeus e chora sem que haja nenhum sinal de amor. Herbert deixa isso claro. É  blasfêmia amorosa. Significa ter amor mas não predestinar, e sim pré conceituar. Ela amou mas calculou; tendeu ao fim.

A indiferença atinge um. O cálculo maltrata os dois. 

Calcular amor é enganar si próprio. É dizer não quando o sim já tornou-se onipresente. Não calculo o amor porque minha conta é dedutiva e incerta, sem medidores, já na primeira respiração e no primeiro sorriso. 






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terça-feira, 2 de agosto de 2011

O receio de magoar o outro é a certeza de magoar si mesmo





 Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões. Sensatas ou abruptas, em frações de segundos, no calor do momento ou no calmo e sereno sofá de casa. Seja pra decidir a poltrona do cinema, o destino das próximas férias ou jogar tudo pro alto e aceitar aquela bendita e desastrosa proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.
  
Talvez o grande problema ocorra quando antecipamos essas decisões. Quando colocamos a dúvida à frente do amor. A incerteza guiando possibilidades. Afirmamos o insucesso antes de darmos as mãos, prevemos fatalidades enquanto gozamos de extrema saúde.

Há quem não se entregue por receio, medos ou incertezas. Usa do altruísmo. Diz não querer correr o risco de magoar a outra pessoa.

Não me levem a mal, mas o altruísmo, esse tão singelo sentimento, de nada representa no pré-amor.


Difícil enxergar um amor que não tenha qualquer resquício de dúvida. Um amor decorado, onde cada passo é previsto e milimetricamente pensado. Seria o fim das mais que bem-vindas descobertas. Ficamos presos a detalhes absolutamente vazios quando, na verdade, o medo encontra-se dentro de nós. Por não querermos enfrentar o que está logo adiante, imaginamo-nos nobres, divinos, à beira da santificação. Abrimos mão do amor na intenção de que o outro não sofra. Abrimos mão, mas apertamos o coração. Tapamos os olhos para a luz do sol. Vestimos nossa própria reclusão. Julgamo-nos merecedores. Dificultamos o amor por esquecermos da sua genuína simplicidade.

O medo da mágoa faz com que percamos a elegância do amor, e elegância, nesse caso, é naturalidade. Gostamos de fingir que o amor não é feito de mistérios. A maior dúvida de um casal surge quando não  há mais dúvidas entre os dois. O receio de magoar o outro é a certeza de magoar si mesmo. É não esperar mais por sorrisos e por beijos, e sim gelar o capuccino da relação. Querer saber do que acontece e do que haverá de acontecer, e assim ter a falsa impressão caminhar pelo harém de um amor prefeito. 

O medo da mágoa não nos dá o direito de criar expectativas, e isso é lindo em um casal, criar expectativas. Diria mais: a melhor amiga da mulher é a expectativa. Por bem ou por mal, na mágoa ou na realização, na certeza ou na dúvida.

Ter medo de magoar o outro é ter medo dos dias de amanhã, viver de indiferenças, sorrir com a boca de lágrimas. É medo de se enfrentar, de aguçar a própria curiosidade. É desistir de toda a poesia de uma vida a dois.


Não querer magoar já significa vasculhar mágoas.







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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cafuné de mulher



 

Coisa gostosa é ganhar um cafuné de mulher. 

Elas não negam. Não rejeitam nosso pedido. Quase uma oração. Atenderão nossas súplicas.
 
Deito no colo com o rabo abanando. Sem qualquer receio.

Ora, algo que leva o nome de 'cafuné'  tem como ser vergonhoso ou ruim? Cafuné me lembra amarelinha desenhada com giz, o que não vem a ser de todo incompreensível, afinal, ambos nos levam ao céu.. 

Elas modelam cachinhos em nossos cabelos como se desejassem que nos tornassemos anjos. Anjos de todo amor. 

São total ternura quando nos massageiam depois de um estressante dia de trabalho, durante o ronco da bebedeira, enquanto nos acalmam de uma notícia ruim ou quando sonhamos juntos o nosso futuro. A mulher que faz cafuné nos presenteia aconchego. Usa e abusa dos caminhos e carinhos da paz. 

Ah, e como elas são boas nisso...

Eu peço, imploro, de joelhos se for preciso. Convide-me a deitar no seu mais sereno colo de amiga, de namorada e de esposa. Ofereça sempre teu colo de mulher, o repouso de suas mãos que desenham nos cachos dos meus desejos mais bonitos. Que amanse meus pensamentos e acalme minhas angústias. Passeie em torno dos meus devaneios, acaricie meus sonhos de ti cada vez mais perto.
 
Jamais duvide dos movimentos mágicos de suas mãos!

Em casa, na praça, no shopping, onde quer que seja. Eleve-me com todo esse seu poder de feiticeira. Seu colo me serve como ventre, acolhe feito amor de mãe e enlouquece como paixão de mulher amada.

Repouso sobre ti e lhe conto todo o meu dia, todos os meus dias, toda a minha vida. Você aprecia minha cara de sono, meus olhos já dominados por seus dedos mágicos e conhecedores de cada canto das minhas verdades .Beija-me na testa da maneira mais sincera desse mundo, eu abro um sorriso e digo que te gosto, e dizem por aí que isso tudo é algo extremamente brega. Eu concordo. Extremamente brega e absolutamente sincero.

Viva às breguices advindas dos gestos mais simples e verdadeiros!









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terça-feira, 31 de maio de 2011

Passeio masculino





Transitam deslumbradas. Não fazem cara feia. Sentem-se como se deitadas no sofá de casa. Seus olhos enxergam feito olhos de águia, não perdendo um só movimento. Tornam-se poderosas e complacentes na mesma proporção.

Conversam entre si, exibindo e analisando seus novos pertences. Algumas apenas andam por andar, e passam diversas vezes à minha frente. Desfilam suas bolsas e seus filhos. Aguardam sem um ai de reclamação. Passeiam sorridentes, ora apressadas pra não perder a sessão de cinema. Tornam-se suscetíveis. Desabrocham. Afloram gentilezas.  Não querem saber de estresse, tampouco olham pro relógio. O tempo passa a não ter mais tempo.  

É lugar de amor de adolescência, de primeiro beijo, de primeiro passeio sem os pais.  

Apenas observo. Torno-me espectador da deslumbrante peça que nem ensaiada foi, tamanha sabença de sincronismo. 

Não fazem pouco da presença masculina. É lugar de olho no olho, de encontro, de acasos e de portas abertas. É faculdade masculina. O momento de decifrá-las sem a necessidade de mapas inintendíveis. Não estão em si. Encontram-se hipnotizadas. É a hora de pegar o atalho, de dar o pulo do gato. Os risos são mais fáceis. A vitrine torna-se seu espelho e seus olhos as refletem em mim, despindo suas carências.
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Os homens pecam quando fazem careta ao acompanhá-las. Preferem bater o ponto e sair logo após. Passam a ser malcriados quando fazem pouco de suas companhias. Negam o passado. Não entendem. Dizem ser desnecessário. Jamais compreenderão tão aguçado faro. Algo quase que instintivo. Pobre deles. 

Comigo não. Aguardarei feito Buda. Carregarei suas bolsas sem medo de olhares atravessados e cochichos maldosos. Estarei blindado, pois elas me abrirão sorrisos. As mulheres sentirão ciúmes  daquela  que tem um homem que carrega suas bolsas. Desfilará orgulhosa. É o passo a frente dos demais. Um certeiro contra-golpe. 

Despacharão ternuras com a devida recompensa. E é a mulher quem entende de recompensas. 

Não compreendo como o homem rejeita um passeio no shopping.







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sexta-feira, 13 de maio de 2011

A lua e eu




A noite não é mais criança. Virou mulher. Guarda segredos. 

Noite bela é a noite enfeitada pela lua. 

A Lua é a minha simpatia. O meu voto secreto. Minha adoração camuflada entre as estrelas. 

A lua pede que a decifremos. É lasciva, nos tira pra dançar. Oferece-se aos poucos. Diferente do sol, egoísta, soberbo sabedor de seus poderes. 

O Sol desfila como o verão, imponente feito seus domínios. É sempre citado por sua grandiosidade. Mas eu prefiro os mistérios da menina lua, que nasce tímida trazendo consigo a noite, que é pura reverência aos seus encantos. 

O sol pode até ser o astro-rei. Mas a lua é a princesa. E convenhamos, a princesa é a mais charmosa do reino.

Acanhada, desliza sobre o mar, que a reflete como mulher que se olha no espelho, contemplando-se. O mar é seu admirador secreto. Tem na lua sua paixão de infância. Faz suas vontades, repousa-a em seus braços quando cheia, fazendo com que se espreguice como mulher acariciada. Deita sobre suas àguas e adormece quando ninada. 

A Lua não tem orgulhos. É faceira. Dá-se à contemplação e embala romances. Sempre estará no meio de dois amores, jamais sendo intrusa. É a madrinha dos que se entregam ao verdadeiro amor. É o cinema feito por Deus. Não cobrará ingressos porque se sustenta com sorrisos.

Apesar de distante, a lua permite que a alcancemos. Deslizamos em suas crateras feito criança em parque de diversão. Não se incomoda se registrarmos por ali nossa passagem e nossos amores por toda eternidade. 

Eu marco o meu nome na lua. Marco o nosso nome na lua. Finco minha bandeira e, orgulhoso, exibo ao mundo inteiro. A lua permite e não faz cerimônias. E  assim passamos a noite juntos, lua e eu, revestindo-a de todo encanto de quem já se sabe bela mas não faz rodeios. Entrega-se.  






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terça-feira, 19 de abril de 2011

O passarinho





A roseira ao lado da janela do meu quarto vem recebendo uma visita ilustre nos últimos tempos. Um beija-flor passou a bater ponto diariamente, entre duas e quatro da tarde. Durante esse horário volto minha atenção à espera desse novo amigo. Não dá outra. Para bem próximo a mim, batendo freneticamente suas asas e saboreando o néctar das flores. Demora uns dois minutos e depois sai voando por aí, mas no dia seguinte estará aqui de volta.
Essa agradável visita me fez lembrar uma situação por qual passei quando menor.

Por morar em apartamento, era complicado ter algum animal maior. Meu bichinho de estimação era um passarinho, um periquito verde com pequenas manchas amarelas, que eu gostava de ouvir cantar e de ver bater as asas. De manhã, quando acordava, colocava a gaiola na janela e ficava por ali, parado, só admirando e imitando seu canto com assobios.

Passamos a misturar nossas rotinas. Sabia de cor o horário de trocar o alpiste, quando gostava de entrar na casinha e a hora que mergulhava no pote d'água e se banhava, batendo as asas e espalhando água. Sem dúvidas, minha parte favorita. 

Certo dia, trocando a vasilha de alpiste, descuidei a deixei aberta a porta da gaiola. Tempo suficiente pro passarinho sair e voar na direção das árvores, bem diante dos meus olhos, a essa altura já esbugalhados e chorosos. 

Penitenciei-me como gente grande. Não acreditava na tamanha falha que havia cometido. O maior de todos os meus pecados. Culpa demais pra um menino de seis anos. Não havia quem conseguisse me confortar. Segui a lamentar enquanto olhava a gaiola vazia. Coloquei o pote de alpiste próximo da janela na esperança de que retornasse. Nada feito. Definitivamente, meu amigo havia ido embora, e eu não poderia fazer mais nada. 

Dias depois, fui com meu pai visitar um tio. Ao me ver, perguntou porque eu andava tão triste, e lhe contei toda a história. Ele fez cara de surpreso:

- Acredita que ontem um passarinho igual ao seu pousou aqui em casa?

Recordo da minha face de espanto como se tivesse sido ontem. Meu tio me levou pra conferir se esse poderia ser o meu passarinho. Seria muita sorte e coincidência! E eu tremia mais a cada passo que dava...

Ver de longe já me bastou. Era mesmo o passarinho. O meu passarinho! Não conseguia acreditar. Havia voltado, o fujão!  E que satisfação meu tio teve ao ver! Deixou que eu o levasse com a gaiola e tudo. Com sorriso de orelha a orelha, fui acompanhando meu tio até o carro, onde meu pai já me esperava. Corri pra contar a novidade. 

O tio, ali parado, despediu-se de mim, do meu pai e do periquito que comprara poucas horas antes, já sabendo do ocorrido. Despediu-se com a certeza de que dali a pouco eu estaria com o passarinho, cantando e brincando novamente. Brincando a mais pura alegria.    






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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Da beleza irresistivelmente comum






Fazia hora andando pelo centro da cidade, entre livrarias, lojas e lanchonetes. Descansava enquanto meu horário de almoço não terminava.

Por ali passava uma moça. Impecavelmente vestida. Daquelas que, na mesma proporção, atraem olhares e destroem investidas.

Tinha toda a pinta de que entraria em alguns dos caríssimos restaurantes à sua volta. Que nada.  Aproximou-se de uma carrocinha de pipoca. Pediu um saquinho médio, doce, com leite condensado. Encostou na mureta ao lado e por ali ficou. 

Ela apenas comia pipoca durante a tarde. Não buscava espaços. Não queria holofotes. Comia pipoca, e pipoca, apenas por nome, já nos tira o mau humor. Pipoca é nome de palhaço. É batismo de cachorro mansinho. É pular de alegria. E eu a observava e sorria, como quem já se sentia íntimo.

Desfez-se  por completo da armadura que a tornava intocável. Trocou por vestido de menina.  Ofereceu infância.  Garimpou todos os diamantes da mais simples ternura. Desatou  invernos quando sorriu pro pipoqueiro. Nem notou, mas espalhou flores ao seu redor.

Adocicou a tarde. Passou leite condensado nas nuvens do céu nublado. Desconcentrou  pragmatismos naquela viela. Senti como se ela me abraçasse, e abraço é gesto singelo e simples, tão simples e tão terno, feito essa cena que eu observava.

A mulher se torna bonita através das pequenas atitudes. Durante os suaves deslindes. Preocupa-se tanto com os detalhes externos que a pipoca de início de tarde se torna seu refúgio, sua casa na árvore.

Naquela esquina ela mostrou beleza porque se mostrou comum. E não há nada mais belo que uma mulher irresistivelmente comum.

Lambeu os dedos ao final. Perdi o horário de almoço.






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sexta-feira, 18 de março de 2011

Da tua voz





Não faço cerimônia ao receber o cafuné da voz. Derreto-me como vira-lata. Enxergo melhor quando de olhos fechados e audição atenta. Entrego-me pelos ouvidos. Faço-me escravo das vozes e questiono qualquer posicionamento contrário.

Dispare-me palavras e me sentirei no céu. Ouvirei com a calmaria dos anjos e com a cólera dos demônios. Não acredito na compreensão fajuta da mera visão. Exijo mais provas, sou  o São Tomé do vocabulário. 

Ler o manual não significa tornar-se mais técnico. A regalia do que está à minha frente não me seduz. Encerro qualquer atividade pra ser só ouvidos. Passo mel nos lábios de quem me dá o deleite da voz que me aclama e me acalma. Não exijo especificações. Dou-me o livre arbítrio de repousar sobre as vozes como criança em seio materno. Aprecio o sabor de cada dobrada de língua, delineando as palavras que, como presente, me arrancam afagos. 

É através da sua voz que eu não desperto dos mais belos sonhos. Não me incomodo com desafinações, pois são da mais pura aquietação pra minh'alma. É o momento que me finjo de morto apenas pra navegar em suas palavras disparadas com cheiro forte de emoção e dor, da dor mais pura e mais verdadeira, da dor de quem gosta e não faz rodeios. 

Quero ouvir de você a canção mais bonita, cantada com todo o desprendimento e leveza de quem não tem nada a me esconder. Quero palavras sussurradas ao pé do ouvido, acompanhada dos lábios mordidos que fazem questão de escancarar a intensidade do momento. Prendo-me à sua luxuria de moleca, encosto a cabeça em seu colo e você despacha todos os pesadelos  ao atirar-me palavras, e isso me obriga a oferecer-te parte de mim. 

Cante. Berre. Sussurre. Que não haja pudores. Entregue-se pela ponta de sua língua. Desenhe no contorno dos meus ouvidos. Ouvir-te sempre foi minha oração. Leva-me à porta do céu. Esticarei meus braços.     






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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Moça sentada à frente





Não sabe quem sou. Desconhece meu nome. Não faz ideia se sequer moro neste planeta. Tampouco notou que eu estava dois bancos à direita. Parecia distraída, ou simplesmente cansada, o horário era condizente.

Sentou-se e aguardou. Apoiou a bolsa sobre os joelhos, bolsa que escondia parte do vestido claro e simples, fazendo combinação com seus olhos castanhos, quase esverdeados, que brilhavam face à lua. Brilho natural, tão contrastante ao cansaço que já lhe ameaçava domínio.  

Era simples seu jeito de moça. Arriscava cochilo quando menos constrangida aos olhares carniceiros à sua volta. Sorriu timidamente e perdeu-se no cansaço. Enfim dormiu, pobre menina, como quem suplica pelo merecido retorno ao lar. Nomeei-me guardião de seu descanso.

Adormeceu como de puro encanto. Ah, e como era bela enquanto dormia! E eu olhava pra ela na tentativa de desvendar seus segredos. Imaginava que ela voltasse pra casa em uma rua vazia, quase madrugada, sendo recebida pelos pais que a aguardavam para o beijo de boa noite, afetuosos, orgulhosos da honesta filha. Ou que morasse com um tio alcoólatra, e que sentisse medo de chegar em casa, que corresse pro quarto a chorar, moça coitada, na esperança que seus estudos não fossem em vão e que tão logo mudará a vida. Ou então que morasse e vivesse sozinha, que viesse de cidade do interior por ter recebido alguma proposta de trabalho, ou por tentar a sorte mesmo, que fosse brigada com os pais, que desde moleca buscasse independência, que de repente até tivesse pais ricos, mas vontade de crescer às custas do seu próprio suor. E eu não quis imaginá-la com homens. Vesti meu próprio luto.   

Mas a verdade é inevitável, e devia haver muitos homens em sua vida. Homens que receberiam seu sorriso a cada dia, a cada hora, e que saberiam o horário que acorda e o horário que encosta pra ver tevê. Saberiam o dia do seu aniversário, a flor que prefere, o drinque favorito, o melhor programa a dois. Existem homens que a conhecem, que na alegria gargalham juntos e na tristeza se abraçam chorando. E que de mim ela não guardará nada, nem uma lembrança, afinal sou apenas aquele que sentou à sua direita, que a vigiou enquanto dormia e quando despertou com olhar triste a retornar ao lar, naquele fim de noite, a moça.






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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fofo






Homem não gosta de ser chamado de fofo. Não tem jeito.

O fofo é visto como o amante à moda antiga. Tão antiga que tornou-se obsoleta.

É atencioso. Simpático, sempre estará disposto a agradar. Não se incomoda em aguardá-la por duas horas pra oferecer carona. Pagará o drinque. Ligará às quatro da manhã pra saber se chegou bem, mesmo tendo-a deixado na porta de casa.

O homem fofo beira a perfeição. Seu único defeito é ser fofo.

A mulher parece dinamitar o homem ao chamá-lo de fofo. Seu sorriso saliente contrasta com a face espantada e constrangida do fofo. Fofo soa como uma violência verbal aos ouvidos masculinos. Um estupro pela língua.

Admito, o fofo está  à frente dos demais. Tem tantos pontos com as mulheres que já acumulou milhas. Saberá dos atalhos. Vestirá a atenção dos olhos da mulher. Guardará segredos.

O fofo é um autêntico homoheterossexual.

Mas a verdade é que a mulher brinca ao chamar o homem de fofo. Coloco-me no lugar delas. Visto saia por uns instantes. Fofo é uma das poucas palavras que o dicionário se enrola pra traduzir, então que os homens não sejam tão cruéis a ponto de duvidar de seu verdadeiro significado.

Todo homem é fofo. Nem que seja por interesse. Pagar a conta do restaurante é ser fofo. Beijar a testa também. Ceder lugar é lavrar certidão de fofura. Ser fiel é ser irremediavelmente fofo.

E a mulher?

A mulher desnuda o homem ao chamá-lo de fofo. Desmascara desnecessárias elegâncias. Entrega o jogo e o desconcentra. Derrama intenções. Repare como nenhuma mulher chama um homem de fofo e vira a cara logo depois. Ela aguardará as nuances. Observará os traquejos. Uma voyeur sem pudores.

Seus olhos são atentos à toda reação masculina. Leem a levantada de sobrancelha. Gravam a coçada na nuca. Pintam de rosa as bochechas.

Apenas mais um de seus fatalismos.

Não à toa o dicionário define mal o fofo. É segredo feminino guardado à sete chaves, porém controversamente à disposição.






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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O amor não entende nada sobre nós





Você pega o amor e desfaz. Desmembra. Segue a bula. A forma de usar. Enlatado, plastificado, inconfundível. 

Amor não caminha ao léu. Carrega seguidores. Não dá um passo sem metamorfoses. Abstrai mentiras escancaradas. Meticuloso, sufoca reações. Amor abre passagem para o sorvete no shopping nas tardes de domingo. É  sabido. Entende que acaso vira caso em um bater de asas. E dizem que amor não é passo à frente. Enganam-se!

Se for gentil vira amor. Se verdadeiro, é amor artesanal. Cínico? Amor bruto. O romântico é amor literal. Todos tão pueris quanto folha que dança ao vento. E qual amor não é pueril? Temo por um amor que não conheça da infância. Que não recorde dos oito anos de idade. Aponto para aqueles que, inexoráveis, tornam-se descrentes de um amor eternamente infantil. Desaparecem rígidos e irredutíveis aos olhos de quem finge não enxergar. 

Mas aí você fecha os olhos e ama. E ama mais. E se atira. Diz não ter fim. E todo amor que não tem fim é pura linha do horizonte. Não entende de razões, de espelhos, de página virada e café quente. E projeta futuro enquanto o passado ainda assombra. Tudo o que mais queres é uma vida inteira de amor, enquanto leva-se uma vida inteira pra entender o que é amor.

O amor não é ninguém. Amor é qualquer um. Pro amor todos deduzem, todos debocham, todos denotam. O amor é um lascivo eufemismo. Transforma-te. Atrai e a trai.

O amor é desmascarado. É frente a frente. É tudo que colocar sobre o papel. É basicamente o que não tem nada de básico. Não dizemos nada sobre o amor. O amor não entende nada sobre nós. Esse é o medo. Essa é a alegria. Somos nós dois. Todos os lugares. Lugar algum.










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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Álbum de fotografias





Nunca fui muito fã de fotografia. Salvo exceções, costumo ceder a vez. Logo me prontifico a fotografar, a desculpa perfeita de quem não deseja incluir-se no registro. 

Talvez por fotografia ter virado algo banal.  Desceu do romantismo ao fast food, do segredo à fofoca. Foto não pertence mais ao baú de família. É o atalho do nosso exibicionismo. 

Na minha casa, fotografia era aguardada como sorteio de Mega-Sena. Registros de viagens, festas, aniversários... Meu pai as levava para a revelação, que durava, em média, três dias. Eram três dias de ansiedade e curiosidade. Quando reveladas, juntávamos a família. A mãe pedia cuidado no manuseio enquanto tratava de colocá-las no álbum. No final de semana levávamos à casa dos tios. Puro pretexto pra reunião de família. Fazia bem.

E o que dizer  sobre as fotos antigas, já beijadas pelo tempo? Aquelas fotos amareladas, recebendo a reverência do passado, o aplauso da longevidade, o lirismo de um por-do-sol que ali se desenha. Meus pais têm fotos de antes do casamento. Fotografias amareladas. Morro de inveja. O casal que tem fotografias amareladas é contemplado com um filme de sua história. A fotografia passa a falar. Torna-se um diário. Cria-se uma relação fraterna, ganha valor no mercado. É exposta como o maior e mais merecido troféu. Não terei fotos amareladas. No máximo, um pen drive com mal contato. Pena.

Essa teoria me convencia. Até surgir a tal da foto 'selfie'.

Repare que pouco importa se ao fundo está a Capela Sistina ou um varal com calcinhas penduradas. O interesse não está ali. A intenção não é mostrar aonde estão, e sim que estão. É transmissão de ternura, carta de amor gravurada. Nada mais importa senão os dois.
 
A foto é ousada. Revela as espinhas da mulher e os pêlos na orelha do homem. O flash vem como um detetive. Mas e daí? Quem enxergaria esse tipo de coisa? Quem apontaria algum defeito quando as pessoas demonstram tamanha vontade de estarem juntas?

Inclusive, a distância da máquina fotografica é meramente proposital. A intenção é deixar mais próximo. Não abraçamos e registramos tal momento junto a pessoas que não desejamos todo o bem. Quem ama preenche o mundo com a pessoa amada. A paisagem é despropósito. O foco é em segundo plano.

Não recordo de fotos assim tiradas com máquinas de antigamente. Talvez pela dificuldade do encaixe ao foco. Que bom. Certos avanços nos contemplam com a glória de um regresso.

 Tecnologias têm lá suas vantagens. Peneirar simplicidades é a maior delas.







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quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Aos seus pés






Sou admirador de um belo par de pés femininos.

Não tem jeito. Se me sentir atraído, escorregarei minha visão por todo o seu corpo até chegar quase ao chão. Sem qualquer pudor. Praticamente um peão de obra. Só disfarço após suntuosa análise.

Mas vamos com calma. Não pretendo passar a imagem de um podólatra psicótico. Minha admiração por essa parte da anatomia feminina passa longe de lambidas e chupões em meio a leite condensado e morangos. Não ganhará status de massagem erótica, tampouco sentirei prazer ao receber pisadas e esmagadas enquanto me faço de tapete. Minha admiração é em plano geral, quase na visão de um especialista. Pura estética.

É pelo pé que a mulher se revela vaidosa. Ora, quem cuidaria de um parte do corpo feita apenas pra nos sustentar? Quem pensaria em tratar da nossa parte mais naturalmente castigada? Os homens? Que as bolhas e calos parecem fazer parte do corpo desde o nascimento? Que ignoram o crescimento de unhas nos pés e passam meses sem cortá-las? Os mesmos que os apertam em chuteiras amarradas até a canela? Não mesmo. As mulheres são verdadeiras feiticeiras. Apertam seus pés em sapatos bico-fino pra depois surgirem como se sempre andassem descalças. Equilibram-se em saltos-agulha, mas a unha sempre bem feita. Seus pés são seus manuais, e os leio com toda atenção.

No shopping, passam horas escolhendo calçados. Aguardo com toda a calma. Faço meus minutos de silêncio. Reconheço a hora sagrada, a hipnose feminina perante esse santuário. Torço pra que seus olhos passem longe de botas, fechadas e compridas, impedindo qualquer visualização. Sempre torço pela sandália, o mais nu dos calçados, o vestido transparente dos pés, como marca de biquine propositalmente  à mostra.

Unhas pintadas com esmalte clarinho que ela escolheu dentre tantas outras cores. Tornozeleira de couro comprada em uma viagem inesquecível. Um anel de pé  feito praticamente sob medida. Aquela tatuagem de borboleta acima do calcanhar, seu mais novo mimo. A mulher se mostra aos homens de maneira diferente. Através da linguagem das nuances, do faro um pouco mais aguçado, da percepção apurada. Observar uma mulher por inteira é trocar intimidades pelo olhar. Elogiar uma tatuagem, um brinco ou o cheiro do perfume é mais válido que despejar mentiras esfarrapadas. A mulher se esconde de um lado pra se mostrar de outro, e desvendar seus enigmas é puro detetivismo masculino.

O verdadeiro homem sempre chegará aos pés de uma mulher. 






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