terça-feira, 13 de julho de 2010

A mulher que não queria amar








Lembro quando ela disse ser controladora de suas emoções. Dei aquela risada amarela, aguardando que desmentisse, mas fez questão de reafirmar. Tudo bem, cada louco com sua loucura, mas ela foi além, disse que controla sua vontade de amar, aqui, na palma da mão.

Tratava-se de uma bela mulher. Ouvia Adriana Calcanhoto, Djavan, Maria Gadú e Marisa Monte, mas sabia a hora certa de curtir um bom samba e - por que não? - até um funk. Cinéfila de carteirinha, os filmes de Almodóvar eram sua inspiração, mas também apreciava o bom jorra-sangue de Tarantino, os clássicos de Kubrick e Polanski e as superproduções de Spielberg. Sou obrigado a dizer que, do "alto" de seus vinte e poucos anos, é uma das pessoas mais seguras que conheci.

Mas como ninguém é perfeito, não demorei muito pra perceber seu ponto fraco: relacionamentos. Pretendentes havia, e não eram poucos. Possuía predicados suficientes pra chamar atenção de qualquer homem. Poucas vezes passava o sábado a noite desacompanhada, mas raramente ultrapassava esse limite imposto por ela mesma. Dizia que não era o momento, não queria se apegar a ninguém, havia coisas mais importantes.

Que mulher é essa que tem o dom (ou a chaga?) de fazer o amor de fantoche? Como alguém consegue controlar algo tão inesperado e incondicional? Dizia pro amor voltar amanhã, na semana que vem, ou se possível só em 2086. Ela seguia o caminho inverso e bajulava-se por isso. Não era minha intenção, e sei que se meter em vida alheia não é coisa que se faça, mas não tinha jeito: já estava envolvido.

Tentei explicar o quão adorável é dar-se uma chance, deixar que as vontades e o acaso tomem a frente da situação, que nos conduza, mas de maneira vagarosa pra que possamos aproveitar cada momento, cada segundo que nos proporcionam. Perceber que aquele esboço de sorriso ao reparar sua chegada já vale as duas horas enfurnado dentro daquele ônibus, que junto àquela pessoa dá-se a volta ao mundo quantas vezes se quer. Disse que amor não era se apegar à primeira pessoa que surgir, mas que se for de maneira natural e vier a acontecer, que dê licença e abra passagem. Afirmei que autoconfiança é essencial, mas que em excesso pode virar egocentrismo. Disse que o amor é o melhor da vida, porque, da maneira mais simples do mundo,  nos faz feliz.

Gostaria de dizer o contrário, mas seria ilusão. Ela não cedeu e foi além. Quis apostar comigo que teria amor quando quisesse. Abaixei a cabeça, recusei sua proposta e, conclusivo, me rendi. Ela inverteu os papéis. Que o melhor e por vezes mais cruel professor - o tempo, trate de mostrá-la que amor não é meio, é fim. Não é aposta. É recompensa.






Comentários

← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial