quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O vento e o mar e aquela menina





Estava do alto do terceiro Andar. Da visão contrastante daquele barco que repousava sobre o mar nervoso, ganhando cafuné em sua proa, em um início de trânsito rotineiro dessa hora. Os aviões pareciam beijar o mar, os carros formam um abraço coletivo, lá pelo fim de tarde.

No balanço das poucas árvores, no andar louco e apressado dos que passam, no barulho das buzinas, sirenes, dos berros, do motor acelerado, do caos, ela caminhava. Caminhava como se não existisse revolta, como se tudo fosse dela, no meio daquele trânsito, no meio daquela selva. Caminhava e paralisava quem seguia seu oposto, seguia na direção contrária do vento, cabelos maliciosamente desprendidos e um sorriso largo no rosto. Era menina que tinha encantos, e só tinha encantos porque não sabia que tinha, aquela menina. 

Caminhou rente ao mar como se dele fosse. Sorria apenas para ela, aquele mar egoísta, que judiava das pedras com a sua força de ressaca. Aquele mar interesseiro, que era todo cortesia da beleza daquela menina, convidou-a para respousar ao seu lado e vinha com marolas beijar-lhe os pés, e ela caminhava cortejada pelo mar e pelo vento. Caminhava sem destino, desfazendo os desatinos daquela tarde de rotina. 

Ela caminhava como quem não tem compromisso, horário, preocupações. Era alheia ao seu redor. Caminhava adorada pelo mar e pelo vento, não fazia questão de elogio, e a mulher só recebe elogios quando não faz questão. Era o cortejo da alma, a declaração de amor da natureza, que competia entre o vento e o mar, quem ganharia sua beleza. E eu, na minha medíocre posição do mortal, do admirador que só pode admirar calado, estagnado com o imenso cortejo dos deuses, da batalha travada entre Poseidon e Éolo, diante dos olhares de quem passava,  tão escravos quanto eu. 

Foi o dia que aquela menina passou. Foi o dia que eu a vi, do alto do terceiro andar, entre o barco que repousava plácido e o caos das cinco da tarde. Foi de lá que eu vi a menina, que camuflou e conflitou a rotina, que fez magia, que esnobou o vento e o mar, que não viu ter desmanchado o enfado, que não sabia do poder que tinha, aquela menina, aquela menina.       








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