Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sábado, 25 de dezembro de 2010

As cartas que ainda aguardo





Quando criança, queria ser carteiro.

Admirava a profissão daquele simpático sujeito de calça e boné azuis, camisa amarela, que chegava montado em sua bicicleta Barraforte. Não sei por quê. E Talvez nem haja motivo. Puro despropósito de criança.

Já maior, busquei os motivos pra tal contemplação. A resposta veio de forma taxativa: carteiro é uma profissão mística. É o nosso último elo de esperança.
 
O carteiro fascina-me por sua nobre missão. Intercede-me. Tenho vontade de ser chamado por nome pelo carteiro, anunciando, feliz, minha tão esperada mensagem. Devia ser convidado a ocupar lugar à mesa. Ser membro da família. O carteiro traz nossas intimidades com discrição de eunuco. Todo carteiro deveria ser tratado tal como Mario por Pablo Neruda, em "O carteiro e o poeta", relação de mais pura amizade. Neruda contribuía à época de um romantismo inerente à profissão dos carteiros, que desgraçadamente vem apagando-se.  


Talvez eu sinta saudade de épocas que não vivenciei. Olho pra trás com o saudosismo de quem apela por regresso. 

Quando verifico minha caixa de correio, espero algo além das contas de banco e boletos de pagamento, de propaganda de supermercado e anúncio de Tevê à cabo. Aguardo a solidez de uma mensagem de afeto vinda de milhares de quilômetros, explicitando  as letras tortas de quem tremia ao escrever, tamanha saudade. Aguardo o desabafo de quem abnega-se do teclado e, de próprio punho, redige cartas de amor. Perfumadas, inclusive. Ou de ódio, que seja. Porque ódio é o feriado do amor. Uma hora acaba. 

Não desejo que minhas lembranças sejam apagadas toda vez que eu trocar de celular. Não me surpreendo com a artificialidade de mensagens eletronicamente enfeitadas. Prefiro a verdade de quem se entrega em cada palavra. Descosturo qualquer invenção moderna pra não atar-me às velharias dos dias atuais. Enxergo a importância e a necessidade de reviver, diariamente, tudo que foi deixado pra trás.
.
Ainda acredito em carteiros. 






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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Amor utópico





Às vezes necessitamos do fim para enxergarmos os meios. Precisamos da explosão pra percebermos faíscas. Chegamos ao fim da linha e desejamos retornar à largada. Sentimos vontade de reatarmos com nós mesmos e vivermos tudo aquilo que nunca houve, mas estava lá, à disposição, bastava esticar os braços. Mas passou em branco. Conformismo é utopia de segurança.

Abandonava reações. Desfazia inícios temendo a insensatez oriunda de quem não enxergava certezas, como se no amor, a certeza figurasse por algum momento. O amor é a plenitude da inconstância. Esfacela tudo aquilo que delineamos em cálculos. Nos dá o tempo de percebermos sua chegada e tomarmos iniciativa. O amor não cede lugar a conformismos. Não dá caução. Chega, mas quer recompensa; quer reação.

Reagi por metade e me contentei. Imaginei ter cumprido meu papel, como se conquistas surgissem do pouco esforço. E o amor é a essência das conquistas. É merecer sorrisos, dançar olhos nos olhos, desvendar carícias. É liquidificar as reações que não são percebidas, porém inconfundíveis quando a enxergamos sem o auxílio dos olhos. É pura evolução.

A verdade é que fantasiar realidades sempre foi a saída mais fácil. A certeza se torna distante. Criamos um mundo e bebemos da impressão de termos absoluto controle sobre ele. Ora, tudo isso não passa de ilusão. Não é fácil admitir, mas experimentei do amor utópico quando um suspiro me faria transcender.

Vivi uma eterna reconciliação. Fui ex de mim mesmo. Meu amor era sonâmbulo, vagava em busca de respostas enquanto eu encenava descanso. Discutia a relação quando não havia par. Reconciliei-me todas as vezes que o comodismo me beijou com ar de menina faceira. Deixei levar.

É estranho pensar que não resta mais tempo. Tempo, logo esse, meu eterno aliado. Esperei até os últimos instantes pra correr atrás de evidentes respostas que sempre estiveram à minha frente, cristalizadas. Vou com o remorso de quem preferiu não romper a barreira das incertezas, e incerteza é atenuante pra indiferença. Não permite que caiba mais um.

Chego ao último dia relembrando o primeiro. Sinto o peso dos meus excessos. 












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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Rir da vida





Rir da vida é enganação. 

Foi quando tomei coragem e encurralei minha vida. Queria ouvir certas verdades. 

Contestei algumas escolhas feitas ao longo dos anos. Em vão. Nossas escolhas não são erradas. A falha surge na consequência. Qualquer cálculo que fizermos acerca da vida, por mais insano que pareça, não significa tender ao erro. A nossa vida inteira é feita de cálculos. Cabe à vida dar  o caminho que melhor nos encaixarmos. Pro certo ou pro errado.
 
Passei a experimentar a placidez da vida. Obriguei-me a evoluir aos meus tempos de criança, pois a verdadeira malícia é aquela em que preservamos nossa ingenuidade. É o nosso grande trunfo. É  aproximação com o sexto sentido. Só enxergamos sem vícios quando nos tornamos ingênuos. 

Já me preocupei com futilidades e fiz pouco caso de importâncias. Afoguei certas verdades. Esforcei-me pra resgatar meias-mentiras. E me sustentavam. Era fantoches dos meus julgamentos. Olhei ao longe e procurei o que ainda era embaçado, incerto, dúbio, e tratei com desleixo as evidências, o que era escancarado, a centímetros de mim. Abri mão, mas não abri o coração. 

Sou meu próprio aniquilador. Atravesso meu corpo. Perfuro minhas saudades. Dinamito verdades incontestáveis. Sustento-me com pouco. Passo fome. Sou Somaliano da minha própria vida. Peço esmolas a mim mesmo. Faço-me de bobo. Finjo de morto. Dou ao luxo de não sentir meu cheiro e retrucar com o paladar de ontem. O gosto em desuso. 

Vida não pode ser filme. Não deve ter roteiro, script, nem final feliz.

 Encarei o paradoxo de receber ordens em minha própria vida. Raramente reclamava. Dava-me por satisfeito e decorava as falas. Havendo recompensa, a história pouco me importava. Necessitei dar um basta.

Foi naquele dia. O dia que encurralei a vida e exigi verdades. O dia que esbravejei e ordenei mudanças. Disse que da minha vida eu comando, e requeri plenos poderes. Certo de mim, me impus. Despejei bravatas em minha direção como quem sente culpa. E sentir culpa é dever favor. Descobri estar em débito comigo mesmo, e quem deve, paga. Nem que seja com a consciência.

Rir da vida não é remédio. É  medo






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