sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ensaio para o amor






Gosto de observar as etapas de desenvolvimento de . Aqueles que ainda estão se criando, onde tudo ainda resume-se a sorrisos escancarados, onde o frio na barriga ainda é mais presente que as clássicas DR's. Sim o nascimento do amor, aquelas descobertas, o desejo de alcançar o infinito quando ao lado do recém-amado... Não há dúvidas de que o começo é realmente mágico. Mas remeto-me a um pouquinho antes, quando o amor não passava de um simples flerte.

O flerte é o ensaio pro amor. Serve como um amistoso, pra treinar e estar preparado quando for pra valer. É o início do início, onde nada ainda são flores e nada ainda são trevas. É o momento em que você conhece a pessoa, e digo conhecer em sentido estrito. Você confia, mas sempre com um pé atrás. Você gosta, não há dúvidas, mas passa um pente-fino no facebook e no Instagram dele, ainda que apenas no modo  stalker . Você acredita, e essa, sem sombra de dúvidas, é a parte mais cômica.

Exemplo: um cara puxa assunto contigo numa festa, pergunta seu nome, seu whatsapp, tenta acertar a marca do seu perfume... aquele papo que você conhece melhor que eu. O cara mostra querer saber sobre você, mas quando tu não responde com uma simples e bela ignorada, conversa monossilabicamente. Ele está ali, praticamente um gentleman, a reencarnação de Don Juan, mas você não dá bola, só veio pra dançar, tem namorado, tem que cuidar da amiga bêbada, coisa e tal. É um belo exemplo do teatro do flerte: um homem se fazendo de interessado pra uma mulher que banca a difícil.

Cantaria Nazi, em alguma Rádio Cidade desse Brasil afora: Esse flerte é um flerte fatal...

Isso ocorre também no trabalho, no ponto de ônibus, no velório... O cara, com receio de uma iminente rejeição, apresenta-se como o artilheiro da Champions League Asiática pelo Shandong Luneng, neto de Xeique, ator de Malhação e vencedor do torneio de salto-triplo do clube do bairro. Já a mulher, com intuito de se livrar daquele mala que mais cospe cerveja no seu rosto do que qualquer outra coisa, arruma um noivado com o campeão interestelar de caratê, com o chefe da boca-de-fumo ou com um Hannibal da vida. A verdade, meus caros, é muita clara: não se fazem mais mentiras como antigamente.

Felizes são aqueles que se permitem transcender essa etapa. Permitir-se ao amor é descer do salto, é olhar na mesma altura. Por trás daquele cara inseguro e insistente pode estar a pessoa que lhe amará até seus últimos minutos. É sabido que, transgredindo a garota de poucas palavras, que vira a cara quando passa, que finge um olhar de desdém, pode haver alguém que dará amor até de olhos fechados. Dizer sim pra esse início é abrir uma brecha, e desistir é assinar o atestado de solidão. Curtir o nascimento do amor é dadivoso, mas antes é necessário que se passe pelo período de gravidez, com direito a todas as intempéries.

A regra é instintiva: pra presenciarmos o nascimento amor, é necessário que o façamos.

Faça amor... 






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