Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Camisas velhas, amores novos





Já fui mais organizado em relação ao meu guarda-roupa.

Gostava de seguir certos padrões. Nas gavetas, vinham as camisas um pouco menos prestigiadas, mas não menos organizadas. Seguiam a ordem da antiguidade. Nos cabides junto aos casacos e ternos, mantinha as camisas que gostava de usar em festas e eventos. Eu chamava de 'primeira classe'. Tinha absoluto controle das posições, enfileirava pelo cabide segundo a ordem das cores.  Da mais escura a mais clara, da direita para a esquerda.  Lá eu mantinha as minhas camisas da sorte. Quando as vestia  me  sentia outro,  mais confiante, mais seguro, mais detentor de mim.

A maioria dos homens possuem a sua camisa da sorte. Aquela que é separada com uma semana de antecedência, logo após desligar o telefone e marcar um encontro com aquela mulher desejada há tempos. Eu tinha o meu rol. Não gostava que as mudassem de lugar, inclusive eu mesmo as passava. Descobri que passar roupa é uma das melhores terapias existentes, e o melhor: gratuito. O homem que passa suas roupas estará sempre um passo a frente dos demais. Mas eu não me interessava muito nisso. Era mais pra uma espécie de concentração antes da partida, onde restavam apenas a camisa e eu,  a massageava com o ferro, como quem dizia: 'Vai lá e mostra o que você sabe fazer!' Sempre houve uma cumplicidade entre mim e as camisas. 

Sim, eu sei, TOC era pouco, muito pouco pra definir essa época, e se me chamarem de excêntrico, considerarei o mais belo dos eufemismos.  

Mas foram surgindo responsabilidades. Trabalhos, estudos, pouco tempo em casa e, consequentemente, pouco tempo para as minhas organizações. Tudo bem que essa é a desculpa preferida dos bagunceiros, mas acho que não chego a esse nível. Muitas camisas foram abandonadas, largadas, algumas sumiram. Porque certas roupas desaparecem mesmo. Mágoas de quem se sente abandonado.

No amor também é assim. Talvez sem explicação, sem que percebamos, desatamos nossos laços afetivos, e o transformamos em nós. Nós cegos. Nós dois cegos. Um não enxerga mais o outro, mas os dois se aturam. A atenção passa a não ser mais a mesma, as ligações reduzem apenas às cobranças. O encontro passa a ser como uma ida ao dentista. A paixão passa a ser obrigação. O amor perde a cor. Desbota, largamos à poeira e às traças, para sucumbir na inevitável consequência: a substituição. Às escuras, às escondidas, por nos faltar coragem pra dizermos o que é mais evidente: vai.

Não cultivo um amor amarrotado, descosturado, rasgado. Um desleixo despercebido e natural no amor pode significar que foi aproveitado até as últimas consequências. Tudo daquele amor foi desfrutado, e por vezes se rompe, rasga, nos avisando que chegou ao fim. Não é motivo de lamento, e sim de entregar-se às oportunidades futuras.

Essa semana, minha mãe, depois de uma faxina, me mostrou três de minhas antigas camisas, e falou:

-Brunno, olha, essas camisas estão furadas. Quer que eu dê um ponto?

Ela queria dar um ponto. Se desse três pontos, seriam reticências, e reticências significa continuação. Mas não. Foi enfática. Apenas um ponto. Não deu brecha.

-Pode ser, mãe. 

Tirei aquele dia pra dar um ponto em outras mais, inclusive nas não apenas furadas.   












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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Certos amores têm pressa





Sempre considerei a paciência como uma de minhas virtudes. Prefiro ouvir a falar.

O mundo pode desmoronar ao meu lado, mal pisco os olhos. Faço questão de não lembrar da pressa. Deixo meu lado sereno me guiar sem rumo.

Só explodo por dentro. Preferi a cólera do sorriso, o dissabor camuflado em mais uma chance. Não me importo em perder tempo com o que durará o resto da vida. Gosto do sabor de colocar cada tijolo em meu castelo, conduzir minhas ideias antes de transformá-las em realidade. Fujo do convencional, padeço da falta de pragmatismo, não bato palmas pra quem chega primeiro. Aprecio o prazer da solidão, a revelação da penumbra, conversa amistosa em meu ego. E faz eco. Por todos os cantos de mim.

Enobreço-me em estado plácido, cultivo o valor do olho no olho, não me importo se o retorno só for mais tarde. Elogio e não espero ação. Costuro à mão meus retalhos, paro o tempo quando sinto o cheiro. Exemplifico com risadas e ratifico com súbito silêncio. Falo com os olhos, ouço pela boca, beijo com o nariz. Sou o suprassumo do caminho mais detalhado, convido e não olho no relógio, não digo 'não'.

Não faço crise por pouco afago. Acometo-me das maiores loucuras em estado sóbrio. Sei dizer que é o momento, reconheço face de quem diz não. Sou enganado por palavras, mas nunca por gestos. Aprendi a ler o rosto e descobrir a conversa expressada. Fiz marola quando poderia ser maré. Fui lagoa quando restava oceano. Fui casto quando caberia a impureza de uma flecha com mira certa, mas afiada em excesso.

Nunca confundi desatinos. Não perdi a batalha para o cansaço. Jamais andei na corda bamba da desatenção. Não disse que era amor porque amor não se diz que é. Não rejeitei paixão porque paixão não conhece de descaso. Plácido, projetei e apontei amanhã, disse sim pra quem olhou nos meus olhos. Em vão. Paciência e insensatez jamais se encontrarão.

Havia esquecido que certos amores têm pressa. 






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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Todo amor tem seu tempo





Suponho os desencontros serem um jogo de azar. Uma fatal desconfiança do acaso.

Todo encontro que se preze, pede licença ao tempo. É uma tentativa de juntar o que não se vê com o que não se ouve. É a delicadeza de nos colocar tão perto e tão longe, no mesmo patamar.

Mas o desencontro pode ser mútuo. E a menos de um palmo de distância. Frente a frente.

Um desencontro combinado pode ferir mais que o esquecimento. Pode refletir em assombro, fingir não haver respostas quando as proporções já se tornaram incontroláveis. É querer que a vida seja babá, tome as rédeas da situação e aja pelos dois. Não dá. É apenas vida, e até faz milagre, mas não caridade.

Não conheço um sujeito que mergulhe descabidamente em um amor que tema perder. Vai usar de todos os artifícios possíveis: medir profundidade, temperatura e entender da maré. Apesar de calculista, tem toda a pressa do mundo. Arrisca sem medo a sedentária dúvida que insiste em morar em nós. Troca toda a certeza plácida e ociosa de um amor morno, por uma fagulha de amor inconsequente e encarado sem medo.

Ninguém morre de amor. No máximo, finge de morto. Em vão. Amor não se atrai por pena. Não é precoce. É faceiro e debochado, não se entrega de bandeja. Ambos precisam da iniciativa. Porque quem inicia corre o melhor de todos os riscos: o risco de nunca enxergar fim.

Mas não se trata de vergonha de ter medo ou medo de nunca se alcançar. É o desejo de continuar procurando quando um já encontrou o outro. É o esconderijo revelado, a frase decorada, o sorriso espontâneo, os olhos de leite, uma mão que esbarra na outra por "acidente"; são as risadas, os jardins, os resquícios, as migalhas, as nuvens, o "foi quase", a tatuagem e o café. Um amontoado de pequenos sinais que nos indicam já estarmos absolutamente compreendidos. 


Temos medo de amar menos se estivermos juntos.

Dotados de coragem aqueles que se atiram em suas guerras amorosas. Mas não menos felizes os espectadores do seu próprio amor. Sei o que sentem quando não dizem nada, ou quando se olham e conversam pela íris. Papo de horas resumido num piscar de olhos. Apenas aguardam o inevitável, e o que pra alguns é considerado desleixo e preguiça, reflete-se em amor vivido em toda sua intensidade, e apenas aos olhos de quem realmente interessa.

Todo amor tem seu tempo e todo tempo reverte-se em amor.

Amanhã ou quando for.








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