Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Verdades sobre o sábado à noite





Sábado à noite em casa é a segunda-feira do bom-humor. É o castigo dos que não tem culpa. 

Não aproveito pra estudar. Não adianto trabalho. Não me permito ao formalismo  nessas poucas horas exclusivas ao lazer. O sábado à noite é o filé mignon dos solteiros. É a menina-dos-olhos dos desimpedidos. Solteiro que não desfruta de um sábado à noite é um aposentado precoce.

Mas de vez em quando tenho vontade de me aposentar. Trocar a calça jeans pela samba-canção. A cerveja pelo controle remoto ou pela caneta. O churrasco pela pizza quatro-queijos. Há quem diga que já fui melhor, e não pretendo lhes tirar a razão.

A verdade é que o sábado à noite é um grande teatro a céu aberto. É o Coliseu dos destemidos. São rostos maquiados, quase camuflados, justamente nesta intenção: se esconder. Aproveitamos o cair da noite pra nos escondermos de nós mesmos. Pra encenarmos. Pra distribuirmos sorrisos ao léu, e isso é pecado dos graves. Sorrir deveria ser um ato de intimidade. Sorrio para tantas pessoas numa noite que a impressão é a de ligar o piloto automático bucal. A noite é a arte de desaprender a sorrir de jeito sincero. 

No sábado à noite as pessoas se gostam. Gostam até demais. Em excesso. Viram contadoras de histórias. Cúmplices de suas próprias mentiras. E a mentira é o mais forte dos drinques. É o absinto da     nossa integridade moral. Nos puxa pela perna e nos carrega sem cansar. Perdemos o limite e viramos piada. Culpamos a bebida e não lembramos de nada no dia seguinte. Aliás, amnésia alcoólica só pode ser coisa de Deus, que do alto de sua piedade, resolve nos poupar de boa parte da lembrança de quando enfiamos até o braço, não satisfeitos quando com os dois pés já metidos na jaca.

O sábado à noite é uma puta. E puta de luxo. Das mais caras. É o diabo travestido de lingerie vermelha. É masoquista, apanha pra nos prender. E consegue. Com maestria. Nos torna sarcásticos com nós mesmos.

 A noite é uma grande mentira. O único problema é que ainda não encontrei a verdade.

Falar mal do que amamos é uma arte. 






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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os encantos da mulher mineira






Casamento, pra mim, nesse momento, é algo tão distante quanto ganhar na Mega-Sena. E por duas vezes. De certeza, apenas uma: casarei com uma mineira.

Deus exagerou ao criar as mineiras à sua imagem e semelhança. Dobrou a dose. Ainda tenho lá as minhas dúvidas se são realmente humanas ou se são anjos, com intuito de nos levar pra junto delas, lá no céu. Não à toa Deus as encravou em Minas Gerais, cercadas por montanhas pra dificultar o acesso de qualquer um. Mas nesse caso sou capaz de me tornar o mais audacioso alpinista.

A mineira extravasa simpatia. Só podem ter estudado em colégios diferentes dos que conheço. Não aprenderam a ser mal educadas. Desconhecem do mau humor. A mineira sempre me recebe com um sorriso, e o sorriso de uma mineira é o arco-íris do meu domingo, o calabouço das minhas tristezas. Elas sorriem com os olhos ao mesmo momento em que ajeitam os cabelos e deixam transparecer um jeitinho tão tímido que contrasta com todo aquele amor despejado já nos primeiros momentos. Como se ainda não fosse suficiente, nos perguntam da maneira mais doce do mundo: "Cê tá joia?".

E a maneira como elas falam? A mineira não fala. Ela canta. Canções de amor, baixinho, no pé do ouvido. A mineira quando fala, me pega no colo. E eu faço corpo mole, deixo levar. Sou capaz de ser o mais compreensivo e atento ouvinte de uma mineira, só pra admirar o jeito charmoso como diminuem as palavras.

A mineira nasceu pra ser cortejada, pois nos despejam todo amor sem mesmo saberem. Elas são altruístas. Nos dão carinho tão despretensiosamente quanto criança que planta pé-de-feijão em algodão. Nos oferecem extremado afeto de maneira tão simples como ajeitam uma flor nos cabelos. Toda mineira deve possuir algum toque divino que nós, humildes terráqueos, desconhecemos.  Porque todo o simples e irreparável é gritante e inexplicavelmente charmoso quando nelas. São donas de ternuras delicadas e inerentes à sua beleza, aquela beleza sabida de que a natureza foi a sua melhor amiga.

Há quem diga que sejam ciumentas. Eu quero. Quero a mineira mais ciumenta desse mundo. Porque ciúme é amor demais. Só tem ciúme quem quer guardar, quem deseja levar pro resto da vida. Quero a mais ciumenta até meus últimos dias.

As mineiras são donas de si. São decididas. Não escondem amor e amam com autonomia. Amam sem pressa porque desejam intensidade. Amam através do olhar. Amam com todo o tempero mineiro. Amam como se fosse uma espécie de feitiço. Amam carregadas de ternura.

O sorriso de uma mineira já é motivo de alegria. Meu mundo perderia um pouco da graça se a visse chorar. E diante das inúmeras tentativas de encontrar uma palavra que a definisse, rendo-me: a mulher mineira nunca será definida por adjetivos; estes serão sempre redundantes.

Quero me sentir mais próximo de Deus e receber amor em exagero. Quero uma mineira pra toda a minha vida.  






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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O vento e o mar e aquela menina





Estava do alto do terceiro Andar. Da visão contrastante daquele barco que repousava sobre o mar nervoso, ganhando cafuné em sua proa, em um início de trânsito rotineiro dessa hora. Os aviões pareciam beijar o mar, os carros formam um abraço coletivo, lá pelo fim de tarde.

No balanço das poucas árvores, no andar louco e apressado dos que passam, no barulho das buzinas, sirenes, dos berros, do motor acelerado, do caos, ela caminhava. Caminhava como se não existisse revolta, como se tudo fosse dela, no meio daquele trânsito, no meio daquela selva. Caminhava e paralisava quem seguia seu oposto, seguia na direção contrária do vento, cabelos maliciosamente desprendidos e um sorriso largo no rosto. Era menina que tinha encantos, e só tinha encantos porque não sabia que tinha, aquela menina. 

Caminhou rente ao mar como se dele fosse. Sorria apenas para ela, aquele mar egoísta, que judiava das pedras com a sua força de ressaca. Aquele mar interesseiro, que era todo cortesia da beleza daquela menina, convidou-a para respousar ao seu lado e vinha com marolas beijar-lhe os pés, e ela caminhava cortejada pelo mar e pelo vento. Caminhava sem destino, desfazendo os desatinos daquela tarde de rotina. 

Ela caminhava como quem não tem compromisso, horário, preocupações. Era alheia ao seu redor. Caminhava adorada pelo mar e pelo vento, não fazia questão de elogio, e a mulher só recebe elogios quando não faz questão. Era o cortejo da alma, a declaração de amor da natureza, que competia entre o vento e o mar, quem ganharia sua beleza. E eu, na minha medíocre posição do mortal, do admirador que só pode admirar calado, estagnado com o imenso cortejo dos deuses, da batalha travada entre Poseidon e Éolo, diante dos olhares de quem passava,  tão escravos quanto eu. 

Foi o dia que aquela menina passou. Foi o dia que eu a vi, do alto do terceiro andar, entre o barco que repousava plácido e o caos das cinco da tarde. Foi de lá que eu vi a menina, que camuflou e conflitou a rotina, que fez magia, que esnobou o vento e o mar, que não viu ter desmanchado o enfado, que não sabia do poder que tinha, aquela menina, aquela menina.       








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