Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Bolsa de mulher







A bolsa de uma mulher é uma das maiores interrogações da humanidade.

Parece que nela elas carregam todos os seus segredos. Dos mais simples aos mais arrebatadores. Não à toa elas a mantém distante dos homens, algumas até com chave e código.

Vamos pelos mais "básicos": Espelho (sempre um espelho), batom, kit maquiagem, cosméticos... e eu achando que carregar RG e CPF já seria passar da conta. Mas pra elas, não. Nada é exagero quando se trata de vaidade, mas aquela vaidade de pura alma, aquele golpe que elas costumam dar com um simples retoque.

Algumas carregam suas agendas, seus diários, seus celulares. Levam um pouco de sua intimidade, e a bolsa passa a ser um oráculo de bico calado. Carregam consigo a foto de seus amores, sejam namorados, filhos, pais, cachorro... porque na primeira esquina a mulher já sente falta, e não deixa passar em branco como os homens, machos e viris, mas tão carentes quanto. Nenhuma mulher deixa seu baú de emoções em casa.

Tenho vontade de suborná-las para um mero espio, um olhar pela fechadura, coisinha boba, mas ainda não descobri tão valiosa moeda de troca. Quero ser o primeiro homem a ter acesso a esse universo criado apenas para elas. Quero descobrir os segredos e me tornar mais super-homem que o Clark Kent. Quero ser imune a criptonitas e a mensagens não respondidas. Mergulhar nesse pitoresco objeto e me afogar por todos os seus caminhos.

Mas se não tiver jeito, que eu parta para o crime. Terei aval. Por boa causa.

Quero ser ladrão de suas bolsas. Quero furtar e ver se encontro tudo aquilo que ainda não reparei se ali carregam. Quero achar todas as suas manias. Quero ver um abraço apertado, escondido debaixo daquele par de brincos, lá no fundo. Quero catucar até encontrar o segredo de todo o seu indecifrável e escancarado charme nos gestos mais triviais. Quero fazer uma bagunça, revirar até achar todo aquele olhar de lua cheia que banha minhas noites de sono e de sonhos. Quero ser capaz de localizar todos os atalhos do seu mais belo sorriso. Achar o caminho mais curto para aquele beijo com a complacência e a emoção de quem aguardava há tempos. Quero achar a chave e ouvi-la dizer que uma vida inteira ainda é muito pouco pra nós dois.

Porque não me interessa metade quando posso ser pleno.

Quero ser abusado, vasculhar de ponta a ponta e descobrir todos os atalhos. Quero ser o Sherlock Holmes de suas confidências. Encolher e adentrar como um suspiro em suas intimidades, para assim descobrir que dentro da bolsa de uma mulher não há desejo de se esconder, e sim vontade de se entregar. 







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sábado, 25 de setembro de 2010

Quero ser dono de uma paixão bêbada




Fujo de paixões sóbrias. Aquelas que não experimentam insanidades.

Fico bobo em ver a placidez em alguns relacionamentos. Uma paixão feijão-com-arroz, onde um a zero já fica de bom tamanho. Nem frio nem quente, simplesmente estável. Toda paixão nos leva pro céu, mas deveríamos sempre manter um pé no inferno. Sob a bênção de Deus, mas do jeito que o diabo gosta.

Não me simpatizo com paixõezinhas clichês, que não veem sangue na alma. Toda paixão "boa demais pra ser verdade" tem uma nascente obscura. Nenhuma relação está acima do bem e do mal, nenhuma paixão se firma sem alardes, sem incêndios, sem metamorfoses. Toda estabilidade sucumbe em desconfiança.
Suplico pra nunca experimentar uma paixão sem drama.

Discussão pra terminar em suor. Ciúme pra combater a indiferença. Voz alta pra ninguém se fazer de surdo. São as mais necessárias oscilações. É o termômetro da paixão. É essa instabilidade que não nos permite mantermo-nos inertes enquanto o amor passa bem na nossa frente, lascivo, nos chamando pra vivermos toda sua intensidade, e não apenas parte. Atingir a plenitude do amor é fazer dos altos e baixos o ponto forte da relação. É fazer barulho onde se pede silêncio. E rir. Debochar.

Amar é se entregar muito mais do que exigir. É cuidar mais do que bancar o melhor dos planos de saúde. É sentir saudade só porque ela vai na esquina. É colocar-se em risco e arriscar todas as fichas. É amar demais e querer volta. É roer as unhas e se descabelar. É abraçar o excesso e não soltar nunca mais. Porque quem ama faz pouco de cem por cento.

Quero ser dono de uma paixão bêbada. Quero provar o sabor das loucuras sem receio de camisa-de-força e pré julgamentos. Quero tomar um porre de um amor insano e integral e acordar só no dia seguinte, nocauteado pela ressaca, mas como todo bom bebum, querer mais. Sempre. 







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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Crônica do ex-namorado








 Esbarrar com ex é conflitar si próprio.

Ex tem a chave do nosso baú de segredos. É o carteiro das nossas lembranças.

Dizem que felizes são os que não possuem ex. Os mais maldosos falam que qualquer outra qualidade jamais chegará perto dessa. Hoje, o predicado mais enaltecedor é dizer que não tem ex. Os 'sem-ex' estão em alta no mercado, face sua quase extinção. São a certeza de que o constrangimento passará longe.

O ex é a cobaia do amor. É o seu plano de vida adiado, mas também é a sua lembrança tomando forma, pois querendo ou não, ainda sente seu cheiro. É esbarrar com ele na noitada e desejar se afogar naquele copo de caipirinha. É abrir o sorriso mais amarelo e perguntar: 'Tudo bom?' Óbvio que está bom, não poderia estar melhor. Vê-se na obrigação de apresentá-lo para o atual namorado e nota seu sorrisinho saliente, como quem diz: 'Também conheço a tatuagem de borboleta que ela tem na virilha, garotão...'

Ex é um homicida sem culpa no cartório.

Reencontrar com ex é encenar. Quando terminaram, você estava no segundo ano de psicologia, batendo de consultório em consultório atrás de estágio. O cara pergunta se você já se formou, e a resposta não poderia ser outra se não um efusivo 'claro!', inclusive com clínica montada. Ora, o que você iria dizer? A verdade? Que abandonou a faculdade no ano passado e que da vida só sabe dizer que pede pizza por telefone aos domingos? Vai encher a bola dele e dizer que ainda é o dono das suas idealizações para um utópico futuro? O cara perdeu foi um partidão, e sua vida está muito melhor sem ele, nem que apenas por aquela noite. A massagem no ego também pode ser um amontoado de mal-entendidos.

Tem aqueles que fingem não se olharem, e esse é um caso à parte. Ou restou ódio demais ou amor demais. Ou você quer voar no pescoço dele ou você também quer voar no pescoço dele. Fingem que não se viram, mas trocam trezentos e oitenta e quatro olhares de rabo-de-olho durante a noite. Em um instante o ódio pega atalho e vira amor. Se com a ajuda de alguns mojitos, não precisa mais do que um piscar de olhos. Dois extremos têm o mesmo fim como objetivo. É carta manjada e questão de tempo.

Tem ex que perde a tensão e fica o tesão. Vai o coração, mas fica a carne. Explodem sem qualquer responsabilidade um com o outro. Esses são espertos.

Rever o ex é dar o ultimato, nem que o reveja trinta vezes. É amarrar os próprios cadarços um ao outro. É montar uma armadilha contra si próprio e cair quantas vezes for necessário.

Ex é abreviatura de exemplo. É citar na prática o que se aprende em teoria. É trazer à vida o que antes era decoreba e perceber os erros pra não mais cometê-los com o próximo. Ou com ele mesmo.

Porque amar não é afronta. Exemplo e realidade não conhecem diferenças. 






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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Urso de pelúcia.








Sempre tive certo apego às coisas ligadas à minha infância. Talvez por serem atalhos ou detalhes que minha mente não mais traria à tona, ou por derivarem de alguma ocasião especial. Ainda guardo comigo alguns penduricalhos de festinhas de quinze anos e trabalhos da minha época de escola, mas minha maior relíquia veio de longe, lá do outro lado do Altântico.

Portugal, final da década de oitenta. Eu, do alto dos meus três anos de idade, dando um rolé pela terrinha. Minha memória de nada me ofertou para relatar aqui, mas nada muito diferente de um passeio pela Torre de Belém ou pelos castelos de Sintra. Mas foi por lá que encontrei a maior de todas as minhas recordações, que foi amor à primeira vista. Abracei um urso de pelúcia praticamente do meu tamanho e só fui soltar ao chegar ao Brasil.

Eu era daquelas crianças que não tinha qualquer cuidado com brinquedos, praticamente um serial killer dos bonequinhos. Mas com o urso era diferente. Guardo até hoje uma foto da copa do mundo, ele e eu vestidos com a camisa da seleção. Tecnologias, video-games, bonecos, carrinhos, tudo possuía prazo de validade, menos meu urso. E nem precisava.

Mas a vida me deu rumo. Doei boa parte dos meus brinquedos, mas o urso continuava comigo, não mais tão bonito e vistoso como em tempos atrás. Um trapo pra quem olhasse de fora, mas pra mim era a chama da minha infância cultivada da maneira mais preciosa. Um apego um tanto desproposital, mas repleto de afeto. Tinha a impressão que aqueles seus olhos de botão já gastos pelo tempo conseguiam ler minha mente. Gostava de deixá-lo em cima da minha cama, me vigiando. Havia propósito.

Meu urso comprava a minha saudade.

"Matar saudade" é a frase mais descabida que conheço. Saudade é imortal. Quando pensa ter batido as botas, volta com mais intensidade. Nem tento mais matar as minhas saudades. Eu as reciclo, as transformo de passado pra presente. São porta-retratos que saltam à minha mente.

Talvez por nostalgia, talvez por carência, precisamos manter eterno contato com nossas saudades. Precisamos de um elo com nossa infância, para pegarmos carona num abraço apertado naquele seu melhor amigo de pelúcia. A infância nos torna mais humanos. Nos faz enxergar a vida através do paradoxo que é a ingenuidade de uma criança com coração purificado, preparando-se para ser triturado pelo nosso mundo subdesenvolvido. A ingenuidade nos deixa mais próximos de Deus, por isso é coisa de criança. Desaprendi a ser eternamente ingênuo.

Faz um tempo que não vejo meu urso. Deve estar empoeirado, dentro de um caixote qualquer em algum canto da casa, esquecido, aguardando o momento de voltar a enfeitar meu quarto e me fazer criança de novo. 






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domingo, 12 de setembro de 2010

O amor não tem idade





Costumam dizer por aí que o amor não tem idade. Concordo em gênero, número e grau, mas aproveito pra fazer certas ponderações: o amor tem a idade da nossa maturidade, o que passa longe de acompanhar nosso desenvolvimento cronológico, nunca sendo idêntica para duas pessoas.

Gosto de observar um casal de velhinhos. Parece que cada ruga equivale a uma história, uma aventura, alguns daqueles momentos de insanidade que cercam nossos primeiros anos de convivência. Aquele amor à flor da pele, onde a memória torna-se um verdadeiro oráculo de relatos bonitos. Uma saudade gostosa, que em momento algum se confunde com o lamento ou tristeza de um vigor não mais tão intenso, mas que o tempo passou a dividi-lo e compensá-lo com a placidez e a sabedoria de quem sabe amar de todas as maneiras e à toda prova. De quem, lá na frente, não se permitiu abaixar a cabeça com o primeiro tropeço. Nesse caso, a idade teria alguma relevância?

Gosto daqueles romances que começam em aventura, se fazendo valer de que o amor está acima de tudo, e que o mundo foi feito apenas para testemunhá-los. Gosto daqueles desfiles em tapetes vermelhos às quatro da tarde no parque, praia, onde quer que seja, sem medo de ser desvendado, pelo contrário, fazendo questão de se exibir aos quatros ventos. Mas surpreendo-me com os olhares de quem levanta julgamentos, de quem olha com olhos tortos, ainda criando pilares para um tipo de pensamento defasado e incabível, dizendo esta não ser a idade do amor, ou tratar-se de um amor fantasioso ou com base em algum interesse, como se desse amor quem soubesse não fosse apenas os dois.

Gosto de quem se permite gostar, de quem não deu meia-volta, de quem seguiu em frente e falou que é amor e ponto. Acho que a escola nos ensinou errado, porque, a meu ver, “amar” é verbo de ligação, de união, de relação, não necessita complemento, basta-se por si só e não gosta de dar explicação. Não segue nosso calendário cristão. Te presenteará no dia do seu aniversário, bem como a cada manhã que passar ao seu lado. Vai te mostrar que chegou e ficou. Não vai embora.

Amar é não ter que provar nada pra ninguém. Não existe registro, data de nascimento, não coloca sua idade na frente daquela troca de olhares que dará início a uma mudança na sua vida. Não pergunta sua idade quando trata de colocá-los juntos na poltrona do avião ou no banco do ônibus. Não consulta o calendário ao juntar os dois na mesma roda de amigos ou no mesmo happy hour. Não coloca um emaranhado de alguns anos na frente do acaso, pois segue a escala da relevância.

Desprender-se de detalhes. Amar e não pedir RG. Triunfar, porque a idade da maturidade sempre chega, e aí não se pensa duas vezes.

Não carrego documentos. Reviste-me apenas pelo lado de dentro.




 
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sábado, 4 de setembro de 2010

Quando a mulher se apaixona








Dia desses parei pra observar uma mulher apaixonada. Posso afirmar: perdi a noção do tempo.

Ela muda da água pro vinho. Transforma todo o ambiente ao seu redor e tudo nela ganha intensidade. Sorriso, olhos, alma...  algumas tentam esconder - sem muito sucesso. Chega a ser engraçado. Elas falam com um jeito diferente e nos olham de uma forma como se lessem nossos pensamentos. E não duvido que, de fato, consigam.

A mulher apaixonada possui uma dose exagerada de encantos. Não espera pelos nossos sorrisos, se antecipa e os buscam de uma vez, fazendo questão de transformar nossas vidas em um pedaço do céu. Quer um exemplo? Marcou com ela às sete da noite. Oito horas, nada. Já bateu papo com o porteiro, deu seis voltas no quarteirão, resmungou todos os palavrões possíveis. Nada ainda. Mas quando ela surge, uma rainha, a mais bonita de todas as bonitas desse mundo, e tudo pra te agradar, te ver feliz, ela te desmonta em um segundo. Vai dizer que não ficaria o dobro, o triplo do tempo, ou até mesmo um dia inteiro por tão bela recompensa?

As mulheres apaixonadas nos recompensam até quando não percebem.

Observe-a quando acorda. Com aqueles olhos que mal se abriram, cabelo jogado no rosto, ainda com resquícios da maquiagem da noite anterior. Só mesmo elas pra nos darem um presente desses logo pela manhã, o melhor de todos os bom-dia. Não satisfeitas, correm pro banheiro e voltam meia hora depois, lindas como havia de ser. Mas pra nós, não mais que antes.

Porém eu tenho lá as minhas conspirações sobre uma mulher apaixonada. Sei lá, algo que os homens não saibam, como se fosse um acordo entre elas e Deus. Elas têm algum poder, magia, encanto divino, algo que nos faz perder completamente a razão perante um simples e avassalador sorriso. Como se fossem espiãs, espiãs de amor, com o único objetivo de nos tornar os mais realizados desse mundo, e em troca de nada que nossos olhos, olhos de homens, simples mortais, consigam ver. E ficamos assim, estáticos, feito bobos.

Acho que a mulher apaixonada segue uma escala. Nos faz perceber que é feita de amor dos pés à cabeça até corroborarmos esse amor em casamento perante Deus, aquele seu comparsa, pra que assim possamos dar início à plenitude de um amor consumado, ou seja, filhos. A partir daí reparamos que ela escondia o jogo, nos revelando o único sentimento maior que o amor de mulher, e é nessa hora que seu acordo com Deus tem sua apoteose: a mulher apaixonada vira mãe.


São amigas, irmãs, esposas e amantes. Ao mesmo tempo. Mas acima de tudo, são mulheres. Nos atos mais amorosos e mais instintivos - há de haver diferença? - ainda são mulheres. Que se entregam às suas verdades sem medidor de consequências. Que oferecem colo, tornando leve com pena, todo o peso de um amor. Bem... sorte dos homens. Com uma mistura concentrada de responsabilidade. Ainda assim, sorte.  

E dessa maneira descobri que, em vez de observar uma mulher apaixonada, é muito mais válido torná-la apaixonada.

Apaixone uma mulher...







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