Teu colo

Ainda lembro. A grama verde oferecia passagem. Lembro do balé das folhas junto ao vento. Do suicídio das flores quando você passou. Dizem que as flores são invejosas, e naquela noite, haviam perdido o reinado.

Apenas palavras

Carregar em si o peso das palavras nunca foi remédio para a escuridão na linguagem.

A madrugada mais longa

Não, não havíamos planejado nada. Não prometemos confidências. Não oferecemos o branco das nuvens. Apenas sorrisos como quem diz ser amanhã.

Quando

. Quando as luzes não mostrarem os atalhos Quando os livros recolherem suas letras Quando os segredos se tornarem cochichos Quando o riso virar castigo...

Falsas mágoas

Relacionamentos nos obrigam a tomar decisões.Sensatas ou abruptas, no calor do momento ou na serenidade do sofá. Seja pra decidir a poltrona do cinema ou o hiato devido a proposta de trabalho no exterior. O amor nos testa com seu aglomerado de decisões.

sábado, 24 de julho de 2010

Definições sobre uma mulher charmosa




Dentre todas as características existentes em uma mulher, destaco as que mais me chamam atenção: simpatia, inteligência e mais meia-dúzia de clichês. Claro, não me farei de santo aqui dizendo que a parte física pouco ou nada importa, pelo contrário, mas se pudermos juntar ambos atributos, melhor será. Mas deixando de lado as qualidades bonitinhas e aquelas julgadas machistas para alguns, usaria apenas uma palavra pra chegar  quase à perfeição da definição feminina: charme.

E como definir uma mulher charmosa?

A ideia é ampla e eu mesmo não consegui elucidar logo de cara. Podemos dar o primeiro passo se levarmos em consideração o significado da palavra charme, que equivale a encanto e fascinação. Pois bem, qual homem não procura uma mulher que o encante e  fascine? Genérico demais. Mas pra chegarmos a esses dois pontos, é necessário observarmos o que está bem diante de nós.

A mulher charmosa é segura de si. Olha-se no espelho e deixa transparecer um leve sorriso, por mais que suas medidas não sejam convencionais a um estereótipo de beleza, sabe que possui qualidades suficientes pra suprir - e com larga vantagem - essa ditadura da magreza. E mesmo que ela tenha, digamos, tudo no lugar, possui predicados suficientes para chamar atenção por outras mil maneiras que não seja apenas pela parte física, o que reflete em uma beleza transparente, natural e sem artifícios.

Ela é todo um conjunto de nuances. Veste-se da forma que mais a agrada, seja uma minissaia com um generoso decote ou uma calça jeans clara com um topzinho básico. Sabe que há momentos e momentos, e que seu encantamento independe da vestimenta. Além disso, sua sensualidade mais natural e instintiva estará presente em quaisquer modelitos, e em iguais proporções.


Se essas mulheres guardam algum segredo, este só pode estar escondido nos detalhes mais simples. A maneira como elas falam é diferente. Independente do sotaque. Vai da mais arretada pronúncia nordestina até o tri-legal lá do Sul. O jeito delas nos olharem, também. Seja a olho nu ou com um delicado óculos de grau. Seja usando um Prada de três zeros ou uma réplica barata de um Ray Ban Aviator. O jeito de sorrir, então, esse nem se fala. É exagero de charme. Claro, falo aqui do mais espontâneo sorriso, sem cálculos, sem ensaios, sem medo de se mostrar, pelo contrário, escancarando os belos dentes ou até mesmo um gracioso aparelho. 


Mas é preciso dizer que há um toque a mais na mulher charmosa. Ela sabe da importância de ser sempre ela mesma. Conversa sobre moda, política, séries de tevê e literatura. Não se incomoda em falar uns palavrões de vez em quando, o que não diminui sua delicadeza em absolutamente nada. Lê bons livros, mas não abre mão de uma novela. Passa em frente a uma loja de passarinhos e tem vontade de abrir todas aquelas gaiolas e depois sair correndo. Quer salvar o mundo, mas não sabe como. De repente até saiba, e o seu charme é apenas uma maneira de nos convencer a isso. Nunca esquece de ser humana em demasia.

 
A mulher charmosa foi uma grande sacada de Deus. Tal predicado pode estar escondido bem lá no fundo, ou às vezes mais que escancarado, e algumas mulheres nem perceberem. É algo que carregarão consigo durante toda a vida, pois quem é charmosa aos vinte, também é charmosa aos setenta, e com mais intensidade. O charme é inerente à natureza dessas mulheres.

A mulher charmosa tem um quê a mais. Um quê de sei lá o quê.


E, acreditem, isso já explica tudo.




Crônica publicada  no site Superela


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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Algumas verdades sobre términos e recomeços






O fim das expectativas, o término do enlace, a interrupção dos dias de amanhã. Olhos marejados, futuro incerto e lamentos do passado. Há toda uma vontade de não enxergar, de não querer acreditar, mas a realidade é bem clara: o namoro chegou ao final.

Término de namoro é queda livre. O mundo parece girar ao contrário e em câmera lenta, e aquele seu travesseiro velho, que trata de secar suas babas e lágrimas, passa a ser seu melhor amigo e maior confidente. As mais fortes resgatam energia e enchem a cara em algum bar ou mesmo trancadas no quarto, mas, no dia seguinte, retornam à estaca zero e com o dobro da intensidade. Terminar o namoro é sentir-se perdida, desmotivada, afinal, você tinha planos com aquela pessoa e planos a longo ou perpétuo prazos.

Namorar aguardando o término, me desculpe, não é namoro. Quem namora faz planos para a eternidade, mesmo que não conte ao outro e isso independe da idade. Quem namora aos quinze almeja fugir com o amado mediante aquela desastrosa promoção que o pai recebeu pra trabalhar em outro Estado. Quem namora aos vinte e cinco já folheia os classificados sonhando com o primeiro imóvel, e os mais apressadinhos já escolhem os padrinhos. Quem namora aos trinta e cinco passa boa parte do dia pensando na melhor forma de conduzir a convivência do namorado com seu filho ciumento. Namorar é se imaginar já bem velhinho, naquele almoço de domingo, cercado de filhos, netos e bisnetos. E quando isso não ocorre, é interrompido no meio do caminho, não há dúvidas: o sentimento de tragédia é certo.

Você muda o número do celular, mas olha umas setenta e quatro vezes ao dia, aguardando uma ligação dele, nem que seja uma mensagem desaforada. Qualquer casal caminhando de mãos dadas lembra vocês dois. Se ouvir aquela música que tocava no dia do primeiro beijo, danou-se. Tudo não passa da vontade de crer que o amor não se pôs, por mais jogo duro que seja. Olhar pra trás e emendar o passado com o futuro, não querer dizer que tudo aquilo foi em vão, que seus planos não deram certo.

Mas a verdade é que o amor é sarcasmo. Sabe que as próximas nuvens trarão não apenas trovoadas. Não duvida que o acaso pode fazer suas vontades. Esconde o relógio e os calendários e faz pouco das horas e minutos. O tempo também sabe ser o melhor amigo.

Novos ventos soprarão as esperanças de uma outra chance a si mesma. Isso é naturalmente lindo e demasiadamente humano, oferecer-se novamente às esquinas, aos pontos de ônibus, aos passeios com os amigos, e assim fazer questão de ceder passagem ao acaso, rir para as casualidades que surgirem, pois a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida, salve Vinícius.

É jamais esquecer que a fria escuridão cede lugar ao sol. Encontrar-se novamente consigo mesma, aprender com os erros e ratificar as qualidades. Abrir as portas e as janelas da vida, deixar que a brisa de uma nova oportunidade aponte os rumos, esbarrar com o destino na primeira esquina e perceber que, no fim, tudo se fez recomeço.





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terça-feira, 13 de julho de 2010

A mulher que não queria amar








Lembro quando ela disse ser controladora de suas emoções. Dei aquela risada amarela, aguardando que desmentisse, mas fez questão de reafirmar. Tudo bem, cada louco com sua loucura, mas ela foi além, disse que controla sua vontade de amar, aqui, na palma da mão.

Tratava-se de uma bela mulher. Ouvia Adriana Calcanhoto, Djavan, Maria Gadú e Marisa Monte, mas sabia a hora certa de curtir um bom samba e - por que não? - até um funk. Cinéfila de carteirinha, os filmes de Almodóvar eram sua inspiração, mas também apreciava o bom jorra-sangue de Tarantino, os clássicos de Kubrick e Polanski e as superproduções de Spielberg. Sou obrigado a dizer que, do "alto" de seus vinte e poucos anos, é uma das pessoas mais seguras que conheci.

Mas como ninguém é perfeito, não demorei muito pra perceber seu ponto fraco: relacionamentos. Pretendentes havia, e não eram poucos. Possuía predicados suficientes pra chamar atenção de qualquer homem. Poucas vezes passava o sábado a noite desacompanhada, mas raramente ultrapassava esse limite imposto por ela mesma. Dizia que não era o momento, não queria se apegar a ninguém, havia coisas mais importantes.

Que mulher é essa que tem o dom (ou a chaga?) de fazer o amor de fantoche? Como alguém consegue controlar algo tão inesperado e incondicional? Dizia pro amor voltar amanhã, na semana que vem, ou se possível só em 2086. Ela seguia o caminho inverso e bajulava-se por isso. Não era minha intenção, e sei que se meter em vida alheia não é coisa que se faça, mas não tinha jeito: já estava envolvido.

Tentei explicar o quão adorável é dar-se uma chance, deixar que as vontades e o acaso tomem a frente da situação, que nos conduza, mas de maneira vagarosa pra que possamos aproveitar cada momento, cada segundo que nos proporcionam. Perceber que aquele esboço de sorriso ao reparar sua chegada já vale as duas horas enfurnado dentro daquele ônibus, que junto àquela pessoa dá-se a volta ao mundo quantas vezes se quer. Disse que amor não era se apegar à primeira pessoa que surgir, mas que se for de maneira natural e vier a acontecer, que dê licença e abra passagem. Afirmei que autoconfiança é essencial, mas que em excesso pode virar egocentrismo. Disse que o amor é o melhor da vida, porque, da maneira mais simples do mundo,  nos faz feliz.

Gostaria de dizer o contrário, mas seria ilusão. Ela não cedeu e foi além. Quis apostar comigo que teria amor quando quisesse. Abaixei a cabeça, recusei sua proposta e, conclusivo, me rendi. Ela inverteu os papéis. Que o melhor e por vezes mais cruel professor - o tempo, trate de mostrá-la que amor não é meio, é fim. Não é aposta. É recompensa.






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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ensaio para o amor






Gosto de observar as etapas de desenvolvimento de . Aqueles que ainda estão se criando, onde tudo ainda resume-se a sorrisos escancarados, onde o frio na barriga ainda é mais presente que as clássicas DR's. Sim o nascimento do amor, aquelas descobertas, o desejo de alcançar o infinito quando ao lado do recém-amado... Não há dúvidas de que o começo é realmente mágico. Mas remeto-me a um pouquinho antes, quando o amor não passava de um simples flerte.

O flerte é o ensaio pro amor. Serve como um amistoso, pra treinar e estar preparado quando for pra valer. É o início do início, onde nada ainda são flores e nada ainda são trevas. É o momento em que você conhece a pessoa, e digo conhecer em sentido estrito. Você confia, mas sempre com um pé atrás. Você gosta, não há dúvidas, mas passa um pente-fino no facebook e no Instagram dele, ainda que apenas no modo  stalker . Você acredita, e essa, sem sombra de dúvidas, é a parte mais cômica.

Exemplo: um cara puxa assunto contigo numa festa, pergunta seu nome, seu whatsapp, tenta acertar a marca do seu perfume... aquele papo que você conhece melhor que eu. O cara mostra querer saber sobre você, mas quando tu não responde com uma simples e bela ignorada, conversa monossilabicamente. Ele está ali, praticamente um gentleman, a reencarnação de Don Juan, mas você não dá bola, só veio pra dançar, tem namorado, tem que cuidar da amiga bêbada, coisa e tal. É um belo exemplo do teatro do flerte: um homem se fazendo de interessado pra uma mulher que banca a difícil.

Cantaria Nazi, em alguma Rádio Cidade desse Brasil afora: Esse flerte é um flerte fatal...

Isso ocorre também no trabalho, no ponto de ônibus, no velório... O cara, com receio de uma iminente rejeição, apresenta-se como o artilheiro da Champions League Asiática pelo Shandong Luneng, neto de Xeique, ator de Malhação e vencedor do torneio de salto-triplo do clube do bairro. Já a mulher, com intuito de se livrar daquele mala que mais cospe cerveja no seu rosto do que qualquer outra coisa, arruma um noivado com o campeão interestelar de caratê, com o chefe da boca-de-fumo ou com um Hannibal da vida. A verdade, meus caros, é muita clara: não se fazem mais mentiras como antigamente.

Felizes são aqueles que se permitem transcender essa etapa. Permitir-se ao amor é descer do salto, é olhar na mesma altura. Por trás daquele cara inseguro e insistente pode estar a pessoa que lhe amará até seus últimos minutos. É sabido que, transgredindo a garota de poucas palavras, que vira a cara quando passa, que finge um olhar de desdém, pode haver alguém que dará amor até de olhos fechados. Dizer sim pra esse início é abrir uma brecha, e desistir é assinar o atestado de solidão. Curtir o nascimento do amor é dadivoso, mas antes é necessário que se passe pelo período de gravidez, com direito a todas as intempéries.

A regra é instintiva: pra presenciarmos o nascimento amor, é necessário que o façamos.

Faça amor... 






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terça-feira, 6 de julho de 2010

A mulher do meu sonho




 Sonhos são presentes de Deus. Há quem diga ser o primeiro passo pra atingirmos nossos objetivos, e eu assino embaixo. As grandes revelações do nosso subconsciente, as utopias mais bonitas. Foi numa dessas madrugadas que ela surgiu pra mim.

Sonhar com a musa feminina é coisa banal. Eu seria clichê. Meu sonho seguia outra linha, afinal não se tratava de uma qualquer, se tratava dela, a mulher dos meus sonhos, perfeição em forma humana, interna e externamente.

Acordei com uma sensação diferente, e apenas o travesseiro foi testemunha. Era alegria seguida de um vazio. Relutei, mas em vão. Demorei pra admitir a mim mesmo, mas era evidente que a mulher dos meus sonhos não saía mais da minha cabeça.

Não havia um lugarzinho mais fácil pra conhecer alguém assim, do que no meu subconsciente? Mas como não sou de fugir da raia, resolvi dar início à minha saga em busca dessa onírica deusa. Dei-me o direito de desenhá-la conforme bem entendi: ela seria inteligente, mas não metida a esperta. Apreciaria bons filmes, mas saberia exatamente o momento de assistirmos a um romance piegas. Iria gostar de frequentar bons restaurantes, mas não abriria mão de um bom churrasco com os amigos no domingo. Tomaria cerveja naquele boteco da esquina sem problema algum, e diria que, na minha presença, qualquer lugar se tornaria o mais luxuoso palácio. Apreciaria os meus textos, e não sentiria ciúmes das mulheres neles citadas, pois seria conhecedora de seus encantos. Gostaria de casar e ter filhos, mas não agora. Se chorasse, faria o mundo estremecer. Se sorrisse, estremeceria em dobro.

Resolvi procurar em cada rua, esquina, padaria, açougue, locadora, sinal de trânsito e aplicativos de relacionamentos. Procurei em cinemas, boates, cemitérios, motéis, no fundo do mar, na lua, em Vênus, Marte e Júpiter. Anunciei em jornais, outdoors, estampei seu rosto em cada revista, ofereci recompensa. Mas nada. Nem sinal, nem vestígio, nem fagulha. Por que a mulher do meu sonho não queria se mostrar pra mim? Mas veja só, ela invade a minha noite de sono, vira a minha vida ao avesso e me faz procurar por alguém que só existe quando estou em outro plano, e pelo que parece, acha isso extremamente normal. Logo comigo, que sempre achei que se esconder fosse a pior opção.


Talvez a mulher do meu sonho não seja tão perfeita assim. Aliás, será que até a mulher dos meus sonhos seria tão perfeita assim?

A verdade é que o nome disso não é amor. Fiz dela a mulher dos meus sonhos, poderia percorrer o universo inteiro, mesmo assim não a encontraria. Ninguém é dotado do poder de construir amor. Amor de verdade é explícito, escancarado, sem vergonha, sem escuridão, sem esconde-esconde. Quem tem amor se mostra, quem não tem, inventa, torna-se esquizofrênico por opção, alude ao sonhos, constrói quimeras.

Foi aí que, em vez de procurar a mulher dos meus sonhos, permiti ser encontrado pela mulher da minha vida.






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